Reportagem do Wall Street Journal (WSJ) apresenta Luiz Inácio Lula da Silva como a principal força eleitoral da esquerda brasileira e, ao mesmo tempo, o maior problema para a renovação desse campo político. Aos 80 anos, Lula continua sendo o único líder da esquerda com força nacional suficiente para disputar a Presidência em condições competitivas, mas sua longa predominância acabou dificultando o surgimento de sucessores. O PT se consolidou como uma das principais forças da política brasileira sob sua liderança, porém não construiu uma alternativa capaz de ocupar seu espaço. As experiências anteriores de sucessão, como Dilma Rousseff e Fernando Haddad, não produziram uma liderança com a mesma capacidade eleitoral.
Nesse contexto, a eleição ganha uma dimensão que vai além da disputa pelo próximo mandato. O jornal considera que Lula deve chegar ao segundo turno contra Flávio Bolsonaro e afirma que uma eventual derrota poderia deixar a esquerda afastada do poder por vários anos, justamente num momento em que novas lideranças vêm surgindo com rapidez à direita não apenas no Brasil, mas na América do Sul. Uma vitória, por outro lado, daria a Lula mais quatro anos para administrar a transição e tentar preparar o futuro político do campo que lidera. Fora do governo, sem a estrutura e a influência do poder presidencial, essa tarefa seria muito mais difícil.
O WSJ também destaca que a força de Lula está fortemente ligada à sua trajetória pessoal. Sua origem pobre, a passagem pelo movimento sindical e a identificação construída ao longo de décadas continuam garantindo a ele uma relação particular com eleitores de baixa renda. O jornal observa que essa ligação permanece mesmo entre pessoas que consideram o governo Lula marcado pelos escândalos de corrupção. A habilidade política do presidente também é apontada como uma de suas principais características: Lula é descrito como alguém capaz de atrair adversários, construir coalizões amplas e navegar pela política de alianças brasileira.
A idade e as condições físicas de Lula aparecem na reportagem como parte desse problema de sucessão, mas a questão central não é simplesmente sua saúde, mas a dependência da esquerda em relação a uma liderança que, depois de um quarto de século no centro da política nacional, ainda não deixou um herdeiro político com autoridade comparável.
O WSJ conclui que a enorme força de Lula produziu, assim, uma contradição para a esquerda brasileira: ele é hoje seu candidato mais competitivo, mas sua própria hegemonia tornou mais difícil a construção de uma liderança para o futuro.
Brenno Carvalho/Agência O Globo
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