Filho de John Coltrane faz turnê pela Europa em homenagem aos centenários do pai e de Miles Davis

 

Fonte:


Ravi Coltrane tem uma tarefa difícil: homenagear seu pai, John Coltrane, e o também lendário Miles Davis sem imitá-los, disse ele à AFP, cerveja na mão, durante uma entrevista na Polônia.

O jovem Coltrane se uniu ao multivencedor do Grammy Terence Blanchard para uma série de concertos pela Europa. A turnê marca o centenário de seu pai e de Miles Davis e culminará no reverenciado Grand Rex, em Paris — um local que significou muito para ambos.

"Como estamos fazendo uma homenagem, pode-se esperar que vamos imitar o estilo da pessoa", disse Coltrane, cujo nome é uma homenagem a Ravi Shankar, o tocador de cítara indiano que inspirou os Beatles e uma série de outros músicos ocidentais. "Para realmente homenageá-los, não se trata de copiá-los, mas de olhar para dentro e tentar encontrar nossas próprias vozes dentro do repertório que eles tocam."

Seu colaborador, o trompetista e compositor Blanchard, cinco vezes vencedor do Grammy, disse que o jovem Coltrane é um sucesso estrondoso, assim como seu pai.

"Não se trata do sobrenome dele", disse o músico que já se apresentou com nomes como Carlos Santana, Herbie Hancock, McCoy Tyner e Chick Corea. "Trata-se do que ele está fazendo como artista. O difícil é encontrarmos nosso próprio caminho pessoal com a música."

Juntos no palco, a dupla apresenta sonoridades contrastantes: Blanchard ergue seu trompete em direção ao teto, enquanto um Coltrane mais contido executa seus solos com profundidade e precisão.

Embora não seja parente de Miles Davis, Blanchard — como muitos trompetistas — é profundamente influenciado pelo grande músico de jazz, que foi incluído no Hall da Fama do Rock and Roll e considerado "o trompetista de jazz mais reverenciado de todos os tempos" pela revista Rolling Stone. Assim como Coltrane, ele não imita Davis.

"O mais fácil seria eu subir lá e tentar tocar como Miles Davis... mas na verdade essa seria a coisa mais difícil", disse ele. "Não dá para recriar a época em que essas obras foram criadas", acrescentou, referindo-se à turbulência social e política da década de 1960. "Havia muito sofrimento no mundo. Eles (Davis e Coltrane) não ignoraram isso."

Blanchard, que compôs duas óperas e dezenas de trilhas sonoras para cinema e televisão, é apaixonado por orientar e educar músicos mais jovens.

"É isso que sempre digo aos meus alunos", afirmou. "Seja uma pessoa antes de tudo... e aprenda a usar todas as ferramentas musicais para expressar o que você está sentindo por dentro."

Ravi Coltrane disse que foi Blanchard quem lhe propôs a ideia de fazer uma homenagem conjunta, algo que ele talvez tivesse recusado. "Ele é provavelmente o único com quem eu teria concordado em fazer isso", disse, relembrando seus primeiros encontros em Nova York, na década de 1990, para onde Coltrane foi para começar sua carreira.

É uma reminiscência da colaboração entre Davis e o Coltrane mais velho — cujo álbum conjunto de 1959, "Kind of Blue", é aclamado por muitos críticos como o maior disco de jazz já feito.

Paris é um 'lugar especial'

Antes do concerto no Grand Rex, Coltrane e Blanchard refletiram sobre a influência da capital francesa em seus mentores, em si mesmos e no gênero.

"Paris sempre teve um lugar especial no meu coração", disse Blanchard, relembrando suas origens em Nova Orleans e as influências francesas que o cercaram durante a infância.

Miles Davis passou um tempo considerável em Paris, fazendo concertos, gravando a trilha sonora do clássico do cinema noir "Ascensor para o Cadafalso" e — como muitos de sua geração — buscando refúgio da discriminação racial nos Estados Unidos.

"Levar este espetáculo para lá, dada a relação de Miles com Paris, é muito impactante e significativo para mim", acrescenta Blanchard.

Para Ravi Coltrane, o concerto é uma das muitas celebrações da obra de seu pai, de sua mãe, a pianista Alice Coltrane, e da miríade de outros mentores e colaboradores com quem tocou e de quem aprendeu ao longo de sua carreira.

"A realidade é que prestamos homenagem a esses artistas todos os dias", diz ele, "toda vez que pegamos nossos instrumentos, de alguma forma estamos prestando tributo e honra aos homens e mulheres que nos trouxeram até aqui".

"Isso nunca desaparece".