Um dia depois da derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Lula (PT) no segundo turno, a disputa pelo comando da Assembleia Legislativa de Santa Catarina volta a girar em torno de uma deputada que enfrentou a família Bolsonaro. A deputada estadual Ana Campagnolo (PL), reeleita com 387.523 votos, a maior votação da história da Alesc, quer presidir a Casa a partir de fevereiro de 2027.
Se conseguir, será a primeira mulher no cargo. A própria deputada colocou o nome à disposição logo depois da eleição.
Disse que a decisão depende do governador Jorginho Mello, presidente do PL em Santa Catarina, e da bancada do partido: “Se o Jorginho me quiser, se os meus 16 colegas me quiserem”. Afirmou que seria uma honra presidir a Assembleia, mas lembrou que o voto do eleitor não garante o voto dos colegas e que não quer impor nada por causa da votação que fez.
O caminho até a cadeira passa por uma briga antiga. Em outubro de 2025, Jair Bolsonaro indicou o filho Carlos, então vereador no Rio de Janeiro, para disputar o Senado por Santa Catarina.
Ana foi contra desde o começo. Defendeu que o estado fosse representado por alguém com trajetória em SC, apoiou a deputada federal Caroline De Toni e disse que a escolha foi feita de cima para baixo, sem ouvir as lideranças catarinenses.
A reação veio da própria família. Eduardo Bolsonaro chamou as declarações da deputada de inaceitáveis em uma publicação no X, em novembro, e disse que ela usava contra o irmão uma régua que nunca aplicou a si mesma.
Ana respondeu que sempre esteve ao lado dele, mas que os catarinenses não precisavam pagar a conta da gratidão dela. O senador Jorge Seif (PL) também atacou a deputada, que rebateu dizendo que o bolsonarismo estava mal representado por ele.
Carlos chegou a chamar as falas de Ana de mentira nas redes sociais. Depois, pediu desculpas a ela em uma reunião do PL em SC, convocada por Jorginho para alinhar a pré-campanha de Flávio.
A trégua durou pouco. Em agosto, Flávio Bolsonaro foi aos comentários do Instagram da deputada e cobrou um vídeo de apoio ao irmão.
Se ela não gravasse, pediu que deixasse de usar a imagem dele e a de Jair. Ana respondeu que estava à disposição da chapa do partido para gravações e ações de campanha, mas, nos dias seguintes, não publicou vídeo pedindo voto para Carlos.
Na disputa presidencial, trabalhou pela eleição de Flávio. As urnas de 4 de outubro deram a ela quase o dobro dos 196.571 votos que teve em 2022.
Carlos também se elegeu, mas com a segunda vaga: fez 2.041.840 votos, mais de 650 mil atrás de Carol De Toni, a mais votada para o Senado, com 2.694.918. Com o senador Jorge Seif, que tem mandato até 2031, o PL passa a ocupar as três cadeiras de Santa Catarina no Senado.
No segundo turno, neste domingo (25), Flávio fez 69,42% dos votos válidos em Santa Catarina, mas perdeu no país por 51,79% a 48,21%, segundo o TSE. Ele disse que não reconhece o resultado e que vai pedir a anulação da eleição.
Sem Flávio no Palácio do Planalto, a família Bolsonaro fica sem a caneta do governo federal nas negociações de 2027. Nos bastidores da Assembleia, o comentário é que Carlos trabalha para barrar a deputada e prefere o deputado estadual Camilo Martins (PL), reeleito com 63.933 votos.
A deputada federal Júlia Zanatta (PL) estaria do mesmo lado. Júlia negou publicamente ter interesse na disputa, e Carlos não se manifestou sobre o assunto até a publicação desta reportagem.
Camilo defende que o PL fique com a presidência e diz que só tratou do tema com o governador de forma superficial. A conta é apertada.
O PL terá 16 das 40 cadeiras da Alesc a partir de fevereiro, e o presidente precisa de 21 votos. A bancada estaria dividida entre os dois nomes.
A deputada eleita Chica do Eskudlark, apontada como aliada de Ana, disse que ainda vai ouvir o governador e os colegas antes de decidir. Entre os cenários discutidos nos bastidores está o rodízio de quatro presidentes, um por ano, com Ana em 2027 e Fernando Krelling (MDB) em 2028.
A palavra final passa por Jorginho Mello, reeleito no primeiro turno e presidente estadual do PL. A bancada deve se reunir para definir o candidato depois do segundo turno.
A eleição da Mesa Diretora será em 1º de fevereiro de 2027, no dia da posse dos novos deputados. O atual presidente, Julio Garcia (PSD), não disputou a reeleição para a Alesc e vai para a Câmara dos Deputados.
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