A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) inicia nesta quarta-feira, em Minas Gerais, uma nova etapa da estratégia para tentar transformar a aproximação de Lula nas pesquisas em uma virada na corrida presidencial. Depois de a Quaest mostrar empate numérico entre os dois em um eventual segundo turno, o QG decidiu ampliar o foco em custo de vida e segurança pública e intensificar a busca por eleitores independentes, combinando novas peças de propaganda com uma sequência de viagens por estados considerados prioritários. O primeiro movimento será em Juiz de Fora. Flávio desembarca hoje pela manhã, participa de uma motocarreata de cerca de dez quilômetros e fará um comício em trio elétrico no cruzamento das ruas Halfeld e Batista de Oliveira, no centro da cidade. É o mesmo ponto onde Jair Bolsonaro foi esfaqueado durante a campanha presidencial de 2018, escolha que também permitirá ao senador recorrer a um dos episódios mais simbólicos da trajetória política do pai no momento em que tenta ampliar sua candidatura para além do eleitorado bolsonarista. Flávio não pretende abandonar referências ao pai nem os temas que mobilizam sua base, mas integrantes da campanha avaliam que a possibilidade de ultrapassar Lula depende agora de avançar entre eleitores menos identificados com os dois polos. Para isso, segurança e economia passarão a ocupar mais espaço na propaganda e nos discursos. Nesta terça-feira, Flávio fez novas gravações voltadas aos dois temas. As peças serão usadas nas próximas inserções da campanha na televisão e devem explorar principalmente preços, endividamento e perda do poder de compra, além de propostas para o combate ao crime organizado. A leitura no QG é que essas são duas áreas de vulnerabilidade do governo Lula capazes de ampliar o alcance do candidato para além da direita. A estratégia já começou a aparecer no horário eleitoral. No programa exibido nesta terça-feira, Flávio concentrou a propaganda justamente em economia e segurança, com críticas ao endividamento das famílias e à política tributária do governo Lula. O senador prometeu reduzir impostos e juros — “vou pegar a tesoura e cortar impostos”, afirmou — e associou as medidas à redução de preços e à geração de empregos. A peça também citou o número de brasileiros com contas atrasadas e afirmou que o país precisa “sair do vermelho”. Na segurança, Flávio prometeu classificar PCC, Comando Vermelho e milícias como organizações narcoterroristas, quadruplicar a pena mínima para ladrões e receptadores de celulares e reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos, com punições mais duras a partir dos 14 anos em crimes graves. O candidato também mirou diretamente o PT, afirmando que o partido promete combater as facções há duas décadas sem conseguir conter o avanço do crime organizado. A avaliação ganhou força após a Quaest divulgada nesta segunda-feira mostrar Lula e Flávio com 41% cada em uma simulação de segundo turno. No primeiro turno, o presidente aparece com 36%, contra 29% do senador e 8% de Augusto Cury (Avante). As diferenças entre as duas rodadas mais recentes estão dentro da margem de erro, de dois pontos percentuais. Flávio tratou o resultado como sinal de que pode assumir a dianteira nas próximas pesquisas. Depois do ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, afirmou que levantamentos internos já apontariam vantagem. — Se a Quaest está assim, imagina na realidade. Este 7/9 é a arrancada para a vitória no primeiro turno (...) Na Austrália já estamos ganhando. Nos nossos trackings já passamos faz tempo e o principal termômetro foi hoje. Se o povo não quisesse mudança, não teria ido para a rua — afirmou. Economia e segurança A escolha dos temas para a nova etapa da campanha também se apoia em outros dados da Quaest. O levantamento mostra que 49% dos brasileiros avaliam que a economia piorou nos últimos 12 meses, enquanto 19% enxergam melhora. Entre os eleitores que se declaram independentes, o diagnóstico é ainda mais negativo: 52% dizem que a economia piorou. É justamente esse segmento que passou a receber maior atenção da campanha, que considera insuficiente apenas consolidar os votos do campo bolsonarista para ultrapassar Lula. Outro dado acompanhado pelo QG é a avaliação do novo Desenrola. Em julho, 55% dos entrevistados consideravam o programa uma boa ideia. O percentual caiu para 47% em agosto e chegou a 43% na rodada atual. Outros 25% afirmam que a medida ajuda, mas não resolve o problema, enquanto 25% a consideram uma má ideia. O custo de vida também aparece como uma vulnerabilidade. Na rodada atual, 54% afirmam que a renda não aumentou ou cresceu menos do que o custo de vida, enquanto 33% dizem que os dois avançaram na mesma proporção. A campanha pretende explorar esses dados para sustentar a mensagem de que indicadores econômicos positivos divulgados pelo governo não correspondem à percepção cotidiana de parte do eleitorado. Na segurança, a Quaest mostra a violência como a principal preocupação dos entrevistados, citada por 31%, à frente da corrupção, com 20%, e da economia, com 19%. Entre os independentes, a violência também ocupa o primeiro lugar, com 29%. O QG pretende explorar esse cenário para reforçar um discurso que Flávio já vinha ensaiando na propaganda, mas que agora ganhará maior centralidade. Na estreia no horário eleitoral, o senador associou segurança e economia ao contrapor o que chamou de “Brasil do Lula” ao “Brasil real”. — Vou falar do Brasil, que vive dominado pelas facções criminosas. As pessoas nunca tiveram tanto medo, as empresas estão quebrando e as famílias, devendo. A caixa de chocolate, que vinha 20, agora vem 16. Até a pizza está tendo que parcelar — afirmou. Disputa pelos independentes A ofensiva ocorre em um momento em que as duas campanhas enxergam uma parcela significativa do eleitorado ainda disponível. Na pergunta espontânea da Quaest, quando os entrevistados não recebem uma lista de candidatos, 42% não sabem em quem votar. Lula é citado por 28%, Flávio por 20% e Cury por 4%. No QG de Flávio, há atenção especial aos eleitores de Cury. O escritor aparece com 8% no cenário estimulado, depois de marcar 10% na rodada anterior — uma oscilação dentro da margem de erro. A avaliação de aliados é que parte desse eleitorado procura uma alternativa à polarização e pode migrar à medida que a disputa se afunilar. A campanha já montou um levantamento sobre a trajetória de Cury, suas declarações e relações políticas e acompanha sua movimentação nas redes sociais. Por enquanto, a orientação continua sendo evitar ataques diretos que possam aumentar sua exposição. O presidente do PL no Rio, deputado Altineu Côrtes, sustenta que uma eventual migração desse eleitorado tende a beneficiar Flávio. — Eu acho que está muito claro que a maior possibilidade de vitória é do Flávio. Tenho certeza de que os votos do Cury são para Flávio e não para Lula — afirmou. A campanha também acompanha a trajetória da avaliação do governo. A aprovação de Lula, que chegou a 48% em julho e no início de agosto, está em 43%, enquanto a desaprovação alcançou 50%. Minas abre sequência de viagens A escolha de Minas para abrir essa etapa não é casual. O estado é tratado pela campanha como uma das principais peças para uma eventual virada nacional, tanto pelo peso de seu eleitorado quanto pelo histórico de acompanhar o vencedor da disputa presidencial. Depois de Minas, a campanha deslocará parte de sua atenção para o Nordeste, região onde Lula mantém sua maior vantagem. Flávio irá ao Ceará no dia 15, a Pernambuco no dia 16 e à Bahia no dia 17. Uma nova passagem pela região, desta vez pelo Rio Grande do Norte, está prevista para o dia 21. A estratégia discutida por aliados não passa por derrotar Lula no Nordeste, mas por reduzir a vantagem do petista na região enquanto Flávio tenta ampliar sua margem em áreas mais favoráveis e disputar eleitores independentes nos grandes colégios eleitorais. A nova etapa ocorre depois de uma semana em que a campanha foi novamente arrastada para o embate institucional, com a crise no Supremo Tribunal Federal e os ataques a Alexandre de Moraes dominando o discurso do 7 de Setembro. A escalada mais recente envolvendo Moraes e André Mendonça tende a manter o assunto no centro do debate político, mas, no QG, a orientação eleitoral continua sendo evitar que a disputa institucional ofusque os temas escolhidos para tentar ampliar o eleitorado de Flávio.
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Flávio inicia sequência de viagens enquanto mira condução de Lula na economia e segurança
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O Globo
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