Filho de Steve Jobs comanda fundo que busca captar R$ 1,7 bilhão para combater câncer
Reed Jobs, fundador do fundo de biotecnologia Yosemite, durante evento em São Francisco, nos Estados Unidos, em 2023
Getty Images
O fundo de capital de risco Yosemite, dedicado exclusivamente à oncologia, capta atualmente sua segunda rodada de investimentos, com meta de US$ 350 milhões (R$ 1,7 bilhões).
A gestora foi fundada em 2023 por Reed Jobs, filho do cofundador da Apple Steve Jobs, e hoje conta com equipe de 17 pessoas.
A informação foi divulgada em entrevista ao site TechCrunch.
Diferentemente da maioria dos fundos de biotecnologia, que investem em empresas já constituídas, a Yosemite dedica cerca de um terço de seu capital à criação de companhias do zero, a partir de pesquisas em universidades como Yale, Berkeley e Stanford.
O restante dos recursos vai para empresas fundadas por terceiros.
Uma fatia de 2,5% do patrimônio sob gestão do fundo, somada a US$ 1 milhão anual proveniente das taxas de administração, é destinada a doações sem contrapartida para financiar pesquisas em estágio inicial.
Vale lembrar que Reed Jobs já afirmou anteriormente que a morte do pai, em decorrência de um câncer pancreático, foi uma das experiências que o levaram a dedicar a carreira à oncologia.
Em entrevistas, ele também citou a perda de um amigo para a leucemia como parte da motivação para criar a Yosemite.
Ambiente mais favorável para investimentos
Segundo Jobs, o cenário para investimentos em biotecnologia melhorou significativamente desde o lançamento do fundo.
Em 2023, o índice XBI, que acompanha o setor, ainda operava bem abaixo dos picos de 2021, e as grandes farmacêuticas haviam reduzido as aquisições.
A combinação de juros mais baixos com a expiração de patentes de medicamentos bilionários tem impulsionado fusões e aquisições nos últimos meses.
Um exemplo citado foi a compra da Kelonia pela Eli Lilly, por US$ 7 bilhões.
Outro caso mencionado foi o da Revolution Medicines, cujo tratamento contra um gene associado ao câncer de pâncreas dobrou a sobrevida de pacientes, de 12 para 24 meses, resultado obtido no último ano.
O executivo também comentou as tentativas do governo americano de cortar o orçamento do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), a principal agência de financiamento de pesquisa biomédica do país.
Segundo ele, uma proposta de corte de até 40% foi rejeitada pelo Congresso no ano passado; neste ano, a proposta é de 12%, e ele espera novo veto parlamentar.
De acordo com Jobs, o orçamento do NIH não cresce em termos nominais há cerca de uma década, o que representa queda real considerando a inflação.
Inteligência artificial acelera pesquisas
A Yosemite tem direcionado parte de sua estratégia para o uso de inteligência artificial em diferentes etapas do desenvolvimento de medicamentos.
Segundo Jobs, uma das aplicações mais promissoras está nos testes clínicos de fase 3, etapa mais cara do desenvolvimento de remédios, com custo médio de US$ 260 milhões e taxa de sucesso de apenas um em cada três casos.
A tecnologia poderia viabilizar grupos de controle sintéticos, construídos a partir de dados de pacientes já existentes, reduzindo o número de voluntários necessários para a pesquisa.
Segundo o executivo, a inteligência artificial também tem ajudado a identificar novos pontos de ataque em proteínas antes consideradas impossíveis de alcançar por medicamentos.
Antes, apenas cerca de 15% do genoma humano podia ser alvo de fármacos, pela dificuldade química de atingir proteínas que interagem entre si.
Um exemplo citado foi o gene KRAS, associado a diversos tipos de câncer, que resistiu a décadas de tentativas até a descoberta de uma primeira droga eficaz contra uma de suas variantes, há cerca de dez anos.
Segundo Jobs, ferramentas de inteligência artificial passaram a identificar novas formas de atingir outras variantes do gene.
Entre os principais objetivos da gestora está o gene supressor de tumor p53, apontado por Jobs como o mais frequentemente desativado em cânceres humanos.
Três empresas do portfólio da Yosemite investigam formas distintas de reativar ou atacar variantes mutadas do gene, hoje considerado um dos principais alvos ainda não explorados com sucesso pela indústria farmacêutica.
O portfólio da gestora reúne cerca de 25 empresas entre os dois fundos já lançados.
Segundo Jobs, duas delas encerraram atividades por não terem atingido metas científicas estabelecidas, resultado considerado esperado dado o estágio inicial dos investimentos.
Entre os destaques do portfólio estão a Azalea, criada a partir de uma doação ao laboratório da geneticista Jennifer Doudna e hoje em fase clínica; a Tune Therapeutics, que desenvolve terapia de edição epigenética contra a hepatite B, doença que afeta mais de 250 milhões de pessoas no mundo; e a Histosonics, empresa de dispositivos médicos que utiliza ultrassom para destruir tumores no fígado e no pâncreas sem procedimento invasivo.
Jobs também citou o crescimento do mercado de medicamentos para emagrecimento como uma das principais surpresas dos últimos anos.
Segundo ele, a Eli Lilly se tornou a primeira farmacêutica avaliada em US$ 1 trilhão, impulsionada pelo sucesso comercial dos medicamentos GLP-1.
Ainda de acordo com o executivo, pesquisas recentes sugerem que essa classe de remédios pode ter efeito protetor contra doenças neurodegenerativas e câncer, independentemente da perda de peso.
