Filho com ex-detento, saque de R$ 1 milhão feito pela irmã: as ligações criminosas de Deolane e sua família, segundo investigação
A influenciadora e advogada Deolane Bezerra, presa nesta quinta-feira (21) acusada de receber quantias milionárias do Primeiro Comando da Capital (PCC), por meio de uma transportadora localizada próximo a um presídio no interior de São Paulo, possui uma série de empresas com "características estruturais de veículos de lavagem de dinheiro".
Segundo as investigações, essas firmas possuem o mesmo modo de operação: endereços fictícios em imóveis residenciais singelos em municípios do interior paulista (Santo Anastácio e Martinópolis), sem qualquer indicativo de atividade operacional verificada em campo, compartilhando os mesmos endereços com dezenas de outras empresas e o mesmo contador.
Documentos obtidos pelo GLOBO mostram que as empresas de Deolane, em muitos dos casos, são geridas ou movimentadas por integrantes de sua família. "A investigação ainda revelou complexa engrenagem financeira estruturada em torno da pessoa de Deolane Bezerra Santos, caracterizada por movimentações bancárias de elevada monta, incompatíveis com os rendimentos formalmente declarados, forte utilização de empresas do próprio núcleo familiar, intermediadoras de pagamento/fintechs e pessoas interpostas, com reiterados indícios de ocultação, dissimulação e integração de capitais", aponta trecho de relatório de investigação.
Em outra parte dos registros policiais, os investigadores detalham as participações de seus familiares com esses e outros crimes. Veja abaixo:
Filho com ex-detento preso com metralhadora .40
Segundo as investigações, Deolane Bezerra possui um filho com o ex-detento Francisco Alberto Teixeira de Souza. Em 2016, quando foi preso, Souza portava "uma metralhadora calibre 40, com carregadores e 26 munições do respectivo calibre e outros objetos, no quarto onde estavam os investigados, e ainda dois revólveres". Na ocasião, Deolane Bezerra e sua irmã, Daniele Bezerra Santos, que também é advogada, figuraram como defensoras de Francisco Alberto no boletim de ocorrência.
Irmã saca R$ 1 milhão
Em 24 de novembro de 2023, Dayanne Bezerra Santos, irmã de Deolane, foi a uma agência do Banco Itaú para sacar R$ 1 milhão em espécie. Devido à atipicidade da operação financeira, os funcionários da instituição, por desconfiança de se tratar de ato de lavagem de dinheiro, negaram o saque. Na ocasião, Dayanne Santos disse que o dinheiro seria para o pagamento de um imóvel. Após o episódio, o banco deu um prazo de duas semanas para que as irmãs encerrassem a conta. Segundo a investigação, Deolane, que teria cerca de R$ 10 milhões investidos no banco, entrou com um processo contra a instituição.
De acordo com os investigadores, Dayanne Santos "apresentou movimentações mensais na ordem de milhões de reais, em aparente dissintonia com as rendas formalmente declaradas". Ela não foi alvo da operação desta quinta-feira (21).
Filho adotivo movimenta R$ 11 milhões
Giliard Vidal dos Santos, filho adotivo de Deolane, movimentou, nos últimos anos, mais de R$ 11 milhões em suas contas, "montante absolutamente discrepante para um jovem sem histórico de atividade empresarial consolidada", afirmam os investigadores. Alvo da operação desta quinta-feira, Santos movimentou, somente em 2023, R$ 6,2 milhões.
"A movimentação financeira atribuída a Giliard revela um padrão fortemente sugestivo de mecanismos típicos de ocultação, dissimulação e pulverização de capitais, frequentemente associados a operações de lavagem de dinheiro. Embora figure como recebedor de valores expressivos — mais de R$ 7,1 milhões em créditos — o dado mais relevante é que envia significativamente mais recursos do que recebe, totalizando R$ 11,17 milhões em débitos, o que representa um déficit operacional incomum para alguém sem atividade econômica formal robusta que justifique tal fluxo", diz um trecho da denúncia.
Como o acusado não possui lastros financeiros, ainda de acordo com os investigadores, recai sobre ele a suspeita de que ele tenha sido usado como "canal de dispersão" de dinheiro oriundo de práticas criminosas.
"O fato de Giliard movimentar cifras multimilionárias apesar de não possuir renda declarada compatível, aliado ao uso de múltiplos microdepósitos realizados para centenas de pessoas, indica que sua conta pode estar sendo utilizada como canal de dispersão, funcionando como “ponte” para escoar recursos advindos do núcleo empresarial ligado à investigada principal", diz outra parte do relatório.
Transportadora levou Deolane à prisão
A operação do Ministério Público de São Paulo que culminou com a prisão da influenciadora Deolane Bezerra, nesta quinta-feira (21), teve como ponto principal da investigação a existência de uma transportadora chamada Lado a Lado.
Localizada próximo à Penitenciária II de Presidente Venceslau (SP), a Lopes Lemos Transportadora Ltda., cujo nome fantasia é Lado a Lado Transportes, movimentou, em três anos, mais de R$ 20 milhões "com expressiva incompatibilidade entre receitas declaradas ao fisco e os débitos verificados — diferença de R$ 6,9 milhões —, caracterizando a prática de lavagem de capitais – afirma o MP paulista.
Segundo os investigadores, Deolane Bezerra foi diretamente beneficiada pelos recursos criminosos da transportadora, cujos valores foram depositados em sua própria conta, conforme comprovantes encontrados no celular do dono da transportadora, Ciro Cesar Lemos , que foi condenado pelo crime de lavagem de dinheiro e está preso.
Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil — prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar rastreamento financeiro.
Presa na Grande São Paulo e levada para a sede da Polícia Civil, no centro de São Paulo, a influenciadora foi alvo de um bloqueio de R$ 27 milhões, valor que, segundo os investigadores, possui indícios de lavagem de dinheiro e origem não comprovada.
