Fictor quer focar em proteína animal para se reestruturar e abandonou oferta de SCPs porque modelo se tornou insustentável

 

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Em meio a uma crise financeira e reputacional, o Grupo Fictor, que tentou comprar o banco Master, apresentou em seu pedido de recuperação judicial medidas para reestruturar suas operações, reorganizar passivos e ressarcir R$ 4,12 bilhões a 13 mil credores.

A estratégia inclui o encerramento da comercialização de grãos, extinção da oferta de SCPs e venda de ativos de energia e imobiliários. Advogados consultados pelo GLOBO avaliam que empréstimos e uma injeção de capital também deverão ser necessários para a reestruturação da companhia. E avaliam que os credores deverão votar pela inclusão das demais subsidiárias no processo.

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A Fictor Holding, que tem capital social registrado em 2026 de R$ 997 milhões, já vinha reestrutrando os negócios, antes mesmo de fazer a proposta de compra do Master, em novembro passado, informou a empresa à Justiça. A companhia disse que encerrou suas atividades de comercialização de grãos e extinguiu a oferta de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) no agro.

Segundo o grupo, o elevado volume de pedidos de retirada de capital tornou o modelo insustentável. Desde agosto de 2024, novas SCPs já não vinham sendo ofertadas, reduzindo riscos, explicou a empresa. A Fictor também capta recursos via fundos de investimento geridos pela Fictor Asset, que ficou fora do pedido de RJ. São cinco fundos operacionais com patrimônio líquido de cerca de R$ 300 milhões.

A Fictor Alimentos é a principal aposta do plano de recuperação. A Fictor descreve essa área como o “grande motor” do grupo. A subsidiária, especializada em proteína animal (aves e suínos), responde sozinha por 87% do faturamento projetado para os próximos anos, que é de R$ 691 milhões.

A empresa diz contar com cinco unidades industriais em Minas Gerais e no Rio de Janeiro, que opera com modelo verticalizado, o que significa que a empresa produz desde a matéria-prima e fica responsável até a distribuição final.

A capacidade instalada permite o processamento de cerca de 745,5 toneladas de produto acabado por dia, o equivalente a mais de 16 mil toneladas mensais. Em 2025, a empresa adquiriu a Unidade Produtiva Isolada (UPI) da Mellore, em Betim (MG), ampliando sua capacidade produtiva em aproximadamente 1.691 toneladas mensais.

Listada na B3

A Fictor Alimentos está listada na B3, após a empresa fazer um IPO reverso. Nesse tipo de operação, uma empresa de capital fechado compra uma empresa que já tem ações na Bolsa, evitando o longo processo burocrático de abertura de capital, onde devem ser apresentadas todas as informações financeiras da companhia.

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Ainda segundo as explicações da empresa à Justiça, a estratégia para se reestruturar inclui o fortalecimento da marca, com patrocínios de longo prazo, como o acordo com o Palmeiras, iniciado em março de 2025, e o apoio ao atletismo brasileiro até 2029.

Mas o Palmeiras rescindiu o contrato de R$ 75 milhões com a empresa, depois que a parcela de janeiro deste ano (algo em torno de R$ 2,6 milhões) não foi paga. O Palmeiras, assim como a Confederação Brasileira de Atletismo (CBA) também aparecem na lista de credores. A CBA tem R$ 500 mil a receber.

O grupo diz também quer voltar a crescer via fusões e aquisições (M&A), com foco em ativos estressados e na compra de empresas em dificuldade financeira. Também sinalizou a intenção de receber um novo aporte de capital com a entrada de um investidor estratégico, mas não há identificação de quem seria esse investidor.

Exclusão de subsidiárias da RJ

Um ponto central para a Fictor se manter operacional é excluir suas subsidiárias (de alimentos, energia e imobiliário) da recuperação judicial. Segundo a Fictor, a atuação dessas empresas é indispensável para gerar fluxo de caixa necessário ao pagamento dos credores da holding e da Fictor Invest.

Para Eduardo Terashima, sócio de resolução de disputas e contencioso do NHM Advogados, as medidas anunciadas estão linha no contexto de uma empresa que busca a reestruturação. Mas o especialista acredita que é bastante provável que os credores façam um movimento para incluir as subsidiárias na recuperação judicial.

— Afinal, essas empresas representam boa parte do faturamento do grupo — afirma.

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Na área de energia, a Fictor atua por meio da subsidiária Fictor Energia, com foco em geração solar. Atualmente, diz a empresa, são quatro usinas fotovoltaicas em operação — em São Paulo, Amazonas e Goiás — somando um investimento de R$ 77,5 milhões. Outras dez unidades estão em diferentes estágios de desenvolvimento, sendo três já concluídas e aguardando conexão às concessionárias.

A receita mensal do setor, hoje em torno de R$ 1,3 milhão, pode chegar a R$ 5,3 milhões após a entrada em operação de todos os projetos, diz a empresa. A receita total estimada ao longo da vigência dos contratos é de aproximadamente R$ 1,88 bilhão. Apesar do potencial, o plano estratégico prevê a conclusão dos investimentos e a posterior desmobilização — venda dos ativos — até meados de 2028.

Na divisão imobiliária, a Fictor Real Estate, que atua no desenvolvimento de condomínios multifamily, loteamentos residenciais e hotéis logísticos há projetos em operação em São Paulo, empreendimentos em construção no Rio de Janeiro e novos projetos em fase de planejamento, além de um hotel logístico de 9.000 m² voltado ao suporte de operações de e-commerce, afirma a Fictor. Assim como na energia, a estratégia é concluir os projetos e vendê-los até 2028, diz a empresa.

— As medidas apresentadas parecem tímidas. Alternativas como financiamentos, injeção de capital, venda de ativos que gerem caixa e reduzam o peso da dívida são opções que deverão ser colocadas à mesa — diz Cláudio Miranda, sócio do escritório Chalfin Goldberg Vainboim Advogados, especialista em direito empresarial.

No pedido de RJ, a empresa solicitou supensão de ações e execuções por 180 dias ganhando fôlego para evitar novos bloqueios judiciais e arrestos de valores, como os R$ 150 milhões bloqueados pela Justiça, na semana passada, que são usados como garantia numa operação de cartões de crédito.

Novos bloqueios, diz a empresa, "poderiam comprometer a liquidez operacional durante o processo de reestruturação". A Justiça concedeu 30 dias de suspensão das execuções e pediu um laudo sobre a situação das empresas.