Filha de Maradona chora em julgamento que apura morte do pai e ouve áudios do médico no tribunal:

Filha de Maradona chora em julgamento que apura morte do pai e ouve áudios do médico no tribunal: 'Gorda idiota e ingrata'; entenda

Fonte: Bandeira



Dalma Maradona Villafañe, a filha mais velha de Diego Armando Maradona, prestou um depoimento emotivo diante do Tribunal Oral Criminal nº 7 de San Isidro, nesta terça-feira (9), no julgamento que apura possíveis responsabilidades criminais pela morte do ídolo argentino. Suas irmãs, Gianinna e Jana, já haviam testemunhado.

Faixa de protesto em frente ao tribunal em San Isidro, em Buenos Aires, neste terça-feira (9)

Luis Robayo / AFP

Maradona morreu no dia 25 de novembro de 2020, aos 60 anos, em uma casa que havia sido alugada para ele num condomínio fechado de San Andrés, na cidade de Tigre, em Buenos Aires. Era meio-dia na Argentina. De acordo com a autópsia, Maradona morreu de insuficiência cardíaca aguda, congestiva e crônica, que causou edema pulmonar agudo.

Em março do ano passado, no entanto, o Ministério Público argentino alegou que a equipe médica foi negligente no cuidado do ídolo, enquanto as defesas argumentam que a morte foi consequência do estado de saúde de Maradona. Oito profissionais de saúde estão sendo acusados de homicídio simples com dolo eventual na Argentina, incluindo o neurocirurgião Leopoldo Luque e a psiquiatra Agustina Cosachov.

O depoimento de Dalma

Em seu depoimento nesta terça-feira (9), Dalma responsabilizou a equipe médica que cuidava de seu pai — formada, segundo ela, pelo neurocirurgião Leopoldo Luque, pela psiquiatra Agustina Cosachov e pelo psicólogo Carlos Díaz, três dos sete réus do processo — além da empresa de assistência médica Swiss Medical.

Dalma (à esquerda) e Giannina (dir) com o pai, Maradonna, em foto de 2001

Ali Burafi / AFP

O momento mais emocionante do depoimento ocorreu quando ela relembrou o instante em que viu o corpo do pai, em 25 de novembro de 2020. Muito abalada, não conseguiu conter as lágrimas.

“Quando cheguei à casa de Tigre, meu pai já tinha falecido. Entrei no quarto, o vi coberto por um lençol até a altura do peito. Ele estava muito inchado, no corpo inteiro, no rosto... Cheguei perto e segurei suas mãos. Não entendia o que tinha acontecido”, afirmou, chorando, diante dos juízes.

Antes disso, Dalma falou sobre a decisão tomada após a cirurgia para retirada de um hematoma subdural, realizada em 3 de novembro de 2020 na Clínica Olivos.

“Fizeram-nos acreditar que a internação domiciliar era a única opção possível”, declarou.

'Achávamos que era o melhor, mas depois vimos que não era assim'

Segundo ela, nos dias 9 e 10 de novembro de 2020 ocorreram duas reuniões para definir os próximos passos após o sucesso da operação. Foram apresentadas três alternativas: transferência para uma clínica contra a vontade de Maradona, encaminhamento para um centro de reabilitação com o consentimento dele ou a internação domiciliar.

“Luque nos apresentou a internação domiciliar como a única alternativa viável, porque meu pai não aceitaria ficar internado em outra clínica e obrigá-lo seria complicado”, afirmou.

Dalma disse que acreditou que uma “internação domiciliar séria” seria a melhor solução. Durante o depoimento, repetiu diversas vezes a palavra “séria”.

Manifestante na porta do tribunal pede 'justiça por Diego'

Luis Robayo / AFP

“Acreditávamos que era a melhor opção. Fizeram-nos acreditar que era a única. Mas depois percebemos que não havia ambulância, que os acompanhantes terapêuticos tinham sido dispensados”, declarou.

Questionada sobre quem considerava responsável por isso, respondeu: “Luque, Cosachov, Díaz e a Swiss Medical”.

“Todos garantiam que seria uma internação domiciliar séria, com equipamentos, enfermeiros, acompanhantes terapêuticos e uma ambulância 24 horas na porta. Achávamos que era o melhor, mas depois vimos que não era assim”, afirmou.

'Uma gorda idiota e ingrata'

Segundo Dalma, o primeiro sinal de alerta surgiu quando Maradona passou mal após comer camarões com alho e brócolis. Na ocasião, Nancy Forlini, coordenadora médica da Swiss Medical e também ré no processo, enviou uma mensagem à irmã Gianinna avisando sobre o mal-estar.

“Foi aí que percebemos que ninguém estava assumindo a responsabilidade pela situação”, disse. Ela argumentou que, havendo uma equipe médica e enfermeiros responsáveis pelo paciente, não fazia sentido que as filhas fossem avisadas sobre o primeiro problema de saúde.

Dalma também relembrou uma conversa com Luque.

“Eu disse a ele: ‘Se meu pai é um paciente difícil, você pode se afastar e deixar outro profissional assumir’”, contou. Segundo ela, o neurocirurgião decidiu permanecer no caso. “Quem dera que tivesse se afastado”, afirmou aos juízes.

Mais tarde, respondendo a perguntas do advogado Fernando Burlando, Dalma disse que nem a equipe médica nem os profissionais da Clínica Olivos explicaram os riscos da internação domiciliar. Sua resposta foi direta: “Não”.

A pedido de Burlando, foram reproduzidas mensagens de áudio de WhatsApp nas quais Luque se referia a Dalma como “uma gorda idiota e ingrata”. A filha de Maradona classificou o médico como alguém “deslumbrado pela fama”, mais interessado em aparecer em fotos do que em exercer adequadamente sua função.

Antes do início das perguntas da defesa, Dalma voltou a chorar. Questionada sobre como sua vida mudou após a morte do pai, respondeu:

“Não existe um dia em que eu não sinta falta do meu pai. Ele me faz falta.”