Flávio prepara peça para se defender do caso ‘Dark Horse’ e adota

Flávio prepara peça para se defender do caso ‘Dark Horse’ e adota 'respostas curtas' para evitar repercussão

Fonte: Bandeira da fonte

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) prepara uma peça específica para responder a ataques relacionados a Dark Horse, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro cujo financiamento se tornou um dos principais focos de desgaste do presidenciável.
Ao mesmo tempo, o episódio entrou no roteiro de preparação do candidato para a sequência de entrevistas e sabatinas da campanha, numa tentativa de reduzir o risco de que novas declarações prolonguem uma controvérsia que seu entorno tenta deixar para trás.
A preparação faz parte de uma orientação mais ampla que os estrategistas vêm montando para Flávio lidar com as polêmicas da campanha.
O chamado “protocolo” prevê respostas curtas para perguntas sobre temas sensíveis, sem que o candidato se alongue em explicações.
A orientação é responder de forma objetiva e, na sequência, direcionar o discurso para ataques a Lula.

Nesta quinta-feira, Flávio ficará sem agendas públicas e passará o dia em Brasília se preparando para a sabatina do Jornal Nacional, marcada para sexta.
Auxiliares consideram inevitável que o financiamento de Dark Horse esteja entre os assuntos abordados e reservam parte da preparação para revisar com o senador a maneira de responder às cobranças.
O exercício faz parte de um trabalho mais amplo sobre temas considerados sensíveis pela campanha e que devem reaparecer à medida que aumenta a exposição do candidato.
Flávio vem sendo preparado há cerca de duas semanas para perguntas consideradas mais espinhosas, sobretudo diante da sequência de entrevistas de maior audiência.
A ideia, porém, é que a mudança não fique restrita à sabatina do JN, mas se torne uma orientação mais geral para o discurso do candidato durante a campanha.

No caso do filme, a preocupação é sobretudo impedir que Flávio produza, ao tentar responder, novos fatos capazes de estender a crise.
Desde que as negociações para financiar a obra vieram a público, declarações do próprio senador passaram a alimentar diferentes frentes de cobrança, da promessa de uma prestação de contas à possibilidade de divulgação de contratos.
A avaliação agora é que respostas mais extensas podem abrir novas discussões sobre um episódio que a campanha prefere não recolocar espontaneamente na agenda.
A linha que Flávio vem adotando dá pistas do caminho escolhido.
O candidato sustenta que os recursos destinados à produção são privados, afirma que a prestação de contas já foi feita pelos responsáveis pelo longa e remete à produtora as explicações técnicas sobre o financiamento.
Nas últimas semanas, também passou a reagir às perguntas dizendo considerar Dark Horse um assunto encerrado e tentando deslocar o debate para temas negativos para o governo Lula.
O comportamento de Flávio ao ser questionado sobre Dark Horse nos últimos dias é um exemplo dessa orientação.
Em vez de se alongar sobre o financiamento, o senador passou a responder de forma mais curta e rapidamente deslocar o discurso para críticas a Lula.
A avaliação da equipe é que esse tipo de resposta reduz o espaço para novas cobranças e evita que o candidato, ao tentar se explicar, produza novas declarações capazes de prolongar a crise.

A preparação para as entrevistas se conecta a uma segunda frente montada pelo QG.
A equipe trabalha numa peça de resposta sobre Dark Horse para ser usada caso o episódio seja explorado pelos adversários na propaganda eleitoral.
O material deverá permanecer de prontidão enquanto a campanha acompanha principalmente os movimentos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) antes de decidir se leva a controvérsia para a televisão.
A orientação, neste momento, é não antecipar o confronto.
O cálculo é que colocar Dark Horse espontaneamente no horário eleitoral poderia devolver visibilidade a um tema que Flávio tenta retirar do debate.
Se Lula decidir explorar o episódio - o que é o caso segundo fontes da campanha do petista-, porém, a campanha quer ter uma reação previamente preparada, em vez de construir uma resposta sob pressão depois de um eventual ataque.
A combinação das duas estratégias — preparar Flávio para responder pessoalmente e deixar uma peça eleitoral na reserva — reflete uma preocupação do QG com a nova etapa da campanha.
Com o início do horário eleitoral e uma possibilidade de entrevistas de maior audiência, o senador terá menos controle sobre os assuntos aos quais será confrontado.

Ligações com Master
Dark Horse ganhou esse status depois que seu financiamento passou a ser alvo de questionamentos.
Em maio, o site The Intercept revelou mensagens trocadas entre Flávio e Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, nas quais o senador buscava recursos para financiar a produção sobre o pai.
Segundo a publicação, foram negociados R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões teriam sido efetivamente repassados.
Parte do dinheiro teria transitado por uma empresa ligada a Vorcaro e pelo Havengate, fundo sediado no Texas e controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
A Polícia Federal abriu uma investigação para apurar se recursos relacionados ao projeto foram utilizados para custear despesas de Eduardo nos Estados Unidos.
Até o momento, não há conclusão da investigação que aponte que isso tenha ocorrido.
O assunto voltou a ganhar exposição nesta semana depois de o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a PF a acessar provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo numa investigação que envolve a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa.
O compartilhamento ocorreu no âmbito de uma apuração sobre a destinação de emendas parlamentares.
Desde que o financiamento veio a público, a própria forma como Flávio trata o episódio mudou.
Inicialmente, o senador afirmou ter solicitado à produtora e ao fundo americano uma prestação de contas das despesas e estabeleceu prazo de 30 dias para que as informações fossem apresentadas de forma transparente.
Também disse que poderia divulgar o contrato relacionado ao financiamento caso seus advogados autorizassem.
Nas últimas semanas, passou a sustentar que as explicações já foram prestadas e a tratar o assunto como superado.
A Go Up apresentou à Polícia Civil uma perícia privada contratada pela defesa de sua proprietária, Karina Ferreira da Gama, que calculou em cerca de R$ 75,2 milhões os gastos com o longa e afirmou não ter identificado o emprego, na produção, de recursos públicos provenientes de outros contratos, emendas parlamentares ou da Lei Rouanet.
O próprio calendário de Dark Horse também deixou de representar uma pressão imediata para a campanha.
A estreia, que chegou a ser projetada para setembro, deverá ocorrer somente depois das eleições.
Wilson Feitosa, diretor-geral da Europa Filmes, distribuidora do longa, afirmou ao GLOBO que a ideia de evitar o período eleitoral partiu dele e negou ter recebido qualquer pedido de Flávio ou de pessoas ligadas ao candidato.
Feitosa citou como precedente a experiência da empresa com Lula, o Filho do Brasil, lançado em período próximo ao ciclo eleitoral de 2010, que classificou como uma “experiência não boa”.