A campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pretende manter o ministro Alexandre de Moraes como um dos principais alvos da reta final da eleição, mas sem transformar o Supremo Tribunal Federal (STF) em adversário. A estratégia, testada no ato de Sete de Setembro na Avenida Paulista, é concentrar no magistrado as críticas feitas pelo presidenciável e preservar a Corte como instituição, enquanto aliados com menos amarras jurídicas e eleitorais ficam mais livres para elevar o tom. A avaliação feita por aliados do presidenciável após a manifestação é que Flávio calibrou o tom e que a fórmula deve ser repetida nas próximas quatro semanas antes do primeiro turno. O cálculo é explorar o desgaste de Moraes e manter mobilizada a base bolsonarista sem reeditar, na voz do próprio candidato, o confronto generalizado com as instituições que marcou o governo de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, a campanha tenta impedir que a crise no STF ofusque outras bandeiras usadas por Flávio para reduzir sua rejeição e buscar eleitores além da direita mais fiel. Antes de subir ao palco, Flávio havia recebido uma orientação da equipe jurídica da campanha: poderia direcionar ataques a Moraes, mas deveria evitar críticas ao STF e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), além de qualquer formulação que pudesse ser interpretada como ameaça. A recomendação ajudou a moldar o discurso do candidato. Flávio criticou Moraes, falou em acabar com a “ditadura” do ministro, associou o magistrado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que ele “vai cair”. Ao mencionar o Supremo, porém, fez questão de separar o alvo da instituição: — Nós temos que proteger o STF de Alexandre de Moraes. Aquela laranja podre não pode contaminar toda a Corte. O Supremo não é Alexandre de Moraes, o Judiciário não é Alexandre de Moraes, a magistratura não é Alexandre de Moraes. O presidenciável também prometeu trabalhar pessoalmente para “resgatar a credibilidade do Judiciário brasileiro”. Ao projetar as indicações que poderá fazer ao Supremo se eleito, afirmou que escolherá “homens e mulheres” que “não persigam adversários políticos”. Ataques terceirizados Enquanto Flávio delimitava o alvo, aliados assumiram a artilharia mais pesada. O pastor Silas Malafaia chamou Moraes de “ditador”, questionou a atuação do ministro no episódio envolvendo André Mendonça e cobrou do presidente do STF, Edson Fachin, uma reação. Durante a fala do pastor, o deputado André Fernandes (PL-CE) ergueu um cartaz com os dizeres “Moraes preso”. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) também avançou além do presidenciável. Além de puxar o coro de “Fora Moraes”, afirmou que “lugar do Xandão é na cadeia”. A frase foi dita diante de um público no qual cartazes e imagens defendendo a prisão do ministro se misturavam às manifestações de apoio a André Mendonça. A diferença de tom não é vista pela campanha como sinal de recuo na ofensiva. Moraes ganhou espaço na estratégia eleitoral após as novas revelações relacionadas ao Banco Master e deve continuar presente nos discursos e na propaganda. A divisão permite que Flávio sustente pessoalmente uma crítica dura ao ministro, mas deixe a aliados uma margem maior para falas que poderiam aumentar o risco de novos atritos institucionais ou questionamentos jurídicos contra o candidato. Nos próximos dias, a campanha espera que Nikolas e outros aliados com forte presença nas redes sociais sigam explorando de forma mais frontal a ofensiva contra Moraes. O deputado mineiro tem feito uma série de publicações sobre o ministro e deve manter o tema entre suas principais bandeiras. O mesmo modelo deve ser replicado pelos deputados Gustavo Gayer (PL-GO) e André Fernandes (PL-CE), que também vêm reforçando a pressão sobre Moraes.
Nikolas marcou para o próximo final de semana um ato em Macapá para pressionar o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a pautar o impeachment de Moraes. O parlamentar irá até a capital do Amapá, reduto eleitoral de Alcolumbre, para fazer cobranças. Mendonça como contraponto A defesa de André Mendonça completa a tentativa de individualizar o confronto. Indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro, o ministro passou a ser apresentado pela direita como contraponto a Moraes depois que os dois entraram em rota de colisão nas investigações relacionadas ao Banco Master. A distinção ficou visível na Paulista. Enquanto Moraes era alvo de pedidos de prisão e afastamento, Mendonça recebeu manifestações de apoio. A defesa de Mendonça ajuda a sustentar que a campanha não trava uma batalha contra o STF, mas contra a atuação de Moraes. A preservação de canais com outros integrantes do tribunal também ocorre nos bastidores. Na semana passada, o coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), procurou Gilmar Mendes para discutir o ambiente no Supremo em meio à escalada da crise. Para integrantes da campanha, defender o afastamento de Moraes não deve significar romper as pontes construídas com o restante da Corte. A crise no STF é vista como uma oportunidade para elevar a mobilização da direita a menos de um mês do primeiro turno, mas há o cuidado para que o assunto não desmonte o esforço dos últimos meses para reduzir a rejeição de Flávio e apresentá-lo a eleitores que não integram o núcleo bolsonarista. Essa tensão apareceu no próprio discurso. Depois de dedicar a primeira parte da fala no 7 de Setembro a Moraes, à situação do pai e à narrativa de perseguição política, Flávio passou a enumerar propostas de segurança pública, saúde, emprego e políticas para mulheres e jovens. Na segurança, defendeu a classificação de PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações terroristas, a redução da maioridade penal, a castração química de estupradores e pena mínima de oito anos para ladrões de celular — Ah, o Flávio é radical nessas pautas. Eu vou ser radical. Não gostou? Vota nessa porcaria que está aí e continue reclamando. Pouco depois, mudou o tom ao falar de outros temas: — Eu vou ser presidente para governar inclusive para quem não votou em mim. Eu vou ser o presidente da República de todos os brasileiros porque, além de fazer, eu vou cuidar do povo brasileiro. Flávio passou então a prometer “cuidar” de mulheres vítimas de violência, mães que não encontram creches para os filhos, pacientes que aguardam cirurgias no SUS e jovens em busca de emprego. Também prometeu levar ao sistema público de saúde o que chamou de “padrão Einstein”.
O Globo