Fim da escuridão? Startup quer usar espelhos em órbita para iluminar a Terra à noite; entenda

 

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Uma startup pretende iluminar a noite com 50 mil grandes espelhos em órbita da Terra, refletindo luz solar para o lado noturno do planeta. A ideia é alimentar fazendas solares após o pôr do sol, fornecer iluminação para equipes de resgate e iluminar ruas de cidades, entre outros usos. Cientistas, no entanto, têm muitas dúvidas sobre o projeto.

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A proposta parece saída de um filme de ficção científica, mas a empresa Reflect Orbital, de Hawthorne, na Califórnia, pode em breve receber autorização para lançar seu primeiro satélite protótipo, equipado com um espelho de cerca de 18 metros de largura. A companhia solicitou licença à Federal Communications Commission (FCC), responsável por autorizar a operação de satélites.

Se a FCC aprovar o pedido, o satélite de teste poderá entrar em órbita já neste verão. O período de consulta pública sobre a solicitação termina na segunda-feira.

— Estamos tentando construir algo que possa substituir combustíveis fósseis e realmente abastecer tudo — afirmou o CEO da empresa, Ben Nowack. A startup já arrecadou mais de US$ 28 milhões de investidores.

Uma ideia antiga e controversa

Essa não é a primeira vez que alguém propõe algo parecido.

Em 1977, o engenheiro de foguetes Krafft A. Ehricke sugeriu o uso de espelhos espaciais para evitar geadas em plantações e iluminar áreas atingidas por desastres. Em 1993, um satélite russo com um espelho de cerca de 24 metros refletiu brevemente um feixe de luz solar sobre a Terra em um experimento para prolongar o dia na Sibéria ártica.

Céu com estrelas

Emily Elconin/The New York Times

Mesmo assim, a proposta continua sendo controversa.

— Não temos ainda um processo regulatório específico para esse tipo de atividade espacial inédita — afirmou Roohi Dalal, astrônoma e diretora de políticas públicas da American Astronomical Society.

Preocupações ambientais e científicas

Críticos alertam que os espelhos poderiam distrair pilotos de avião, prejudicar observações astronômicas e interferir nos ritmos circadianos — os ciclos naturais de luz e escuridão que regulam o sono e o comportamento de seres vivos.

Segundo Martha Hotz Vitaterna, pesquisadora de neurobiologia da Northwestern University, a iluminação artificial extra poderia confundir animais.

Insetos em hibernação e aves migratórias poderiam se desorientar. Plantas também poderiam florescer em momentos inadequados, quando polinizadores não estão ativos.

— As implicações para a vida selvagem, para toda a vida, são enormes — disse a cientista.

Apesar dessas preocupações, a FCC normalmente não analisa impactos ambientais de atividades no espaço. O foco da agência é verificar se as comunicações por rádio não causarão interferências e se os satélites serão descartados com segurança ao fim de sua vida útil.

Como funcionaria o sistema?

O primeiro protótipo da Reflect Orbital, aproximadamente do tamanho de uma pequena geladeira, está quase pronto.

Em órbita a cerca de 640 quilômetros de altitude, o satélite abriria um espelho quadrado de quase 18 metros de largura, refletindo luz solar para uma área circular de aproximadamente 5 quilômetros de diâmetro na superfície terrestre.

Para quem observasse do chão, o satélite apareceria como um ponto no céu com brilho semelhante ao da Lua cheia.

A empresa planeja lançar mais protótipos em seguida. Até o fim de 2028, pretende ter 1.000 satélites em órbita e, até 2030, cerca de 5.000. Os maiores espelhos poderiam chegar a 55 metros de largura, refletindo luz equivalente a 100 luas cheias.

O objetivo final é implantar uma constelação completa de 50 mil satélites até 2035.

Quanto custaria 'comprar' luz solar à noite?

Segundo Nowack, a empresa cobraria cerca de US$ 5 mil por hora pelo uso da luz refletida de um único espelho, para clientes com contratos anuais de pelo menos mil horas.

Eventos pontuais ou emergências — que exigiriam vários satélites — seriam mais caros. Para fazendas solares, a empresa planeja dividir a receita da eletricidade gerada com as horas extras de iluminação.

Astrônomos também questionam se a ideia funcionaria na prática.

A crescente quantidade de satélites já prejudica observações do céu. A constelação de quase 10 mil satélites SpaceX Starlink, por exemplo, frequentemente aparece como rastros brilhantes em imagens de telescópios.

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O astrônomo Michael Brown, da Monash University, calculou que a luz refletida por um único satélite seria distribuída por cerca de 46 km², o que significa que a quantidade de luz recebida por um painel solar seria 140 mil vezes menor que a do sol ao meio-dia.

Mesmo com os maiores espelhos, seriam necessários mais de 3.000 satélites para produzir apenas 20% da luminosidade do sol do meio-dia em um único local, afirmou.

Segundo ele, mesmo com 87 mil satélites, seria possível fornecer no máximo 20% da luz solar do meio-dia para apenas 27 locais ao mesmo tempo.

— Quando você começa a fazer as contas, percebe que existem muitos problemas sérios — disse Brown.

Outro astrônomo, Gaspar Bakos, da Princeton University, também questiona a afirmação da empresa de que a luz refletida seria visível apenas na área alvo. Partículas na atmosfera espalham a luz, o que poderia iluminar o céu noturno a quilômetros de distância.

Nowack afirma que simulações feitas pela empresa indicam que o efeito seria menor do que os críticos sugerem.

— O satélite de teste vai mostrar exatamente o que acontece com medições reais — disse: — Isso vai ajudar muito. Não dá para falsificar esse tipo de resultado.