A primeira viagem de Flávio Bolsonaro (PL) ao Nordeste desde o início oficial da campanha presidencial será feita no estado de seu candidato a vice, Alfredo Gaspar (PL), mas sem a presença de aliados que o senador esperava agregar ao palanque.
O ex-prefeito de Maceió João Henrique Caldas (PSDB), o JHC, candidato ao governo de Alagoas, e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que concorre ao Senado, devem desfalcar as agendas de terça e quarta-feira.
A distância entre Flávio e o presidente Lula (PT) nas intenções de voto na região pesa no cálculo de políticos locais sobre o grau de envolvimento na campanha nacional.
A diferença é de 28 pontos percentuais.
No recorte do Nordeste da última pesquisa Datafolha para o primeiro turno, Lula aparece com 53% das intenções de voto, contra 25% de Flávio.
O desempenho do petista torna mais difícil para o candidato do PL reproduzir na região o movimento de aproximação com aliados que busca construir em outros estados e leva políticos envolvidos em disputas locais a evitar uma associação direta com seu palanque presidencial.
Flávio desembarca nesta terça-feira em Alagoas para dois dias de compromissos em Maceió e Arapiraca.
A programação prevê encontros com lideranças, representantes do setor produtivo e apoiadores, além de atividades políticas e entrevistas.
A presença de Gaspar dá à campanha uma estrutura própria para a estreia no Nordeste, mas o desenho inicial esbarra na dificuldade de ampliar a fotografia para além dos aliados mais diretamente ligados à chapa presidencial.
O caso mais evidente é o de JHC.
Embora o PL faça parte da aliança que sustenta sua candidatura ao governo de Alagoas, o ex-prefeito de Maceió deixou o partido em março e migrou para o PSDB, que adotou neutralidade na disputa pelo Planalto.
A tendência é que ele mantenha essa posição e não participe de um encontro público com Flávio durante a passagem do presidenciável pelo estado.
JHC também manteve interlocução com o governo federal nos últimos anos.
Em 2025, quando ainda comandava a prefeitura de Maceió, atuou em Brasília pela indicação de sua tia, Marluce Caldas, ao Superior Tribunal de Justiça.
A nomeação aproximou o então prefeito de setores do governo Lula.
Procurado, o ex-prefeito não se manifestou.
A cautela contrasta com a expectativa manifestada pelo próprio Flávio.
Em uma de suas lives, o senador citou JHC ao falar do palanque que esperava ter em Alagoas e mencionou também Marina Candia (PSDB), mulher de JHC e candidata ao Senado, e Arthur Lira entre os nomes dos quais esperava apoio no estado.
Marina deve seguir a estratégia eleitoral do marido e também evitar uma vinculação mais direta à campanha presidencial.
Embora dispute uma das vagas ao Senado em uma aliança que inclui o PL, ela é filiada ao PSDB e sua candidatura está diretamente ligada ao projeto de JHC para o governo.
Lira deve ser outra ausência na passagem de Flávio pelo estado.
O ex-presidente da Câmara, uma das principais lideranças políticas de Alagoas e nome com influência sobre prefeitos e parlamentares, não deve acompanhar o candidato nos compromissos previstos até agora.
Lira foi procurado, mas não comentou.
A distância entre Lira e Flávio já havia aparecido de maneira curiosa nos bastidores da campanha.
Neste mês, o deputado passou pela sede do QG do presidenciável em Brasília, mas saiu sem conversar ou gravar com o senador.
Segundo interlocutores, Lira havia dado carona a um vereador de Maceió que tinha gravações previstas para a campanha e aproveitou a passagem para tentar resolver assuntos relacionados a Alagoas e procurar Gaspar, que não estava no local.
Lira permaneceu algum tempo na sede, conversou com integrantes da campanha e parlamentares e depois saiu para cumprir uma audiência.
Flávio estava no andar de cima, dedicado a uma sequência de gravações, e os dois não chegaram a se encontrar.
Primeira incursão no Nordeste
A escolha de Alagoas para abrir a agenda nordestina tem como principal ativo justamente a presença de Gaspar na chapa.
O candidato a vice é deputado federal pelo estado e será o anfitrião de Flávio nos compromissos em Maceió e Arapiraca.
A viagem é vista pela campanha como uma oportunidade de começar a ampliar a presença do senador numa região em que o bolsonarismo enfrenta seu cenário eleitoral mais difícil.
O desembarque ocorre depois de Flávio concentrar as primeiras agendas da campanha no Sudeste.
O senador abriu oficialmente sua corrida ao Planalto com um ato em Copacabana, no Rio, e depois foi a Minas Gerais, onde dividiu uma agenda com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).
Alagoas será sua primeira parada no Nordeste já como candidato.
A expectativa da campanha é que o senador percorra também estados como Ceará, Bahia e Pernambuco antes do primeiro turno, numa tentativa de reduzir a vantagem de Lula na região e aproveitar disputas locais em que adversários do petista aparecem competitivos.
No Nordeste, Flávio tem buscado se aproximar de candidatos que enfrentam aliados de Lula nos estados e aposta que eventuais vitórias da oposição possam ajudar a desidratar o presidente em seus principais redutos eleitorais.
A campanha acompanha com especial interesse o desempenho de Ciro Gomes (PSDB), no Ceará, Raquel Lyra (PSD), em Pernambuco, e ACM Neto (União), na Bahia, mesmo nos casos em que o senador não dispõe de um palanque formal.
A estratégia é tentar se beneficiar eleitoralmente dessas candidaturas sem depender de uma adesão explícita a Flávio.
