Flávio acumula série de recuos e tenta sair do 'jogo parado' após mobilização de apoiadores de Lula

Flávio acumula série de recuos e tenta sair do 'jogo parado' após mobilização de apoiadores de Lula - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

A mobilização de apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas ruas e nas redes sociais surpreendeu aliados de Flávio Bolsonaro (PL) nos últimos dias e levou o candidato a rever decisões para evitar um revés no segundo turno. Em dois dias, o senador anunciou que votará a favor do fim da escala 6x1, depois de meses de críticas à proposta, e voltou atrás na decisão de não participar do debate da Band. Segundo pessoas próximas, Flávio passou a ser cobrado a sair do "jogo parado", ou seja, abandonar a postura passiva diante da vantagem obtida no primeiro turno.  A ordem entre bolsonaristas é intensificar a campanha e reverter a acomodação na direita verificada após o resultado de 4 de outubro. Na terça-feira, após o visitar o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio negou estar de "salto alto" ou imerso no clima do "já ganhou". Apesar de ainda aparecer à frente de Lula nos levantamentos internos da campanha, auxiliares de Flávio já admitem, reservadamente, que a reação do petismo provocou preocupação e obrigou o senador a rever a postura adotada até aqui. Integrantes da equipe reconhecem que a mobilização dos adversários nas ruas e nas redes sociais fez com que a campanha do senador também passasse a atuar de forma mais “reativa". A avaliação, porém, é que não é necessário dar uma guinada em outros posicionamentos do candidato. A campanha considera que a candidatura está bem estabelecida e que o caminho é responder a questões pontuais que possam provocar desgaste junto ao eleitorado. Além da decisão sobre a escala 6x1 e da participação no debate da Band, aliados demonstram preocupação com a repercussão de temas econômicos, como as acusações de que Flávio pretende promover cortes em benefícios sociais caso seja eleito. O senador já negou que vá acabar com os programas voltados aos mais pobres ou aposentados, mas, na avaliação de integrantes da campanha, a discussão pode afetar a percepção dos eleitores sobre suas propostas. A avaliação é que a estratégia de manter o candidato menos exposto abriu espaço para Lula explorar temas de apelo popular e ampliar sua presença na campanha. Um dos receios era que o petista transformasse um eventual voto contrário de Flávio à redução da jornada de trabalho em peça eleitoral. A mesma preocupação pesou na decisão sobre o debate: com a disposição da Band de manter a programação mesmo sem o senador, aliados consideravam arriscado deixar o presidente falar sozinho ao eleitorado. No caso da escala 6x1, a mudança contrariou não apenas declarações anteriores do candidato, mas também a estratégia da oposição no Senado. Até então, parlamentares do PL apostavam no calendário apertado para empurrar a votação da PEC para depois da eleição e admitiam recorrer à obstrução. Flávio, que havia classificado a proposta como eleitoreira e alertado para o risco de desemprego, anunciou na terça-feira que votaria a favor da medida, sob o argumento de que a maioria dos trabalhadores ouvidos por ele durante a campanha defendia a mudança. O recuo exigiu uma articulação paralela com empresários. Em conversas reservadas durante uma agenda em São Paulo, Flávio sinalizou a representantes do setor produtivo que, caso seja eleito, poderá discutir com o Congresso ajustes nas regras, a depender dos efeitos sobre o emprego e a atividade econômica. Sua equipe também avalia projetos específicos para setores com maior dificuldade de adaptação. Publicamente, o senador defendeu que o governo assuma os custos adicionais da redução da jornada, sem detalhar como financiaria a medida. Já Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha, apresentou uma proposta alternativa à PEC, com maior flexibilização das jornadas e remuneração proporcional às horas trabalhadas. A decisão sobre o debate da Band também provocou discussões entre aliados. Flávio havia anunciado que não compareceria ao encontro de domingo, mas reconsiderou diante da possibilidade de Lula ocupar sozinho o espaço na televisão. Ao confirmar presença, afirmou que a recusa inicial havia sido uma estratégia para forçar o adversário a aceitar o convite. A cobrança por uma campanha menos defensiva chegou também aos aliados reeleitos no primeiro turno. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), que participou das negociações para ampliar o arco partidário de Flávio, passou a ser pressionado a aparecer mais nos atos públicos. Integrantes do PL avaliam que ele pode dedicar mais tempo à disputa presidencial, inclusive fora de seu estado, enquanto outros governadores e parlamentares ficam responsáveis pela mobilização regional. Nesta quarta-feira, Tarcísio acompanha Flávio em Porto Alegre, em uma programação que inclui visita ao bairro Sarandi, atingido pelas enchentes de 2024, e um comício. Também são esperados Sergio Moro (PL), Jorginho Mello (PL) e Luciano Zucco (PL). O governador paulista deve participar ainda de agendas no Espírito Santo e na Bahia, onde a campanha tenta ampliar a presença de lideranças nacionais. A intensificação das viagens ocorre depois de uma primeira semana de segundo turno concentrada em Brasília, onde Flávio se dedicou a negociar apoios partidários e discutir a composição de um eventual governo. As articulações garantiram a adesão de siglas como União Brasil, PP e Podemos, mas também provocaram incômodo entre aliados, que passaram a cobrar que o senador deixasse de lado as conversas sobre distribuição de ministérios e voltasse às ruas. A avaliação é de que as negociações por cargos começaram a ocupar espaço demais na campanha, enquanto apoiadores de Lula intensificavam a mobilização. O esforço também envolve Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira, considerados importantes para mobilizar o eleitorado bolsonarista. Michelle já havia anunciado que intensificaria sua participação no segundo turno e realizou uma carreata em Formosa, em Goiás. Nas redes sociais, a campanha aposta na chamada "Tropa de Flávio", estrutura de mobilização digital que reúne apoiadores para distribuir conteúdos, cumprir "missões" de campanha e convocar eleitores para atividades presenciais. A orientação é ampliar a participação de parlamentares e influenciadores, diante da avaliação de que a militância precisa atuar para além dos eventos com a presença do candidato. A iniciativa disputa espaço com o "Exército do Lula", canal de WhatsApp administrado pelo deputado André Janones (Avante-MG), que reúne 4 milhões de seguidores e foi alvo de uma ação apresentada pela defesa de Flávio ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Entre integrantes do PL, a preocupação é que a vantagem obtida no primeiro turno, quando o senador recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, continue a deixar apoiadores desmobilizados.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo