'Fomos jogados na rua, como cachorros', contam palestinos de Gaza que vivem desde começo da guerra em vestiário de estádio na Cisjordânia

 

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Sob as arquibancadas de um estádio na Cisjordânia, uma dezena de homens da Faixa de Gaza vive de modo improvisado em um carcomido vestiário, impedidos de voltar para casa. É mais uma sequela da guerra que eclodiu em outubro de 2023 entre Israel e o Hamas.

Entre os exilados está Sameer Abu Salah, de 54 anos. Poucos dias antes dos ataques do Hamas, em outubro de 2023, que desencadearam o conflito, com a morte de mais de 1.200 pessoas, em sua maioria israelenses, ele atravessou a fronteira para Israel com o objetivo de trabalhar como uma espécie de faz-tudo em Tel Aviv. Em Israel, os salários, conta, são muito superiores aos de sua cidade de origem, Khan Yunis, em Gaza. Com o conflito em curso, teve de se deslocar para Nablus, no norte da Cisjordânia ocupada, onde agora se encontra em uma espécie de limbo. Mais de 72 mil palestinos foram mortos na Faixa de Gaza desde então e todos os entrevistados para esta reportagem contaram que perderam suas casas em ataques aéreos israelenses.

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— Entrei em Israel quatro dias antes da guerra — disse o homem, do pequeno espaço que montou debaixo das arquibancadas do estádio municipal de Nablus. — Era um sujeito respeitado e honrado, e aí o conflito começou. Cá estou.

Abu Salah sobrevive agora recolhendo e revendendo recicláveis. Ele conta que envia o pouco dinheiro que ganha à família. E que perdeu dois filhos desde então em ataques aéreos israelenses.

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— Moro numa barraca. Fomos jogados na rua, como cachorros — acrescentou.

Abu Salah, que se diz "obcecado por limpeza", fez o que pôde com o pouco que tinha: improvisou uma cômoda com caixas de papelão e decorou as paredes com bandeiras palestinas e um retrato do líder nacional Yasser Arafat (1919-2004), que encontrou em suas varreduras pelas ruas de Nablus.

Sameer Abu Salah, de 54 anos, arruma sapatos em sua barraca em um acampamento no Estádio de Futebol de Nablus

ZAIN JAAFAR / AFP

Em março, o Ministério do Trabalho da Autoridade Palestina informou ter prestado assistência financeira a 4.605 palestinos do enclave, retidos na Cisjordânia. Embora sair dos limites da cidade seja tolerado, os homens que vivem sob as arquibancadas em Nablus temem fazê-lo, citando amigos que foram detidos em postos de controle do Exército israelense e enviados sem nada de volta a Gaza.

Sameer Abu Salah coloca sapatos em um varal para secar ao sol depois de lavá-los, em seu acampamento

ZAIN JAAFAR / AFP

'Na prisão'

— Estamos numa [espécie de] prisão — resumiu Sameh, que chegou a Nablus 10 dias antes do início da guerra para buscar tratamento médico para o filho, indisponível em Gaza.

O filho voltou, mas Sameh, que preferiu não revelar o sobrenome por temer represálias, permaneceu na Cisjordânia para sustentar a família. No vestiário, pendurou lençóis em cordas para dividir seu espaço pessoal, de uma maneira que o faz lembrar ods grandes acampamentos de tendas de Gaza, "para assim viver exatamente como minha família".

Já o empresário do ramo de alimentação Nahed al-Hilou, de 43 anos, que agora vive em Ramallah, capital administrativa da Cisjordânia e a 60km de Nablus, teme deixar a cidade, para onde foi realocado. Dois dias entes dos ataques de 7 de outubro de 2023 ele atravessou a fronteira norte, em direção a Tel Aviv, após obter uma licença comercial para buscar mercadorias por ele compradas, que iria transportar para o enclave e usar em seu restaurante no bairro nobre de Rimal, na Cidade de Gaza. Nele trabalhavam 30 funcionários.

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Recomeçou a vida em Ramallah, onde abriu um bem-sucedido restaurante de falafel no centro da cidade. O que ganha, conta, dá para sobreviver e alimentar sua família, que segue em Gaza.

— Recorri ao que sei: ao meu trabalho, à minha profissão, a algo que amo.

Atualmente, ele emprega nove pessoas, todas oriundas do enclave, e cozinha ao estilo de Gaza: mais apimentado. Como todos os que deixaram a terra natal, preocupa-se constantemente com a família imediata. E conta que a sorte, apesaar de tudo, o ajudou — todos os seus familiares sobreviveram à guerra.

Sob as arquibancadas de concreto do estádio, uma dúzia de homens vive em um antigo vestiário

ZAIN JAAFAR / AFP

— Mas passamos 20 dias sem saber nada deles — contou.

Questionado sobre a possibilidade de retornar, faz um gesto de tempo que já acabou e não volta mais:

— Claro que [além da famé mais querida por mim do que aqui, mas lá não sobrou lar, não sobrou mais nada

Sem empregos, preços nas alturas

A ONU informa que 81% das estruturas de Gaza foram destruídas durante a guerra, assim como sua economia. O desemprego é estimado em 80% e os preços dos alimentos dispararam, em parte devido às restrições israelenses à entrada de caminhões com auxílio humanitário .

Israel ainda controla cerca de metade de Gaza, e ataques israelenses mataram pelo menos 846 pessoas desde o início do cessar-fogo mediado pelos Estados Unidos, em outubro de 2025

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Shahdeh Zaarb, de 45 anos, tem mais sorte do que os outros exilados oriundos de Gaza: possui residência na Cisjordânia, onde trabalha regularmente há 20 anos. Natural de Beit Lahia, no norte do enclave, localidade célebre, antes da guerra, por seus campos de morango, Zaarb agora tem uma fazenda em Qalqilya. Mas, apesar de ter mais conforto em relação à maioria dos que vieram da Faixa de Gaza, não vê os filhos, conta, desde 2021:

— Meus filhos estão lá, num lugar, e eu estou aqui, em outro, e não posso trazê-los para cá porque agora todas as passagens estão fechadas — lamentou Zaarb.