Foragidos: operação no Vidigal volta a revelar presença de chefes de facção de outros estados no Rio

 

Fonte:


Uma ação deflagrada por policiais civis da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), nesta segunda-feira, no Morro do Vidigal, na Zona Sul, que tinha o objetivo de prender o traficante Ednaldo Pereira Souza, de 38 anos, conhecido como “Dada”, voltou a mostrar a presença de bandidos de outros estados em morros e favelas cariocas. Dada é apontado pelo Ministério Público da Bahia e pela Secretaria de Segurança baiana como chefe do Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), grupo criminoso que atua no sul da Bahia e é aliado ao Comando Vermelho (CV). O suspeito conseguiu fugir do cerco ao acessar uma espécie de passagem secreta estreita em uma residência de luxo.

Foragido da Bahia e escondido no Rio: quem é o traficante Dada, alvo da operação que deixou turistas 'presos' no Morro Dois Irmãos

Ré pela morte do filho: mãe de Henry Borel, Monique Medeiros se entrega na delegacia de Bangu

Segundo a polícia, Dada estava escondido na Rocinha. Ele alugou uma casa de alto padrão no Vidigal para passar o feriado de Tiradentes, e mais alguns dias, com familiares e amigos. Nesta segunda-feira, a polícia localizou o imóvel, que teria piscina e vista para o mar, em uma área elevada da comunidade, próxima à mata. Houve tiroteio e o suspeito fugiu. Por conta da troca de tiros, um grupo de 200 turistas que acompanhava o nascer do sol, chegou a ficar "ilhado" no mirante do Morro Dois irmãos, que fica na parte alta do Vidigal, por pouco mais de meia hora. Ninguém ficou ferido.

Turistas ilhados no alto do Morro Dois irmãos

Fabiano Rocha/Agência O Globo

Apesar da fuga do traficante, que tem oito mandados de prisão expedidos em seu nome, três pessoas oriundas de outros estados foram presas na operação.

Uma delas é Patrick Cesar Tobias Xavier, o Bart. Ele estava com mochilas contendo drogas, roupas camufladas e rádio comunicador, e foi preso em flagrante. Ao ser detido, apresentou documentos falsos que o identificavam como outra pessoa. Com um mandado de prisão expedido pela Justiça de Goiás, Bart era considerado foragido. O nome do suspeito consta no Projeto Captura do Ministério da Justiça e Segurança Pública, programa que monitora indivíduos de alta periculosidade com atuação relevante no crime organizado.

O segundo capturado foi Christian Fernandes Rodrigues da Silva. Natural de Minas Gerais, ele foi preso em flagrante delito portando um fuzil Colt calibre 5,56 e uma pistola Canik calibre 9 mm com numeração raspada.

Já Núbia Santos Oliveira foi detida com base em mandados de prisão pelos crimes de organização criminosa, tráfico de drogas e associação para o tráfico. Apontada como operadora financeira do Primeiro Comando de Eunápolis, ela é suspeita de ser responsável pela gestão de recursos ilícitos e pela sustentação logística da organização, mantendo ligação direta com lideranças da facção.

Segundo a Polícia Civil, Núbia seria esposa de um dos chefes do Comando Vermelho na Bahia, Wallas Souza Soares, conhecido como "Patola". Segundo dados do site do Conselho Nacional de Justiça, havia dois mandados de prisão expedidos em nome dela pelo Tribunal de Justiça da Bahia.

Não é a primeira vez que pessoas ligadas ao tráfico de outros estados se escondem em favelas e morros do Rio de Janeiro. Em abril de 2024, O Globo publicou matéria revelando que pelo menos 101 bandidos vindos de fora do Rio, incluindo a cúpula do Comando Vermelho do Pará, estavam escondidos, na época, em comunidades cariocas. Do Rio, eles passaram a chefiar remotamente negócios ilícitos em seus estados de origem.

Além do abrigo, os traficantes forasteiros adotaram práticas do Comando Vermelho, entre elas a exigência de pagamento de taxas pelos comerciantes. Há também razões financeiras em jogo: o esconderijo nas comunidades do Rio é pago. Na Rocinha, por exemplo, os criminosos de outros estados têm que pagar uma taxa aos traficantes locais. Os valores podem chegar a R$ 100 mil por mês.

Em outubro de 2025, a Polícia Civil do Rio de Janeiro e a Polícia Militar realizaram uma operação nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte. Houve forte tiroteio, e 122 pessoas morreram, sendo cinco policiais e 117 suspeitos. Desse último grupo, pelo menos 40 eram de outros estados, entre eles Pará, Amazonas, Bahia, Goiás e Paraíba. Na ocasião, 113 pessoas foram presas, 33 delas oriundas de outros estados.

Initial plugin text