No último dia 6, uma quinta-feira, o professor Élvio Cotrim começou a aula com um “sincero obrigado” ao cineasta americano Christopher Nolan, diretor de “A Odisseia”, sua ambiciosa releitura da obra de Homero que estreou nos cinemas há um mês e segue em cartaz.
Professor de literatura e língua francesa na Universidade Federal Fluminense (UFF), há anos ele dá cursos livres sobre a “Odisseia” (o livro).
Desta vez, como introdução ao curso (que é pago, on-line e dura quatro semanas), ele anunciou uma aula aberta sobre a adaptação.
Divulgou a iniciativa no Instagram (onde soma menos de dois mil seguidores) e no Substack (sua newsletter tem pouco mais de 2,4 mil assinantes).
Para seu espanto, cerca de 150 pessoas entraram em contato pedindo para assistir à aula.
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— Achava que iam aparecer umas dez pessoas, que íamos discutir o filme e acabou — diz Cotrim, que não gostou “nem um pouco” do longa.
— O Odisseu do Nolan é um traumatizado de guerra, tem transtorno de estresse pós-traumático.
É despido de todas as suas ambiguidades.
O Odisseu original é mentiroso, caozeiro, dormia com as mulheres por onde passava, colocava as pessoas em situações ruins, não tinha uma mentalidade judaico-cristã.
Goste-se ou não do filme (que, à certa altura, parece se transformar numa metáfora da tão falada decadência da civilização ocidental), tudo indica que os 172 minutos da superprodução de Nolan não foram suficientes para saciar a nova fome de cultura clássica do público.
Por toda parte, pipocam cursos sobre a obra de Homero, diferentes edições do livro estão vendendo como nunca e Ítaca, a ilha de Odisseu, onde vivem cerca de três mil pessoas, anda sonhando com mais turistas, conforme disse o prefeito Dionysis Stanitsas à AFP.
Já a ilha de Favignana, na Itália, onde “A Odisseia” foi filmada, espera faturar até US$ 287 milhões com turismo nos próximos três anos, informou o jornal La Repubblica.
Buscas nas alturas
Nos últimos 30 dias, cresceu a busca no Google por personagens como Calipso (3.600%), Circe (1.350%) e o próprio Odisseu (650%).
Já no Spotify, a procura por “Odisseia” aumentou 14 vezes desde o lançamento do filme.
Mais de 200 podcasts brasileiros publicaram episódios com “Odisseia” no título.
Tradutor da edição da obra publicada pela Mnema, Leonardo Antunes relata que a audiência de seu canal no YouTube, dedicado à cultura clássica, cresceu nos últimos três meses — inclusive as visualizações do curso de grego que ele disponibilizou lá.
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Segundo levantamento da NielsenIQ BookData, há 33 edições da “Odisseia” no mercado, entre traduções do texto original (18) e adaptações (15).
Somadas, elas já venderam 54,02% a mais este ano que no mesmo período de 2025.
E o preço médio caiu de R$ 76,26 para R$ 69,55.
Na semana de estreia do filme, as vendas aumentaram 51,9% em comparação com a anterior.
As vendas da tradução de Christian Werner, publicada pela Ubu, subiram 400% e o livro está esgotado — a editora mandou imprimir mais 1.500 exemplares.
A procura pela tradução de Trajano Vieira, vencedora do Prêmio Jabuti e lançada pela Editora 34, triplicou.
O desempenho de outros clássicos gregos, como “Teatro completo” de Eurípides, também impressionou a editora.
Na Companhia das Letras, as vendas da “Odisseia” (traduzida por Frederico Lourenço) cresceram 200% e o audiolivro da obra, narrado pelo ator Gustavo Falcão, tem saído mais que arrasa-quarteirões como a autoajuda “Rápido e devagar”, de Daniel Kahneman, e “Fogo e sangue”, de George.
R.
R.
Martin, autor de “A guerra dos tronos”.
Para o escritor e editor Antonio Xerxenesky, por seu status de clássico, a “Odisseia” sempre “intimidou” os leitores, no entanto, “graças ao filme de Christopher Nolan, muitos estão enfrentando o medo e descobrindo que Homero, quando bem traduzido, é muito mais acessível do que parece”.
O cantor e compositor Lucas Santtana é um desses leitores.
Ele assistiu ao filme e não gostou (apesar de tê-lo achado “plasticamente bonito”).
Chegando do cinema, resolveu retirar da estante uma edição da “Odisseia” (traduzida por Donaldo Schüler) que estava lá estava juntado pó há um par de anos.
— Por ser uma obra de quase três mil anos, achei que pudesse ser chata de ler, mas a leitura é muito fluida, a história parece uma novela.
Não conseguia largar — diz o baiano radicado na França, que já consegue explicar seu incômodo como o filme.
— Como Nolan adapta mitologia grega e omite os deuses? É como fazer um filme sobre futebol e não mostrar a bola.
Dos deuses, só aparece Atena, sempre com cara triste.
A representação de Circe também é absurda.
No livro, ela é uma mulher linda, simpática, mora num palácio.
No filme, é uma bruaca ressentida com os homens.
E Calipso parece uma gatinha de Búzios, meio hippie.
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Por falar nos deuses...
A imagem furiosa de Poseidon, deus dos mares que atrapalha a volta de Odisseu para Ítaca, mas que não dá as caras no filme, estampa a capa da versão em quadrinhos da “Odisseia” assinada pelo ilustrador americano Gareth Hinds e que acaba de sair pela Darkside (o anúncio da adaptação acelerou a publicação).
Gerente editorial da casa, Bruno Dorigatti afirma que há uma “sinergia direta” entre o desempenho do filme nos cinemas e a procura pela graphic novel.
Nova impressão de cópias
Na semana em que a adaptação chegou aos cinemas, a editora Citadel observou um crescimento de 127,2% nas vendas de “Ilíada & Odisseia: reflexões sobre as obras-primas de Homero”, de Clóvis de Barros Filho.
Para dar conta da demanda, foram impressas mais 20 mil cópias.
— As pessoas não estão se contentando em conhecer a “Odisseia” à distância, no cinema.
Elas estão indo atrás da fonte original, querem conhecer a história “de verdade” — diz o professor Élvio Cotrim, que, a partir de setembro, vai conduzir uma leitura guiada da obra na Janela Livraria do Jardim Botânico, no Rio.
Em 30 de setembro, o Clube do Livro do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), no Rio, vai promover um encontro dedicado à “Odisseia” com a presença de Carlinda Pate Nuñez, professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Desde que começou a frequentar os clássicos, na pandemia, a aposentada carioca Thaïs Chavarry sonhava com um curso sobre a “Odisseia”.
Agora, ela se inscreveu em três: na leitura guiada oferecida por Rafael Brunhara na Escrevedeira (centro cultural em São Paulo), que teve o dobro de procura da primeira edição, em 2022, e em dois cursos de Giuliana Ragusa, professora de língua e literatura grega da Universidade de São Paulo, um da editora Ubu (que vai discutir as maiores virtudes de Odisseu, astúcia e a resistência) e outro na Sala Jaú, focado nas personagens femininas da epopeia.
Thaïs não viu e não pretende ver o filme.
Ouviu críticas demais e não é fã do cineasta — embora admita que a profusão de cursos sobre a obra de Homero, que tanto a beneficia, é mérito dele.
Carioca vivendo em João Pessoa, na Paraíba, Julia Schmidt já conhecia bem a “Odisseia” e foi ver o filme de peito aberto.
Estranhou a representações de personagens femininas como a deusa Atena, a rainha Penélope, a feiticeira Circe e a ninfa Calipso (que ela achou “apática”).
Começou a se perguntar se havia “perdido alguma coisa” na leitura e, para tirar a teima, inscreveu-se no curso de Élvio Cotrim.
— Eu poderia pesquisar essas diferenças no Google, mas ele não ia me trazer a construção literária, a poesia das cenas, nem o impacto que eu teria relendo o livro ou num curso — diz ela.
— Por mais que a gente leia, sempre tem algo de inédito na “Odisseia”.
É muito bonito e significativo que essa história milenar ainda nos deixe intrigados.
É de se comemorar o impacto desse filme.
Apresentador do podcast “Noites gregas”, o professor Cláudio Moreno concorda.
E ele também não gostou do que viu no cinema.
Fez até um episódio do “Noites gregas” — o primeiro em vídeo da história do programa — criticando as escolhas de Nolan, como o apagamento das personagens femininas.
Cada vez mais seguidores
Moreno conta que tanto ele quanto o podcast não param de ganhar seguidores nas redes sociais.
Ele sabe bem o que acontece quando Hollywood se volta aos clássicos.
Lançou “Troia: o romance de uma guerra” (L&PM) em 2004, pouco tempo depois da estreia do filme com Brad Pitt.
E o livro rapidamente escalou a lista dos mais vendidos.
— Apesar de tudo, Nolan fez um bem enorme ao despertar o interesse do público para a cultura clássica.
Mal ele teria feito se o pessoal estivesse saindo do cinema satisfeito, achando que agora conhece a “Odisseia” — diz Moreno, que, desde abril, está narrando a jornada de Odisseu no “Noites gregas”.
— Estou relendo o livro com um novo olhar e o lápis na mão e descobrindo detalhes que nunca tinha visto.
Filme 'A Odisseia' desperta interesse do público pela cultura clássica: aumento da venda de livros e cursos sobre Homero
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