Fóssil de embrião encontrado na África do Sul é a evidência mais antiga de que ancestrais dos mamíferos botavam ovos
Entre 280 milhões e 200 milhões de anos atrás, um grupo de animais evoluiu e daria origem aos mamíferos, incluindo os humanos: os terápsidos. Eles foram descritos pela primeira vez há mais de 150 anos, com base em fósseis da África do Sul. Desde então, muitos outros fósseis foram descobertos.
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James Kitching, um dos mais talentosos caçadores de fósseis sul-africanos do século XX, escavou milhares de terápsidos nas rochas do Karoo (uma região semiárida do interior do país). Ele também encontrou ovos fossilizados de dinossauros, mas nem ele nem qualquer paleontólogo depois dele jamais encontraram ovos de terápsidos.
Eles deveriam existir, já que alguns mamíferos (como o ornitorrinco e as equidnas) botam ovos. Ainda assim, Kitching passou a duvidar que os terápsidos fossem ovíparos: talvez, pensou ele, fossem como a maioria de seus descendentes mamíferos e já dessem à luz filhotes vivos?
Somos cientistas que estudam animais extintos e os ambientes em que viveram milhões de anos atrás para entender melhor a evolução da vida. Em nosso novo artigo, descrevemos, pela primeira vez, um ovo fossilizado contendo um embrião de um ancestral dos mamíferos de 250 milhões de anos.
A descoberta finalmente mostra que os terápsidos eram, de fato, ovíparos. Isso lança nova luz sobre a reprodução e as estratégias de sobrevivência desse grupo de animais.
Um mistério de 20 anos
O ovo fossilizado com embrião que descrevemos foi encontrado perto de Oviston, na província do Cabo Oriental, na África do Sul, pelo paleontólogo John Nyaphuli, de Bloemfontein, em 2008. Ele foi mantido no Museu Nacional de Bloemfontein. Sabíamos que pertencia a uma espécie chamada Lystrosaurus, que viveu entre 252 milhões e 250 milhões de anos atrás, mas não sabíamos se ela botava ovos. O animal adulto lembrava um porco, com pele nua, bico semelhante ao de uma tartaruga e duas presas voltadas para baixo.
A razão pela qual levou 20 anos para provar que ele esteve dentro de um ovo é que o fóssil não preserva casca. Apenas um embrião enrolado é visível. Se havia casca, provavelmente era flexível ou se dissolveu. Apenas os dinossauros mais avançados botavam ovos com casca rígida. Mas como descobrir se esse filhote já esteve dentro de um ovo?
A resposta veio com tecnologia avançada da Instalação Europeia de Radiação Síncrotron, em Grenoble, na França. Lá, utilizamos uma poderosa fonte de raios X para examinar o interior dos ossos do embrião. O método revelou detalhes essenciais, sobretudo seu estágio de desenvolvimento.
Descobrimos que a mandíbula inferior do bico não estava completamente fundida. Essa característica só é observada em tartarugas e aves modernas, nas quais os ossos da mandíbula se fundem antes do nascimento para garantir um bico forte o suficiente para o filhote se alimentar.
Isso indica que o embrião de Lystrosaurus morreu ainda dentro do ovo, envolto em uma casca macia e flexível — exatamente a evidência que os paleontólogos buscavam. Graças à análise com síncrotron, foi possível comprovar que o embrião pertencia a um filhote que não chegou a nascer.
Um sobrevivente notável
O que isso revela sobre a estratégia de sobrevivência do Lystrosaurus?
Esse terápsido herbívoro é famoso por sobreviver à “Grande Morte”, uma extinção em massa ocorrida há 252 milhões de anos, quando cerca de 90% de todas as formas de vida na Terra desapareceram. A vida quase deixou de existir, tornando esse evento o segundo mais importante da história do planeta, atrás apenas da origem da vida.
Ainda é um mistério como o Lystrosaurus conseguiu sobreviver, mas o ovo oferece pistas. O fóssil indica que o animal botava ovos grandes em relação ao tamanho do corpo. Espécies que produzem ovos grandes alimentam seus embriões com vitelo, não com leite, e os filhotes já se desenvolvem bastante antes de nascer. Isso sugere que o Lystrosaurus não alimentava seus filhotes com leite.
Além disso, ovos maiores são menos suscetíveis à desidratação. Quanto maior o ovo, menor sua área de superfície proporcional, o que reduz a perda de água através da casca flexível. Em um ambiente seco, como o que existia durante e após a extinção em massa, isso representava uma vantagem significativa — especialmente porque ovos com casca rígida só surgiriam cerca de 50 milhões de anos depois.
Outro ponto é que ovos grandes indicam que os filhotes já nasciam em estágio avançado de desenvolvimento. Isso significa que podiam se alimentar sozinhos, fugir de predadores e atingir a maturidade mais rapidamente, reproduzindo-se cedo.
Crescer rápido, reproduzir cedo e se espalhar foram, possivelmente, os segredos da sobrevivência do Lystrosaurus.
A identificação desse ovo fossilizado amplia o entendimento sobre a origem da reprodução dos mamíferos e da lactação, além de ajudar a explicar como essa espécie sobreviveu à maior crise biológica da história — conhecimento que pode contribuir para compreender como as espécies atuais enfrentarão a chamada sexta extinção em massa.
*Julien Benoit é professor associado de Paleontologia de Vertebrados na Universidade de Witwatersrand. Jennifer Botha é cientista especialista de museu e chefe de departamento (Museu Nacional, Bloemfontein) e pesquisadora afiliada na Universidade do Estado Livre. Vincent Fernandez é gerente do laboratório de tomografia computadorizada por raios X do Museu de História Natural.
*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
