Fotógrafo Pedro Martinelli recorda em livro  andanças em décadas de ofício e   imagens que marcaram sua carreira

Fotógrafo Pedro Martinelli recorda em livro andanças em décadas de ofício e imagens que marcaram sua carreira

 

Fonte: Bandeira



Em fevereiro de 1973, o fotógrafo Pedro Martinelli tinha 23 anos, trabalhava para o GLOBO e acompanhava uma expedição dos sertanistas Orlando (1914-2002) e Cláudio Villas-Bôas (1916-1998) para contatar os krenakore (também conhecidos como paranás), os “índios gigantes” da Amazônia. Certa tarde, os expedicionários se equilibravam em canoas quando, do meio das árvores, aparece um krenakore empunhando uma flecha. Martinelli fez a foto antes que ele sumisse. A luz estava ótima.

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Para festejar o contato com um povo isolado, os homens começaram a pular, eufóricos — e a canoa virou. Martinelli caiu na água junto com seu equipamento fotográfico. Bateu o desespero.

— Tentavam me acalmar, mas eu só chorava. Queria me enfiar no mato e sumir — conta Martinelli.


Os filmes encharcados foram enviados à sede do GLOBO, no Rio. Com muito cuidado, os funcionários do laboratório conseguiram revelar as imagens, que estamparam a capa do jornal em 11 de fevereiro de 1973. “Dentro da canoa que levou os Villas-Bôas ao ponto onde estavam dois índios da tribo dos gigantes, o fotógrafo Pedro Martinelli fez um documentário completo de todos os lances — alguns dramáticos — que culminaram com a confraternização entre índios e brancos”, dizia o texto.

Martinelli recorda essa e outras aventuras no livro “Olho no mundo”, celebração de uma vida dedicada ao fotojornalismo. As memórias de Martinelli, que bateu ponto no GLOBO de 1970 a 1975, foram coletadas por Carlos Maranhão, biógrafo do magnata da imprensa Roberto Civita (1936-2013).

Nascido em Santo André (SP), Martinelli começou vendendo anúncios para a Gazeta Esportiva e lá encantou-se pela fotografia. Trabalhou em um punhado de jornais e revistas, do Diário do Grande ABC à Veja. Cobriu tragédias, Copas do Mundo, Olimpíadas, conclaves, a Revolução Sandinista da Nicarágua e fotografou Carla Perez para a Playboy.

O fotógrafo Pedro Martinelli, que trabalhou no GLOBO entre 1970 e 1975

Divulgação

“Não adianta você ser um grande fotógrafo e não for um sujeito ousado, safo, descolado, entrão, até meio bandido e capaz de resolver qualquer tipo de problema com presença de espírito”, diz Martinelli no livro. Ele é um craque das “fotos roubadas”, isto é, tirada em situações adversas, sem que ninguém se dê conta.

Flagrantes roubados

Certa vez, ele e o repórter Etevaldo Dias foram ao Paraguai entrevistar o diretor da Itaipu Binacional. A construção da hidrelétrica ainda não começara, e o executivo lhes mostrou, em primeira mão, o projeto da barragem, mas não deixou que Martinelli o registrasse. Assim que o homem saiu da sala, Martinelli fotografou rapidamente o projeto — que acabou na capa do GLOBO. Em represália, os paraguaios cancelaram a entrevista do jornal com o ditador do país, Alfredo Stroessner.

Martinelli desenvolveu técnicas para “fotos roubadas”: em vez de levar a câmara ao rosto, deixava-a na altura do peito e tossia na hora de apertar discretamente o botão, para ninguém ouvir o clique.

— Quando recebia um novo equipamento do jornal, eu ia para a casa, fechava tudo, apagava as luzes e treinava por e tirar o filme no escuro, sem olhar para a máquina. A câmera era uma extensão do meu corpo — diz ele, autor de dois fotolivros sobre os moradores da floresta: “Amazônia, o povo das águas” e “Mulheres da Amazônia”.

Hoje, com 76 anos, Martinelli só fotografa Pretinha, sua vira-lata. E com o celular.

— Não sinto falta de fotografar, mas de publicar. Meu negócio é imprimir foto em jornal, em revista. Para mim, foto boa é aquela que vai para a primeira página.

Serviço:

‘Olho no mundo’

Fotos: Pedro Martinelli. Texto: Carlos Maranhão. Editora: Terra Virgem. Páginas: 168. Preço: R$ 120.