Flávio interrompe ofensiva contra Moraes nas redes enquanto busca domiciliar para Bolsonaro e tenta ampliar palanques
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) interrompeu, logo nos primeiros meses de 2026, a sequência de ataques diretos ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em suas redes sociais, após um período de forte ofensiva digital ao longo do ano passado.
O movimento ocorre no momento em que o parlamentar tenta consolidar seu nome como candidato à Presidência e passou a atuar diretamente na defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Nesta semana, Flávio se reuniu com Moraes para tratar da situação do pai, hoje preso na Papudinha, e pedir a concessão de prisão domiciliar “humanitária”.
Segundo ele, a audiência foi solicitada formalmente pela defesa e ocorreu de forma “objetiva”, sem que o ministro tenha antecipado qualquer posição sobre o pleito.
— Nós formalizamos um novo pedido de domiciliar humanitária e expusemos ali as nossas preocupações. Foi uma conversa objetiva, como advogados, e ele ficou de avaliar — disse Flávio.
Levantamento feito pelo GLOBO nas redes do senador mostra que, desde o início do ano, Flávio tem evitado publicar conteúdos com menções diretas ao ministro no Instagram e no X (ex-Twitter), duas de suas principais plataformas de comunicação. Juntas, as duas somam quase 13 milhões de seguidores.
Uma das exceções mais recentes foi um post no X de 12 de março em que Flávio acusa Moraes de “mais uma vez” arrumar “confusão com os EUA por NADA”. Na ocasião, o senador repercutiu a decisão do ministro de proibir a visita de um assessor do presidente norte-americano, Donald Trump, a Bolsonaro na prisão.
“Moraes é tóxico, afundou a imagem do Judiciário e agora está criando um problema MASTER para o Brasil. Qual é o problema de o sujeito visitar meu pai? A não ser que haja algo a esconder….”, afirmou na plataforma.
Antes, as últimas postagens na plataforma com críticas diretas a Moraes haviam sido em janeiro. Em uma delas, de1ª de janeiro, Flávio comentou uma negativa do ministro para domiciliar de Bolsonaro e questionou “até quando Moraes terá procuração para praticar a tortura?”.
No mesmo mês, Flávio também postou que Moraes precisaria ser “internado” e que o ministro seria “um risco à vida de Bolsonaro”. O senador também chegou a comentar a notícia de que o magistrado mandou a Polícia Federal (PF) ouvir o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM) sobre a saúde de Bolsonaro, chamando-o de “negacionista”. O post também foi reproduzido no Instagram.
O arrefecimento dos ataques nominais a Moraes, um dos principais alvos do bolsonarismo, contrasta em relação ao padrão observado em 2025, quando o ministro era uma figurinha carimbada em suas postagens e cujo rosto figurava na capa de diversos posts por meio de montagens, que normalmente vinham junto com frases criticando sua atuação como magistrado.
Entre julho e setembro, quando o processo no STF que investigava Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado chegava em sua reta final, Flávio intensificou as críticas ao ministro. Em diversas publicações, acusou Moraes de agir com “ódio”, “tirania” e “perseguição”, além de questionar sua imparcialidade e defender seu impeachment.
No período, somente no Instagram, foram cerca de 80 postagens com críticas diretas ao ministro, muitas delas com o rosto de Moraes como imagem principal.
O volume de publicações acompanhava decisões judiciais relevantes, como a determinação do uso de tornozeleira eletrônica pelo ex-presidente, em 18 de julho, e a decretação de prisão domiciliar, em 4 de agosto, além do próprio julgamento que levou à condenação de Bolsonaro a 27 anos e três meses de prisão, em 11 de setembro.
Depois do final do julgamento, Flávio passou a focar em publicações sobre anistia. O projeto que prevê redução de pena para os condenados do 8 de Janeiro acabou sendo aprovado no Congresso e posteriormente vetado pelo presidente Lula.
A inflexão no discurso ocorre em paralelo à mudança de papel do senador, que passou a integrar a equipe jurídica do pai e a buscar interlocução institucional com o próprio Moraes, após meses de embates públicos. Aliados de Flávio relatam que o encontro foi positivo e cordial.
No final do ano passado, Flávio foi indicado por Bolsonaro como seu sucessor na corrida eleitoral ao Palácio do Planalto. Agora, para disputar a reeleição contra Lula, o senador tenta emplacar a postura de moderado com o objetivo de ampliar palanques e assegurar o maior número possível de votos de eleitores indecisos.
Alguns dos aliados do pré-candidato, além de sugerirem que ele mantenha esse perfil, também vêm buscando não “fulanizar”, segundo relatos, questões envolvendo o Supremo. A ideia é atuar sem "levantar a poeira" e não levantar polêmicas desnecessariamente.
A avaliação vem de uma percepção de que Flávio vem surfando uma onda de boas notícias nas pesquisas de intenção de voto, que o aproximam do principal adversário petista. Levantamentos recentes indicam redução da vantagem de Lula sobre o senador em cenários de segundo turno, o que tem sido interpretado por bolsonaristas como sinal de competitividade da candidatura.
Interlocutores do senador avaliam que o crescimento de Flávio nas pesquisas foi mais rápido do que o esperado e defendem a adoção desse perfil menos combativo como forma de manter a toada positiva. A leitura é que o senador pode ampliar o diálogo com eleitores menos alinhados ideologicamente ao evitar temas que gerem desgaste e ao reduzir o tom de confronto.
Nesse contexto, Flávio passou a priorizar críticas ao governo federal — algo que tem sido uma constante em suas redes mesmo na época de críticas mais fortes ao STF — e a pautas econômicas, além de divulgar agendas e resultados de pesquisas eleitorais.
Em ato realizado na Avenida Paulista no início de março, por exemplo, embora tenha tecido críticas ao STF, Flávio evitou citar nominalmente ministros ao defender o impeachment de integrantes da Corte que, segundo ele, eventualmente descumpram a lei.
A postura contrasta com o estilo de seu pai e ex-presidente Jair Bolsonaro, que já direcionou ataques diretos a Moraes em manifestações públicas, chegando a chamá-lo de “canalha” em uma manifestação em 2021.
Para aliados, a moderação no discurso pode ajudar a consolidar o nome de Flávio em um cenário ainda em aberto, a cerca de sete meses da eleição. Ao mesmo tempo, governistas apontam que o senador tem “teto de vidro” e que episódios de sua trajetória política podem ser explorados ao longo da campanha e já preparam, no bastidores, um contra-ataque.
