Desconhecido pela maioria dos brasileiros, o Dia Internacional dos Fertilizantes é celebrado hoje. Apesar da pouca atratividade da data, o tema merece atenção por ocupar um lugar cada vez mais importante nas discussões globais sobre agricultura e clima. Essenciais à produção de alimentos, os fertilizantes também contribuem para as emissões de gases de efeito estufa, um desafio que o Brasil precisa enfrentar para cumprir suas metas climáticas e preservar a competitividade de sua agricultura. Os fertilizantes sintéticos fornecem às plantas três macronutrientes essenciais: nitrogênio, fósforo e potássio, conhecidos pela sigla NPK. Eles foram desenvolvidos por químicos europeus no início dos anos 1900, mas seu uso em massa veio pós-Segunda Guerra, quando fábricas de explosivos foram convertidas em fábricas de fertilizantes e o gás natural barato reduziu custos, impulsionando a nova era da Revolução Verde. Esses insumos ajudaram a transformar o Brasil, um país de solos naturalmente pobres em nutrientes, em potência agrícola. Passado meio século, o modelo expõe três problemas. O primeiro é econômico e atinge diretamente a rentabilidade do produtor. O segundo é estratégico, ao colocar em risco a segurança alimentar, energética e a soberania nacional. O terceiro é climático, com efeitos para todos. O denominador comum é a dependência brasileira de fertilizantes importados. Compramos no exterior cerca de 85% do que consumimos. E a oferta mundial é concentrada. China, Índia, Rússia e Estados Unidos estão entre os grandes produtores de nitrogenados; Marrocos reúne cerca de 68% das reservas mundiais de rocha fosfática; e Canadá, Rússia, Belarus e China dominam boa parte da oferta de potássio. Amarrado a um pacote tecnológico baseado no uso intensivo de fertilizantes sintéticos - e também agrotóxicos, sementes modificadas e maquinário pesado-, o agricultor brasileiro fica exposto às oscilações de preços internacionais, às disputas geopolíticas e aos riscos de abastecimento. Essa vulnerabilidade compromete a rentabilidade e a autonomia do país. Lançado em 2022, o Plano Nacional de Fertilizantes estabeleceu metas para ampliar a produção doméstica e reduzir a dependência das importações.Quatro anos depois, o país ainda enfrenta esse desafio. O plano reconhece a importância da inovação e de fontes alternativas de nutrientes, mas a agenda de bioinsumos e de maior eficiência agronômica precisa ocupar um lugar central na estratégia nacional. Afinal, produzir internamente os mesmos insumos não resolve, por si só, os problemas de um modelo que exige quantidades crescentes de fertilizantes para sustentar a produção. O estudo “Brasil como líder mundial em produção de soja: até quando e a que custo?”, do Instituto Escolhas, mostra uma relação de troca cada vez mais desfavorável ao produtor. Em 2013, eram necessárias 11 sacas de soja para pagar as despesas com sementes, agrotóxicos e fertilizantes. Dez anos depois, essa conta havia subido para 23 sacas. E com a guerra no Oriente Médio não para de subir. Pior dos mundos, o gasto crescente não se traduz em ganhos proporcionais de produtividade. Segundo o mesmo estudo, em 1993 cada tonelada de fertilizantes utilizada na produção de soja correspondia a 517 sacas colhidas. Em 2022, a relação havia caído para 333 sacas. O produtor passou a utilizar mais insumos sem obter resultados equivalentes, e expõe as ineficiências do modelo. Parte do problema está debaixo dos nossos pés. Nem todos os nutrientes aplicados são absorvidos pelas plantas. Eles podem ser carregados pela água, perdidos para a atmosfera ou retidos por reações químicas. Nos solos tropicais, o fósforo é um caso emblemático: sua interação com minerais de ferro e alumínio deixa parte do nutriente acumulada no solo, indisponível para as raízes. Há fósforo no solo, mas o agricultor precisa comprar mais. A ciência brasileira desenvolve soluções para recuperar esses nutrientes. O BiomaPhos é o primeiro inoculante biológico desenvolvido pela Embrapa para a solubilização de fósforo no solo. As bactérias Bacillus megaterium cepa BRM 119 e Bacillus subtilis cepa BRM 2084 colonizam as raízes e produzem ácidos orgânicos que destravam o fósforo preso a minerais, transformando-o em uma forma que a planta consegue absorver facilmente. Há caminhos para reduzir a demanda por fertilizantes sintéticos dentro da porteira. Rotação de culturas, diversidade de plantas de cobertura, plantio direto bem manejado, compostagem, integração lavoura-pecuária e bioinsumos, combinados, melhoram a ciclagem de nutrientes e a saúde do solo. Trata-se de substituir a lógica de correção permanente por um manejo que favoreça solos equilibrados, plantas resilientes e maior autonomia do produtor. A soja é o melhor exemplo brasileiro. Graças à fixação biológica de nitrogênio, feita por bactérias associadas às raízes, a cultura praticamente dispensa a aplicação de fertilizantes nitrogenados. Esses microrganismos capturam o nitrogênio da atmosfera e o transformam em formas assimiláveis pelas plantas. É uma tecnologia que reduz custos e evita emissões associadas à fabricação e ao uso de adubos sintéticos. O nitrogênio, aliás, está no centro da questão climática. Sua produção industrial utiliza o processo Haber-Bosch, que combina nitrogênio do ar e hidrogênio sob altas pressões e temperaturas para produzir amônia, matéria-prima da ureia e de outros fertilizantes. Na maior parte dos casos, o hidrogênio vem do gás natural ou do carvão. Em termos práticos, grande parte do fertilizante nitrogenado é combustível fóssil transformado em nutriente. A aposta na chamada ureia verde também desvia o foco do problema. Embora sua produção reduza as emissões associadas ao uso de combustíveis fósseis, a molécula é idêntica à da ureia convencional. Uma vez aplicada ao solo, está sujeita aos mesmos processos biológicos que liberam óxido nitroso (N₂O), um potente gás de efeito estufa. Como as emissões no campo representam cerca de 70% do total associado aos fertilizantes, substituir a ureia convencional pela verde deixa a maior parte do problema climático sem solução. O Brasil deveria concentrar esforços e investimentos em tecnologias para a fixação biológica de nitrogênio, como EUA e China estão fazendo. Sob a perspectiva global, a adoção dos bioinsumos é uma das poucas atividades humanas que colabora com os três objetivos determinados após a Conferência da Terra, realizada pela ONU no Rio de Janeiro em 1992: derrubar emissões de gases de efeito estufa, trazer natureza de volta e recuperar áreas degradadas. O Brasil tem vantagens nessa corrida: instituições científicas de referência, biodiversidade e agricultura tropical em escala. Investir na produção doméstica de fertilizantes continua necessário, mas a soberania agrícola não será conquistada trocando fornecedores estrangeiros por nacionais. Ela depende do desenvolvimento de tecnologias adaptadas aos solos e ao clima do país. A próxima fronteira da competitividade agrícola brasileira está em produzir com menos dependência, mais eficiência e menor impacto climático. * Luis Barbieri é diretor-executivo Instituto Folio e Marcelo Behar é enviado especial da COP30 para Bioeconomia
Fertilizantes: a dependência que ameaça a competitividade da agricultura brasileira
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