Filho de empregada doméstica e padeiro, André Luiz Miranda, de

Filho de empregada doméstica e padeiro, André Luiz Miranda, de 'A nobreza do amor', engata papéis após anos parado: 'Achava não ser bom o suficiente'

Fonte: Bandeira da fonte

Guerreiro estrategista, Akin, personagem de André Luiz Miranda em “A nobreza do amor”, luta contra as injustiças cometidas pelo vilão de Lázaro Ramos, o terrível Jendal da novela das seis.
Nos próximos capítulos, o herói vai descobrir o paradeiro de Dumi (Licínio Januário), que tanto sofre nas mãos do soberano cruel do reino de Batanga.
Mas o que deixa mesmo o ator feliz é a oportunidade de mostrar ao público costumes da África, onde sua trama é ambientada.
Os olhos de André se enchem de beleza ao reconhecer sua ancestralidade nos cenários e figurinos da obra de Duca Rachid, Júlio Fischer e Elísio Lopes Jr.
William Bonner se rende a sonho de R$ 3,95 em padaria de Marechal Hermes; veja a história do lugar
Após mudança para o Reino Unido, Meghan Markle deve voltar a atuar em 'papel mais significativo da carreira', diz revista
Galerias Relacionadas
— Na escola a gente não aprende muito sobre a África, né? Temos um recorte muito pequeno do nosso berço.
Colocam o continente numa caixa como se todo mundo de lá fosse igual.
Lá tem diversas línguas, culturas diferentes...
É muito plural.
Estou impressionado com o tanto de conhecimento que venho adquirindo ao fazer essa novela — conta o artista de 38 anos.
Se hoje o niteroiense está mais ligado à sua origem, seu letramento racial — processo educativo que ensina a combater o racismo — veio com o tempo.
Nascido em 1987, ele foi criado numa época em que não se falava tanto no assunto.
— A gente ainda tinha pouca informação.
Hoje é muito mais fácil o acesso por causa da internet.
Minha mãe também não era muito ligada na questão racial.
Ela só estudou até a 5ª série e começou a trabalhar em casas de família aos 14 anos de idade.
Ralou muito para poder pagar meus cursos, não tinha esse tipo de entendimento, era só uma questão da sobrevivência.
Apenas nos meus últimos trabalhos, comecei a ter mais consciência racial — pontua.
Filho da ex-empregada doméstica Zizi Jardim e do padeiro Augusto Miranda, o ator cresceu em São Gonçalo e depois se mudou para Bonsucesso.
Hoje, mora no bairro da Zona Norte do Rio com a mulher, a gerente financeira Bárbara Laino, e a filha, Beatriz, de 10 anos, mas não costuma postar fotos com a família em suas redes sociais.
Diferentemente do revolucionário Akin da ficção, André Luiz é discreto até quando o assunto é política.
André Luiz
Márcio Farias
— Eu me considero engajado politicamente, mas não costumo divulgar muitas coisas.
Sou bem reservado.
Mas sou um homem preto que cria uma filha preta nesse mundo, e acho que isso já é um ato político — analisa.
O menino cresceu
André cresceu aos olhos do público.
Já na sua estreia na televisão, como o esperto Tiziu de “Terra nostra” (1999), o ator ganhou a simpatia dos espectadores, que se lembram do personagem até hoje.
— Parece que sou aquele netinho ou sobrinho de quem as pessoas falam com carinho, sabe? Foi o papel mais importante da minha carreira, o que me abriu as portas.
Tiziu fez tanto sucesso que todos os meus personagens que vieram depois foram meio apagados.
Mas levo isso numa boa — avalia ele, que não teve problemas em lidar com a fama ainda menino: — Foi tranquilo pra mim.
Sempre fui muito correto.
Fui criança, brinquei, estudei...
Era respeitado.
Não perdi minha infância.
Continuei jogando minha bola, soltando minha pipa, brincando de bola de gude, me machucando, correndo, brincando no set também.
Interpretar o Tiziu era um trabalho, mas eu levava muito na brincadeira .
Era bem natural!
Em 26 anos de profissão, os altos e baixos apareceram em alguns momentos, mas André Luiz nunca desistiu do ofício de ator.
André Luiz
Márcio Farias
— Fiquei alguns anos parado, porque isso faz parte da profissão.
A gente trabalha com a escassez.
Não cheguei a ter depressão, mas tive ansiedade.
Passam milhares de coisas pela cabeça.
Acreditava não ser bom o suficiente para estar no mercado.
Mas também tive o tempo de pensar: “Cara, é o momento de eu virar a chave e tentar buscar outro tipo de papel” — conta.
Quem se acostumou a ver André Luiz ainda criança se surpreendeu com o corpo sarado do artista nas redes sociais.
Suas postagens recentes geraram comentários sobre o seu físico.
— Foi uma surpresa pra mim.
É engraçado as pessoas na rua: “Nossa, como você cresceu!”.
Mas são 26 anos, né? (risos).
Vou à academia direto, mas não estava atrás de um resultado estético.
Este corpo foi uma espécie de renascimento meu como ator para “Veronika com K” (série do Globoplay, protagonizada por Roberta Rodrigues, prevista para estrear este ano).
Eu estava há dois anos sem fazer nenhum trabalho.
Não vinha cuidando da minha saúde mental nem do meu físico.
Aí veio esse personagem e resolvi mudar — conta o ator, que também pode ser visto na novela “Dona Beja”, disponibilizada na HBO Max, como um dos pares românticos da protagonista, Grazi Massafera.
Proteção à vida
Na trama de “Veronika com K”, André interpreta um inspetor de polícia saradão, mas que sofreu bullying quando era adolescente por conta da obesidade.
Esse tipo de agressão o ator não enfrentou na juventude, mas...
— Ter trabalhado desde pequeno, de certa forma, me colocou num lugar de privilégio, de uma defesa contra o bullying.
Mas, obviamente, seguranças já me seguiram quando entrei em farmácias, em supermercados...
Minha mãe sempre falava: “Em tal lugar, você se comporta assim, não corra, não faça isso, não faça tal movimento”.
Por mais que eu não entendesse que na sua essência ela estava abordando o racismo, era uma questão de proteção à vida mesmo — conclui.
Créditos:
Texto: Thomaz Rocha
Edição: Camilla Mota
Foto: Márcio Farias @marciofariasfoto