Um dinossauro pequeno, com cerca de 12 quilos, tinha uma alimentação diferente da maioria dos parentes carnívoros. Em vez de caçar outros animais, ele era especializado em comer frutas.
A descoberta de fósseis de uma nova espécie, chamada Infernogallus jamesi, revelou adaptações no crânio que permitiam ao animal triturar frutos com movimentos de mastigação semelhantes aos dos humanos. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Stony Brook, do Museu Real de Ontário e do Serviço Geológico de Dakota do Norte, nos Estados Unidos.
O trabalho foi publicado em 10 de outubro na revista científica Nature Communications. O fóssil foi encontrado na Formação Hell Creek, região que se estende por partes dos estados de Montana, Dakota do Norte, Dakota do Sul e Wyoming.
O local também preserva restos de animais como o tiranossauro (T. rex) e o tricerátops.
O Infernogallus jamesi pertencia ao grupo dos cenagnatídeos — dinossauros sem dentes e com penas. Mesmo quando adulto, tinha aproximadamente o tamanho de um peru e pesava cerca de 12 quilos.
Para entender como o animal se alimentava, os pesquisadores reconstruíram seu crânio com o auxílio de tomografias computadorizadas. A análise revelou uma organização incomum dos músculos responsáveis pela mastigação.
Os ossos do céu da boca apresentavam uma curvatura que alterava a direção de determinados músculos. Em vez de atuar apenas de cima para baixo, como ocorria em dinossauros como o T.
rex, eles permitiam movimentos para frente e para trás. Essa configuração ajudava o animal a triturar alimentos macios, como frutas com caroço, e retirar a polpa ao redor da semente.
Uma estrutura muscular semelhante existe em algumas aves atuais que se alimentam de frutas, como o papagaio-abutre. “Sabíamos que os dinossauros evoluíram para desempenhar diversas funções nos ecossistemas do Cretáceo, mas nunca imaginamos descobrir dinossauros frugívoros”, afirmou Gregory Funston, professor da Universidade de Stony Brook e um dos responsáveis pelo estudo, em comunicado.
A descoberta também levanta uma hipótese sobre o papel desses animais na evolução das plantas com flores. Ao comer frutas, o Infernogallus (que significa “galinha do inferno”) pode ter contribuído para espalhar sementes pelo ambiente, uma função desempenhada atualmente por aves, répteis e mamíferos.
Durante o Cretáceo, as plantas com flores se tornaram cada vez mais comuns e passaram a ocupar um espaço importante na vegetação terrestre. Os pesquisadores sugerem que a especialização alimentar dos cenagnatídeos pode ter acompanhado essa mudança, à medida que as frutas se tornavam maiores e mais frequentes.
A descoberta foi possível graças à preservação de um crânio quase completo e articulado, além de parte do esqueleto. Fósseis de pequenos dinossauros com esse nível de preservação são raros.
Para os pesquisadores, o achado mostra que a variedade de hábitos alimentares dos dinossauros no fim do Cretáceo pode ter sido maior do que se conhecia até agora. O estudo também contribui para as discussões sobre a diversidade desses animais antes da extinção em massa que ocorreu há cerca de 66 milhões de anos.
A existência de espécies com hábitos alimentares especializados indica que ainda há aspectos pouco conhecidos sobre os ecossistemas daquele período.
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