Fósseis de 1 milhão de anos revelam que extinções moldaram a fauna da Nova Zelândia antes dos humanos

 

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Quem eram os “moradores” da Nova Zelândia muito antes de qualquer presença humana — e o que aconteceu com eles ao longo do tempo? Uma descoberta paleontológica em uma caverna da Ilha Norte ajuda a responder a essas perguntas e ainda muda o que se sabia sobre a evolução da fauna local. Fósseis de vertebrados terrestres com cerca de 1 milhão de anos revelam que extinções e substituições de espécies já ocorriam de forma intensa, impulsionadas por forças naturais, muito antes da chegada do homem.

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Os achados foram descritos em um estudo publicado nesta segunda-feira (26) na revista Alcheringa: An Australasian Journal of Palaeontology. Trata-se do primeiro conjunto de fósseis de animais terrestres do Pleistoceno Inferior — período entre 2,6 milhões e 780 mil anos atrás — encontrado em uma caverna na Nova Zelândia, o que permite reconstruir como era a vida na região em um passado remoto.

Uma fauna que desapareceu e deu lugar a outra

Os fósseis foram encontrados na chamada Caverna da Casca de Ovo de Moa, próxima às cavernas de Waitomo, e incluem restos de quatro espécies de rãs do gênero Leiopelma e de doze espécies de aves. Pelo menos quatro — e possivelmente seis — dessas aves não aparecem em registros fósseis mais recentes, indicando uma profunda renovação da fauna ao longo do último milhão de anos. Segundo o estudo, a fauna anterior a uma grande erupção vulcânica mostra uma substituição de 33% a 50% das espécies de aves nesse intervalo.

Entre os achados mais relevantes estão duas espécies até então desconhecidas: Strigops insulaborealis, um parente ancestral do papagaio kākāpō, e Porphyrio claytongreenei, ligado ao takahē moderno. O estudo também registra, pela primeira vez, a presença de um tipo antigo de pombo do grupo dos phabines na Nova Zelândia pré-histórica.

A idade dos fósseis foi determinada com precisão graças à presença de duas camadas de cinzas vulcânicas, conhecidas como tefra. A mais antiga data de uma erupção ocorrida há 1,55 milhão de anos, enquanto a superior corresponde à supererupção de Kidnappers, de cerca de 1 milhão de anos atrás. Um espeleotema com 535 mil anos, encontrado sobre os sedimentos, reforçou a cronologia do local, hoje considerado a caverna fossilífera mais antiga conhecida na Ilha Norte.

De acordo com Trevor Worthy, autor principal do estudo, os fósseis “fornecem uma base fundamental que faltava na história natural do país”, ao estabelecer um ponto de referência para entender como a fauna evoluiu. A pesquisa foi conduzida por uma equipe multidisciplinar da Universidade Flinders e do Museu de Canterbury, com apoio de vulcanólogos das universidades de Auckland e Victoria de Wellington.

Os resultados desafiam a visão de que as grandes extinções na Nova Zelândia estariam ligadas exclusivamente à chegada dos humanos, há cerca de 750 anos. Segundo Worthy, forças naturais como mudanças climáticas rápidas e erupções vulcânicas de grande escala já moldavam a biodiversidade local muito antes disso. Além de preencher uma lacuna no registro fóssil, a descoberta oferece novas pistas sobre como espécies chegam, se adaptam — ou desaparecem — em ilhas oceânicas diante de crises ambientais extremas.