Flávio Bolsonaro recebeu Rolex de empresário ligado a vacina contra Covid-19 após festa em lancha, diz revista

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Fonte da notícia: Brasil 247 Brasil 247

247 – O senador e candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PLRJ) teria recebido um relógio Rolex de um empresário ligado à Precisa Medicamentos depois de participar de uma confraternização em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, em julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19. O encontro, que contou com a presença de três garotas de programa levadas de São Paulo, teria sido organizado por empresários que buscavam fechar negócios com o governo de Jair Bolsonaro (PL) na área de vacinas.

As informações foram reveladas nesta quarta-feira (21) pela revista Piauí na reportagem Uma tarde no lago. A publicação reconstituiu o episódio a partir do relato de uma pessoa que estava na embarcação, documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito, registros de voos e entrevistas com outras fontes. O encontro ocorreu em 17 de julho de 2020, quando o Brasil registrava mais de mil mortes diárias provocadas pelo coronavírus.

Segundo a reportagem, o passeio foi promovido por Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, respectivamente diretor institucional e proprietário da Precisa Medicamentos. Naquele período, os dois empresários afirmavam representar a indiana Bharat Biotech, desenvolvedora da vacina Covaxin, e buscavam ampliar sua participação no fornecimento de produtos ao Ministério da Saúde.

A confraternização teria sido preparada para agradar ao filho mais velho do então presidente da República. Os empresários recorreram a Raphael Barão, proprietário da agência Barão Turismo, responsável por organizar o deslocamento dos convidados, a hospedagem e a estrutura do passeio.

Na noite de 16 de julho de 2020, um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, partiu do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, às 20h49, com destino a Brasília. A aeronave pertencia à Prime You, empresa que também teve o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, entre seus usuários.

Estavam no avião Trento, Maximiano, Barão e três garotas de programa. O grupo desembarcou na capital federal às 22h12 e seguiu para o hotel Meliá Brasil 21, onde passou a noite.

Passeio no Lago Paranoá e entrega do Rolex

Na manhã seguinte, por volta das 10h30, bebidas alcoólicas e alimentos foram levados até uma lancha de aproximadamente 20 metros, atracada em um dos acessos ao Lago Paranoá.

Conforme a Piauí, embarcaram inicialmente Danilo Trento, as três mulheres e o condutor da embarcação. Pouco depois, Flávio Bolsonaro chegou acompanhado de Alexandre Santini, seu amigo e então sócio na operação de uma franquia da Kopenhagen, no Rio de Janeiro.

Durante o passeio, os participantes fizeram uma parada no restaurante flutuante Alô Grau para comprar mais alimentos e bebidas. A despesa, de R$ 1.949, foi paga por Raphael Barão.

A reportagem afirma que o grupo demonstrava preocupação com a possibilidade de ser fotografado ou filmado por drones enquanto circulava pelo lago.

Em determinado momento, segundo a fonte ouvida pela revista, Flávio Bolsonaro teria descido à cabine da lancha acompanhado de uma das garotas de programa. A publicação relata que outra mulher também teria acompanhado o senador ao mesmo espaço durante a confraternização.

O passeio terminou por volta das 15h. Antes da despedida, Danilo Trento teria retirado do próprio pulso um relógio Rolex, de pulseira prateada, e colocado o acessório no braço de Flávio Bolsonaro.

Segundo a reconstituição publicada pela Piauí, o senador deixou a embarcação usando o relógio recebido do empresário.

Após o encontro, Santini teria embarcado com os empresários, o agente de viagens e as três mulheres no voo de retorno a São Paulo. A aeronave decolou de Brasília às 17h55 e pousou na capital paulista às 19h13.

Naquele mesmo dia, o Brasil contabilizou outras 1.110 mortes por Covid-19, segundo o consórcio de veículos de imprensa.

Empresários tentavam vender vacinas ao governo Bolsonaro

A relação entre os participantes da confraternização ganhou relevância posteriormente, quando a Precisa Medicamentos passou a ser investigada por suspeitas de irregularidades nas negociações para o fornecimento da Covaxin ao governo federal.

O contrato previa a aquisição do imunizante indiano por aproximadamente R$ 80 a dose, valor superior aos preços apresentados por outros fabricantes naquele período. Segundo a reportagem, a Pfizer oferecia doses por cerca de R$ 56,30, enquanto a AstraZeneca tinha proposta de aproximadamente R$ 18.

As suspeitas envolvendo o contrato foram denunciadas pelo servidor do Ministério da Saúde Luis Ricardo Miranda, irmão do então deputado federal Luis Miranda.

As negociações acabaram interrompidas sem que o governo realizasse pagamentos pelo imunizante.

A investigação parlamentar também examinou as relações empresariais e financeiras de pessoas envolvidas na operação.

De acordo com a reportagem, somente em 2020 a Barão Turismo recebeu aproximadamente R$ 4 milhões de empresas pertencentes ao grupo econômico da Precisa Medicamentos.

Raphael Barão também organizou e acompanhou uma viagem dos representantes da empresa à Índia, destinada às negociações com a Bharat Biotech.

A dificuldade de comprovar adequadamente os serviços prestados pela agência contribuiu para que suas movimentações financeiras fossem examinadas pelas autoridades.

Flávio defendeu a Precisa durante a CPI da Pandemia

Nas sessões da CPI da Pandemia, realizadas em 2021, parlamentares questionaram os vínculos de Danilo Trento e Francisco Maximiano com integrantes da família Bolsonaro.

O senador Renan Calheiros (MDB-AL) perguntou a Maximiano se Flávio Bolsonaro havia facilitado o acesso da Precisa Medicamentos ao alto escalão do Ministério da Saúde. O empresário negou.

Questionado sobre uma possível participação do senador na aproximação da empresa com Jair Bolsonaro, para viabilizar contatos com o primeiro-ministro indiano Narendra Modi, Maximiano preferiu permanecer em silêncio.

Danilo Trento, por sua vez, reconheceu ter participado de eventos nos quais Flávio Bolsonaro estava presente.

“Já estive em eventos institucionais com o senador Flávio”, declarou o empresário, antes de corrigir a própria afirmação: “Eventos públicos, não institucionais, desculpa.”

Durante os trabalhos da CPI, Flávio Bolsonaro também defendeu publicamente a Precisa Medicamentos.

Em uma sessão com a diretora da empresa, Emanuela Medrades, o parlamentar elogiou a atuação da executiva nas negociações da vacina indiana.

“Cabe aqui um parabéns também público, pelo fato de a senhora, ao representar o laboratório indiano, ter batalhado para que fosse economizado dinheiro público”, afirmou.

Em outra manifestação, o senador contestou as acusações de corrupção relacionadas à Covaxin, argumentando que não havia ocorrido desembolso de recursos públicos.

“É a primeira vez que eu vejo, na minha vida, um desvio de dinheiro público em que não tem um real que foi pago. Que dinheiro público? Então, eu fico satisfeito e até concordo com a oposição quando eles dizem que esse é o maior escândalo de corrupção do governo Bolsonaro, porque, no maior escândalo de governo, de corrupção, segundo eles, não houve corrupção”, disse na ocasião.

O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, incluindo Flávio Bolsonaro, Danilo Trento e Francisco Maximiano. A recomendação parlamentar não equivale a uma condenação judicial.

Senador intermediou encontro de empresário com o BNDES

A reportagem também destaca que a proximidade entre Flávio Bolsonaro e Francisco Maximiano teve desdobramentos em outra área de negócios.

Em 20 de outubro de 2020, aproximadamente três meses depois da confraternização na lancha, o senador participou de uma reunião virtual entre executivos ligados a Maximiano e o então presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano.

O encontro tinha como objetivo discutir possibilidades de financiamento para uma empresa do setor de telecomunicações vinculada ao empresário.

Segundo informações divulgadas anteriormente pela revista Veja, Flávio Bolsonaro atuou para viabilizar o contato e participou da conversa.

Na ocasião, o BNDES confirmou a realização de duas reuniões relacionadas ao assunto, uma delas com a presença de Montezano, mas informou que nenhum financiamento havia sido contratado.

Flávio Bolsonaro reconheceu ter solicitado a reunião, embora tenha negado manter relações comerciais ou financeiras com Maximiano.

“O que eu fiz sim foi pedir ao presidente do BNDES que ouvisse uma boa ideia que foi trazida pelo senhor Maximiano, para que o BNDES pudesse entender e, quem sabe, dar algum suporte para levar internet para o Norte e Nordeste”, justificou o parlamentar.

De acordo com a Piauí, aquela foi a única reunião oficial de Flávio Bolsonaro com o BNDES, na condição de autoridade e sem a participação de outros parlamentares, desde o início da gestão de Montezano, em julho de 2019, até então.

A presença de um empresário interessado em financiamento público ao lado de um senador foi apontada pela publicação como uma característica incomum daquele encontro.

Outra reportagem revelou presente de R$ 305 mil

A investigação da Piauí também recupera informações publicadas em setembro pelo jornalista Rodrigo Rangel, do PlatôBR, sobre encontros de Flávio Bolsonaro com garotas de programa supostamente promovidos por Alexandre Santini.

Naquela apuração, apareceu o relato de outro relógio Rolex que teria sido entregue ao senador.

Segundo o PlatôBR, o acessório era um Submariner Date, avaliado em R$ 305 mil, comprado pelo advogado Alan Belaciano, que representava interesses privados junto a autoridades em Brasília.

A reportagem da pPauí não estabelece que o relógio descrito pelo PlatôBR seja o mesmo que Danilo Trento teria entregue a Flávio Bolsonaro durante o passeio de julho de 2020.

A revista também ouviu um ex-assessor parlamentar que afirmou ter participado de festas em lanchas com garotas de programa, inclusive em duas ocasiões nas quais Flávio Bolsonaro estaria presente.

“Esses eventos acontecem em dias de semana, que são menos concorridos. Em geral, os barcos ficam parados ao final da barragem, quando não há outros barcos nem sequer fiscalização”, relatou a fonte.

Uma mulher que afirmou ter participado de eventos semelhantes descreveu a presença de várias profissionais por convidado.

“Uma média de duas a três mulheres por convidado”, afirmou.

Os relatos foram apresentados pela revista como parte de sua investigação sobre encontros privados envolvendo autoridades e empresários.

Viagem a Las Vegas também foi investigada pela CPI

Outro episódio mencionado na reportagem envolve uma viagem oficial de Flávio Bolsonaro a Las Vegas, nos Estados Unidos, em janeiro de 2020.

O senador esteve na cidade para compromissos relacionados ao turismo e ao setor de entretenimento. Somente as diárias pagas pelo Senado custaram R$ 12,5 mil aos cofres públicos.

Durante a viagem, Flávio visitou o ateliê do artista Romero Britto, encontrou executivos de empresas do setor turístico e participou de compromissos acompanhado do então presidente da Embratur, Gilson Machado Neto.

Danilo Trento também esteve em Las Vegas naquele período, circunstância que despertou questionamentos durante a CPI da Pandemia.

Perguntado se havia viajado acompanhado de algum senador, Trento recusou-se a responder.

“Sr. Senador, com todo o respeito e baseado no meu habeas corpus, eu irei permanecer em silêncio”, declarou.

Flávio Bolsonaro divulgou uma nota negando qualquer encontro com o empresário na cidade estadunidense.

“O senador nunca se reuniu com o Sr. Danilo Berndt Trento em Las Vegas, nem possui vínculo de qualquer espécie com o mesmo.”

A Piauí também menciona uma viagem do parlamentar a Miami, em janeiro de 2025, quando, segundo informações publicadas pelo colunista Lauro Jardim, de O Globo, ele esteve no Hard Rock Hotel & Casino acompanhado do advogado Willer Tomaz.

Conforme o relato, Tomaz retirou US$ 236 mil em dinheiro vivo no caixa do estabelecimento depois de uma madrugada em uma área reservada de jogos.

A revista relaciona esses episódios ao histórico de contatos do senador com empresários ligados aos setores de turismo, entretenimento e apostas, sem apresentar as coincidências de viagens como prova de irregularidade.

Revista cruzou dados de voos, sigilos e depoimentos

Para reconstruir a confraternização de julho de 2020, a Piauí afirma ter entrevistado uma pessoa que estava na lancha, dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma profissional do sexo que participou de eventos semelhantes.

A publicação também examinou documentos de quebras de sigilo relacionados a Raphael Barão, Francisco Maximiano e Danilo Trento, encaminhados às CPIs da Pandemia, do INSS e do Crime Organizado.

Os registros de deslocamentos aéreos foram confrontados com informações de uma plataforma de rastreamento de voos, procedimento utilizado para conferir horários e trajetos das aeronaves.

Até o fechamento da reportagem, Flávio Bolsonaro não havia se manifestado sobre as revelações.

Danilo Trento foi procurado pela revista e chegou a responder a uma mensagem solicitando informações sobre o assunto. Entretanto, segundo a publicação, interrompeu a comunicação depois de receber detalhes sobre os voos, o passeio de lancha e a suposta entrega do Rolex.

Os advogados de Francisco Maximiano também foram procurados por WhatsApp e e-mail, mas não responderam até o encerramento da apuração.

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