'Fiel da balança': oito em cada dez religiosos rejeitam política na igreja, mas lideranças buscam influenciar voto

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Depois de passar metade da vida frequentando a mesma Assembleia de Deus em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, a psicanalista Alessandra Silva, de 40 anos, sentiu necessidade de mudar de igreja nas eleições de 2022. Ela diz que o estopim, à época, foi o incômodo com a forma como seu pastor orientava voto “no candidato que ele já tinha escolhido”, apresentado por ele como “representante da pátria e da família” e “contra o homossexualismo (sic)”. Quer acompanhar de perto o noticiário das eleições? Participe da comunidade do GLOBO no WhatsApp Com qual candidato a presidente você mais se identifica? Faça o teste do GLOBO e descubra O relato de Alessandra vai ao encontro de dados captados na pesquisa Religião e Vida Pública no Brasil, feita pelo Instituto de Estudos da Religião (Iser) com a Quaest. Os dados começam a ser divulgados neste domingo pelo GLOBO, no primeiro capítulo da série de reportagens “Fiel da balança”, que vai abordar as mudanças religiosas no país e seus impactos nas eleições e nos hábitos dos brasileiros. O levantamento, com 15 mil entrevistas presenciais ao redor do país, aponta que oito em cada dez pessoas são contrárias a discutir política em espaços religiosos. Além disso, nove a cada dez brasileiros não querem que sua liderança religiosa permita a presença de candidatos na igreja — esses percentuais são similares entre católicos, evangélicos e outras religiosidades.

Mesmo com essa rejeição, a pesquisa também mostra em que medida os líderes, em especial pastores, tentam influenciar os votos dos fiéis. Questionados sobre o papel da liderança religiosa da comunidade que frequentavam na eleição de 2022, 11% dos entrevistados disseram ter sido orientados por ela a votar no então presidente Jair Bolsonaro (PL), e 5% em Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No caso dos evangélicos, o índice dos que foram orientados a votar em Bolsonaro chega a 20% entre os protestantes, como batistas e presbiterianos. Entre os pentecostais, grupo que inclui denominações como as Assembleias de Deus — igreja de Alessandra —, a Universal e a Quadrangular, 23% afirmam ter recebido de seu pastor a indicação de optar por Bolsonaro. Artigo: A questão não é se os evangélicos irão ultrapassar os católicos, mas sim quando Entrevista: 'Evangélicos não passarão de 35% da população', diz sociólogo crítico da tese de transição religiosa no Brasil — O que aquele pastor dizia sobre o candidato não era manifestação espiritual, e sim a preferência pessoal dele — diz Alessandra, que hoje frequenta outra Assembleia de Deus. — Não quero que ninguém venha me dizer o que eu tenho que fazer. Quem convence o homem é o Espírito Santo, em qualquer área da sua vida. Isso inclui também a política.

Para a antropóloga Lívia Reis, coordenadora da pesquisa Religião e Vida Pública e do Iser, os dados mostram que a religião é um entre vários marcadores sociais que podem influenciar o comportamento eleitoral. Apesar do apoio maciço de pastores das maiores igrejas a Bolsonaro em 2022, a pesquisa mostra que na região Nordeste, por exemplo, onde o PT vem tendo seus melhores desempenhos, Lula conseguiu 35% do apoio entre evangélicos, quase o mesmo desempenho que o de seu adversário (38%) no segundo turno neste grupo. O levantamento também traz nuances entre as igrejas. No caso de fiéis da Universal, 27% afirmam que o pastor recomendou voto em Bolsonaro, e 12% em Lula, percentuais acima da média em ambos os casos. Além disso, no caso da Universal, 26% dos fiéis disseram concordar que o pastor indique em quem votar, o dobro da média geral da pesquisa.

Na avaliação de Lívia Reis, os dados mostram que não há um “voto evangélico” homogêneo, mas sim uma correlação de forças nas igrejas. — Não se trata de o pastor mandar e o fiel obedecer. Na pesquisa, os evangélicos aparecem mais engajados religiosamente do que outros grupos, e a igreja é uma rede de confiança. É nesse sentido que uma liderança pode acabar influenciando o voto, por exemplo, a partir das informações que circulam no grupo de WhatsApp dessa comunidade. Mas também há o inverso, pessoas que deixam a igreja reclamando da insistência do pastor de indicar voto — diz a pesquisadora. Na atual corrida ao Planalto, Flávio Bolsonaro (PL) vem tentando repetir a estratégia do pai em 2022 e busca o apoio de lideranças evangélicas — que têm hesitado, porém, em declarar voto de forma explícita. Em pronunciamentos, Flávio tem prometido indicar ministros ao Supremo Tribunal Federal (STF) que sejam “contra o aborto e contra as drogas”, fazendo eco a discursos dessas lideranças. O presidente Lula, por sua vez, critica o que chama de “uso político da religião” e diz que não montará “comitê de campanha” em igrejas por “respeito à fé das pessoas”. Por experiência própria, Gustavo Catarino, de 50 anos, sabe que há um certo “desconforto dos membros” quando pastores “sugerem a igreja se vinculando” a um candidato. Atualmente trabalhando como supervisor em uma empresa de energia e membro de uma igreja Assembleia de Deus, Catarino já foi pastor da Igreja Nova Vida, no Rio. Familiares de Vorcaro enviaram R$ 2 milhões para igreja da Lagoinha em meio a cobranças de pastor: 'Obra vai parar' Em época de eleição, Catarino diz já ter recebido candidatos a vereador na igreja em que era pastor, mas tomando certos cuidados, como o de não lhes franquear a palavra durante o culto. A liderança religiosa, argumenta Catarino, não deve agir como se a política não fizesse parte da vida dos fiéis, mas sim orientá-los a “não trocar seus votos por saco de cimento”. — Eles sofriam assédio de políticos, e eu dizia que é preciso votar consciente. Já vi colegas pastores colocando a direita como salvadora, que iria resgatar a moralidade. Quando os altares começam a se tornar verdadeiros falantes políticos, não sou a favor. No meu caso, os candidatos participavam do culto, mas sem oportunidade de fala. Depois fazíamos uma oração — lembra. Já a cuidadora de animais Renata Nascimento, de 47 anos, diz ter testemunhado outra faceta do discurso político em igrejas: o uso da narrativa religiosa para atacar adversários. Evangélica desde os 20 anos e hoje frequentando uma igreja batista em Realengo, na Zona Oeste do Rio, ela conta que o pastor de outra igreja da qual fez parte buscava demonizar candidatos de esquerda. — Ele disse, com todas as letras, que quem votasse no Lula era do capeta. Para mim, aquilo foi o fim da picada — critica. O antropólogo Flávio Conrado, diretor da Casa Galileia e coautor do relatório “Narrativas evangélicas e contexto eleitoral” junto ao Instituto Democracia em Xeque, avalia que lideranças mais radicalizadas podem estar menos vocais no púlpito, mas seguem usando as redes sociais e outros espaços para “circunscrever o voto religioso à direita”. Ele aponta ainda que pastores das principais igrejas têm posicionado o ministro do STF André Mendonça, que é presbiteriano e foi indicado à Corte por Bolsonaro, como personagem de uma “luta do bem contra o mal” envolvendo o colega Alexandre de Moraes, com impactos eleitorais. — A ideia transmitida é que Mendonça está numa batalha espiritual contra um “sistema corrompido”, que certas lideranças associam à ocupação do Executivo e do STF pela esquerda — avalia Conrado. Segundo o levantamento realizado pelo Iser e pela Quaest, apenas uma minoria — um a cada cinco entrevistados — participa de grupos ou comunidades religiosas nas redes sociais. Entre os participantes, porém, há a percepção de atividade política nesses espaços: 48% veem “sempre” ou “frequentemente” outros participantes compartilhando conteúdos de política nesses grupos no Facebook, e 34% veem o mesmo no WhatsApp. Católicos praticantes, pentecostais e protestantes tendem a relatar mais acesso a esse tipo de conteúdo nos grupos de que participam, em comparação a católicos não praticantes e evangélicos sem igreja. Para pesquisadores, os dados sugerem que a tentativa de influência política a partir do discurso religioso vai além, hoje em dia, do que é dito de forma explícita dentro da igreja. Em discursos na Avenida Paulista, em São Paulo, no feriado de 7 de Setembro, que depois se tornaram cortes em suas redes sociais, nomes como o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, e a bispa Sonia Hernandes, da Igreja Renascer, pediram orações a Mendonça e associaram sua atuação no caso Master a uma oportunidade para, nas eleições, “derrotar homens injustos” e não permitir que as “trevas ocupem nenhum cargo” no país. Presente ao mesmo ato, o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), distribuiu camisetas com a frase “Força, Mendonça” que, segundo relatou ao portal Metrópoles, foram entregues a ele por grupos ligados à Igreja Católica. — Talvez estejamos vendo uma aproximação de práticas entre cristãos conservadores, sejam católicos ou evangélicos — diz a pesquisadora Brenda Carranza, professora de Antropologia da Religião da Unicamp. — A campanha eleitoral passa cada vez mais pelos influenciadores cristãos em redes sociais. E os líderes de igrejas passam a trabalhar mais com a defesa de determinados valores, que sejam verbalizados por políticos, do que se restringir a candidatos da própria igreja.

(*Estagiário sob a supervisão de Fernanda Freitas)

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