Das 25,4 milhões de empresas ativas no país, mais de 24 milhões são pequenos negócios que contribuem com 26,5% do PIB. E, apesar dos desafios que o empreendedor brasileiro enfrenta, a expectativa é que esses números aumentem ainda mais. Segundo pesquisa realizada pelo Sebrae, 42,5 milhões de pessoas dizem que gostariam de começar um negócio em até três anos. “Ser dono do próprio tempo significa ser dono da própria vida, e a carteira de trabalho não é mais sinônimo de segurança”, afirmou Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, no 2º Fórum Sicredi Empreender, realizado em São Paulo. O evento reuniu especialistas, executivos e representantes de organizações ligadas ao setor em debates sobre pequenos negócios, tecnologia, empreendedorismo feminino e acesso ao crédito. Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, disse que ser dono do próprio tempo significa ser dono da própria vida Felipe Iruatã Na abertura do Fórum, César Bochi, diretor-presidente do Banco Cooperativo Sicredi, falou sobre a transformação do perfil do empreendedorismo, mas ressaltou que os velhos obstáculos permanecem, como as altas taxas de juros e o endividamento das famílias.
De acordo com dados do Instituto Locomotiva e do Sebrae, 48% dos empreendedores pertencem à classe C, e 10% são das classes D e E. Na visão de Meirelles, a grande dificuldade para essas faixas está na proteção financeira e na impossibilidade de errar. “Estamos falando do brasileiro que acorda cedo, dorme tarde e vive no limite entre continuar ou quebrar”, disse.
Para ele, o cooperativismo oferece, além de crédito, uma rede de proteção e apoio que reduz o risco individual para quem está começando. Participantes durante o painel “Empresas preparadas para o futuro” (Felipe Iruatã) Felipe Iruatã Tecnologia para os pequenos O painel sobre as perspectivas de futuro, mediado pelo diretor executivo de Crédito e Segmentos do Sicredi, Gustavo Freitas, discutiu como pequenas empresas podem incorporar novas ferramentas sem perder de vista as necessidades do próprio negócio. Marcos Troyjo, economista, cientista político e diplomata, citou a importância do domínio de inovações matriciais, como as plataformas de inteligência artificial, para manter a competitividade.
Apoiando o fortalecimento dos pequenos, Marcelo Porteiro, superintendente de Operações e Canais Digitais do BNDES, defendeu a união entre a esfera pública e o cooperativismo de crédito para internalizar a inovação, apontando que o sucesso depende do tripé tecnologia, ciência e governança. Ele também destacou que o empresário deve buscar entender quais são as soluções que realmente geram valor.
Os especialistas ainda levantaram a questão do uso da tecnologia no crédito, que permite processos mais rápidos, mas que depende da qualidade das informações fornecidas pelo empreendedor. Na visão de Porteiro, empresas com dados financeiros organizados conseguem apresentar melhor sua situação e facilitar a avaliação de crédito. A proximidade com o associado das cooperativas do Sicredi foi apontada como uma característica que pode contribuir nesse processo. A instituição tem mais de 1,6 milhão de associados empresariais e carteira de crédito para pessoas jurídicas superior a R$ 110 bilhões. As micro, pequenas e médias representam quase 90% desse saldo. Atualmente, cerca de 28% das pequenas empresas brasileiras são associadas ao Sicredi. Participantes durante o painel “Mulheres que transformam: empreendedorismo, impacto e geração de valor” (Felipe Iruatã) Felipe Iruatã Mulheres se deparam com mais barreiras O Fórum contou com um painel focado na discussão sobre o empreendedorismo feminino. As participantes destacaram que as dificuldades enfrentadas pelas mulheres não ficam restritas à administração dos negócios. Trabalho doméstico, cuidado com familiares e vieses nos processos de concessão de crédito também interferem na capacidade de empreender. Caroline Moreira de Aguiar, coordenadora educacional da Rede Mulher Empreendedora, citou uma pesquisa que mostra que mais de 80% das donas de empresas são responsáveis pelo cuidado do lar, uma sobrecarga que reduz o tempo disponível para a atividade empresarial.
A coordenadora Nacional do Sebrae Delas, Renata Malheiros, frisou que as mulheres conseguem investir 17% menos horas do que homens empreendedores e precisam dedicar o dobro de tempo para tarefas domésticas. “Faltam políticas públicas, universalização de crédito, escolas integrais e apoio.” Adriana Barbosa, fundadora da Feira Preta e CEO do Instituto Feira Preta, avaliou que para mulheres negras as dificuldades são ainda maiores, principalmente na obtenção de crédito. E reforçou que a lente de raça é fundamental para pensar em políticas públicas que corrijam essas diferenças. Por outro lado, as participantes reforçaram o poder feminino na multiplicação dos ganhos. “O dinheiro que uma mulher mobiliza não se finda nela. Vai para a família, para o entorno, para a sociedade”, disse Adriana.
De acordo com o Sicredi, cerca de 30% das empresas associadas à instituição têm liderança feminina e, em 2026, até julho, foram concedidos R$ 5,5 bilhões em crédito para 68 mil empresas, em mais de 3 mil cidades.
Jessica Jackley, cofundadora da Kiva, mostrou como pequenos aportes de capital podem influenciar um negócio em fase inicial Felipe Iruatã Inclusão financeira Na palestra que encerrou o Fórum, Jessica Jackley, cofundadora da Kiva, contou a história de um fabricante de tijolos que conheceu em Uganda, durante uma viagem pela África, que ajudou a moldar a ideia que deu origem à sua organização. Na época, Jackley entrevistava pessoas para entender como obtinham e utilizavam dinheiro, quando se deparou com um homem que havia perdido praticamente tudo e passou a fabricar tijolos manualmente. Com o valor das primeiras vendas comprou um molde, ampliou a produção e, posteriormente, construiu um forno. O caso chamou a atenção da empreendedora para o efeito que pequenos aportes de capital podem ter sobre um negócio em fase inicial. A experiência contribuiu para a criação da Kiva, inicialmente baseada em empréstimos de US$ 25 feitos por pessoas interessadas em financiar pequenos empresários. O projeto começou com um piloto de US$ 3 mil e, segundo Jackley, chegou a US$ 2,5 bilhões em empréstimos em 90 países. A trajetória também mudou a forma como Jackley passou a enxergar o acesso a recursos. Em vez de concentrar a discussão sobre pobreza na falta de dinheiro, ela passou a destacar a capacidade dos empreendedores de identificar oportunidades e expandirem quando encontram condições.
Nesse contexto, o crédito deixa de ser apenas um instrumento para financiar uma necessidade imediata e passa a fazer parte das condições para que pequenos negócios desenvolvam projetos e ampliem sua atividade. “Insista na esperança, ela é escolha, é estratégia e se transforma em ação quando você insiste em projetar o que ainda pode construir”, comentou Jessica.
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