Filho de PM morto por comparsas do Comando Vermelho livrou homem do tribunal do tráfico na Cidade de Deus
Às 12h40 de 13 de outubro do ano passado, uma mensagem chamou a atenção no grupo de gerentes da boca de fumo da Cidade de Deus: “Quem sabe quem é esse cara aí?”. O homem desconhecido havia tirado uma foto não autorizada pelo tráfico na comunidade e passou a ser procurado pelos criminosos nas vielas. Um deles era Breno Barbosa Diniz, de 24 anos, filho do sargento da Polícia Militar Francisco (nome fictício) — que procura o corpo do filho há dois meses, desde que ele desapareceu na favela. “Qual foi desse maluco? Vai entrar na porrada”, disse o rapaz.
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A caçada durou dez minutos até que um dos gerentes disse que encontrou o homem e o levou para o Vasco, uma das bocas de fumo da favela. Em menos de um minuto, a sentença do tribunal virtual do tráfico foi dada: “Leva ele para o S agora”. A sigla se refere ao Sítio, local na comunidade onde a facção mata e esconde os corpos das vítimas. Breno, porém, se opôs e insistiu que levassem o homem para a boca de fumo. Aparentemente, o homem, que namorava uma pessoa na favela, foi poupado da pena de morte por causa da interferência do rapaz. O celular da vítima foi apagado, mas não é possível saber se ele sofreu alguma agressão.
As mensagens estão entre as mais de 2.300 trocadas dentro do grupo de gerentes da Cidade de Deus entre agosto e dezembro do ano passado. Os diálogos, aos quais o EXTRA teve acesso, detalham o dia a dia do tráfico e a atuação de Breno como um dos “juízes e executores” do tribunal do tráfico do Comando Vermelho. Longe da família e do pai, o policial militar Francisco (nome fictício), que o via como um trabalhador de um ferro-velho, o jovem de 24 anos exercia o papel de autoridade nas escolhas e “penas” aplicadas aos infratores das regras criadas pela facção criminosa.
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Marcelo Theobald
Nos aplicativos de mensagem, Breno assumia outra identidade. Usava o nome e a imagem de Harvey Specter, personagem da série de televisão americana “Suits”, vivido pelo ator Gabriel Macht. Nos vários perfis de WhatsApp Business que tinha, apresentava-se como advogado, à frente de um suposto escritório que oferecia serviços de contabilidade “somente às segundas-feiras, com hora marcada”. No entanto, entre os traficantes, era chamado de Brenin, e não pelo nome de sua persona.
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Além do grupo dos gerentes, os traficantes também faziam parte de outro, nomeado “Cremosos”, que reunia dezenas de criminosos de bairros na Zona Sudoeste do Rio, como Cidade de Deus, Cesar Maia, Jordão, Santa Maria, Muzema, Tanque, Pau da Fome, Gardênia Azul e Campinho. Nele, os gerentes enviavam denúncias e suas investigações internas sobre roubos e “vacilões” que desrespeitaram regras da facção criminosa. Em uma das ações dos gerentes do tráfico, “Deus sempre no controle” envia uma foto e afirma: “Aonde ver esse menor, segura e aciona nós. Sumiu com bagulho dos amigos e o papo é de que ele tá pela CDD”. Em seguida, outro traficante pergunta se pode enviar no grupo geral dos criminosos, e ele permite.
Em um vídeo encontrado no celular de Breno, gravado em 14 de maio do ano passado, um homem aparece apanhando de traficantes com uma pá de ferro. Não foi possível identificar os criminosos nem a vítima, tampouco o estado de saúde após a gravação das imagens, mas deixa claro a atuação do rapaz na execução das ordens enviadas pelo tribunal do tráfico.
A articulação de Breno, que salvou o homem em 13 de outubro da execução, acabou não sendo aplicada a ele mesmo pelos comparsas. O Sítio é o mesmo local onde o sargento Francisco acredita que o corpo do filho tenha sido enterrado. Investigações da Polícia Civil indicam que o jovem foi vítima de homicídio e ocultação de cadáver pelos próprios companheiros de arma. Parentes chegaram a tentar escavar a área em busca de seus restos mortais, mas foram expulsos sob ameaça de traficantes.
