Festivais inclusivos Teatro Cego e O Que Move Você? levam dezenas de atividades à Cidade das Artes
Nas próximas semanas, dois eventos levam propostas inclusivas à Cidade das Artes: sábado e domingo, a segunda edição do festival O Que Move Você? reúne artistas com e sem deficiência para apresentar múltiplas linguagens: música, teatro, fotografia; além de bate-papos na Biblioteca Ziraldo. Na semana seguinte, de quinta-feira até domingo, o Festival de Teatro Cego propõe aos espectadores uma inovação cênica imbuída de uma explosão de sentidos: encenadas no escuro, peças despertam estímulos diversos — exceto os visuais.
Tucano tenta puxar papo com escultura de tucano em Niterói: 'Nunca imaginei', diz criador da obra; vídeo
O que é que a Barra tem? Saiba por que as casas de shows do bairro estão atraindo turnês comemorativas de estrelas da MPB e do rock nacional
Com atividades entre 15h e 21h30 e ingressos gratuitos, que podem ser adquiridos no local ou pela Sympla, O Que Move Você? aposta em encontros e trocas. Entre os destaques musicais estão Jonathan Ferr, Bossacucanova, Alfredo Del-Penho e Rodrigo Sha. Na programação paralela, a exposição “Sou Down, soul up” chama a atenção ao apresentar o olhar de jovens fotógrafos com síndrome de Down sobre o Rio.
— A ideia é lançar luz sobre o protagonismo da pessoa com deficiência de uma forma alto astral. A gente fala de inclusão a partir da potência dessas pessoas — pontua Caio Leitão, idealizador do evento.
Também se destacam o projeto “Macatchula”, com Luís Carlinhos, que promove shows e oficinas para crianças, e a meditação musical “Sopro da alma”. Outro ponto alto são os debates do painel “Encontros que movem”, que recebe a pesquisadora Tatiana Sampaio, referência no estudo da polilaminina, ao lado do idealizador do festival, Caio Leitão, com mediação da atriz Bel Kutner.
Gigante Leo vai participar do Festival O Que Move Você? na Cidade das Artes
Divulgação
Na parte cênica, duas peças sintetizam a proposta do evento: “Meu amor é cego”, sobre relações afetivas sob a perspectiva de pessoas cegas, e “Meu corpo está aqui”, que traz relatos de artistas com deficiência sobre desejo, autonomia e sexualidade.
Ao longo dos dois dias, haverá muitas atividades simultaneamente, incluindo intervenções circenses, dança em cadeira de rodas e apresentações de DJs. A programação completa está no site da Cidade das Artes.
— É um festival multiplataforma. A gente está entregando para o público algo inédito, criado especialmente para o festival. São artistas com e sem deficiência, de grande talento, reunidos numa curadoria que olha para a diversidade — reforça Leitão.
Cofundador da Embaixadores da Alegria, primeira escola de samba pensada para incluir PcDs, ele explica que o festival nasceu para levar a proposta de acessibilidade cultural para além da Sapucaí. Para isso, ele conta com uma equipe especializada, com experiência, inclusive, nos Jogos Paralímpicos Rio 2016.
Na semana seguinte, a Cidade das Artes mergulha literalmente no escuro com o Festival de Teatro Cego, que ocupa o espaço entre os dias 16 e 19 com uma proposta incomum: retirar a visão de cena para potencializar os outros sentidos do público.
— Os nossos espetáculos não são só para pessoas com deficiência visual. A ideia é que qualquer espectador consiga perceber esse universo. Ele se senta dentro do cenário, mas não sabe onde está. Quando a peça começa, é tocado por outros sentidos —explica o diretor, Paulo Palado.
Parte da equipe do festival Teatro Cego
Divulgação
Criado e desenvolvido por Palado desde 2012, o formato propõe uma inversão da lógica tradicional do teatro. Em vez de o cenário se apresentar aos olhos, ele se constrói na imaginação: vozes, sons, aromas e estímulos táteis surgem de diferentes pontos, criando a sensação de imersão total.
— Não é mais sobre iluminação, figurino ou maquiagem. É sobre como comunicar um personagem sem o visual: pela voz, pelo ritmo da fala, pelos sons do corpo — diz o diretor.
A programação reúne três montagens com trilhas executadas ao vivo. “Acorda, amor!” mistura a obra de Chico Buarque a uma narrativa ambientada na ditadura militar, acompanhando jovens em meio à repressão e a conflitos amorosos. Já “O grande viúvo”, inspirada em Nelson Rodrigues, aposta no humor ácido para contar a história de um homem inconformado com a morte da esposa. E “Clarear” traz um tom mais intimista ao abordar a relação entre uma diarista e sua patroa durante o tratamento de câncer. Os ingressos são gratuitos e devem ser retirados na Sympla.
No palco — ou melhor, na escuridão —, atores com deficiência visual, baixa visão e videntes dividem a cena em condições iguais. Para Palado, essa é uma das potências do projeto:
— No Teatro Cego, a pessoa com deficiência visual assiste à peça nas mesmas condições que a que enxerga. E os atores com deficiência podem interpretar personagens que não são deficientes. O público nem vai saber.
Ao abrir mão da visão, definida pelo diretor como “nosso sentido mais sedutor”, o público é levado a ativar outras formas de percepção.
— Quando você começa a se orientar por outros sentidos, aguça a intuição e passa a perceber o mundo de outra maneira — afirma.
Para garantir a segurança, todas as sessões contam com monitoramento por infravermelho e orientações prévias ao público. Ainda assim, o convite central permanece: mais do que assistir, é preciso experimentar. Como resume o próprio diretor , “no Teatro Cego, você precisa não ver”.
Initial plugin text
