Ferrari elétrica troca telas por botões e marca virada de modelagem com assinatura de designer do iPhone; veja vídeo

 

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Após anos associado à estética minimalista da Apple e a projetos voltados para o futuro da tecnologia, Jony Ive reaparece no universo automotivo com uma proposta que vai na direção oposta ao discurso dominante do setor. Em parceria com a Ferrari, o designer britânico ajudou a conceber o interior do primeiro carro totalmente elétrico da marca italiana — um modelo que privilegia controles físicos, materiais nobres e a experiência sensorial de dirigir.

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Mais de seis anos após deixar a Apple, Ive finalmente teve a chance de revelar um automóvel — e ele é praticamente o oposto do que foi concebido na gigante da tecnologia. O veículo, uma Ferrari cocriada pela montadora italiana e pelo estúdio LoveFrom, fundado por Ive, rejeita a visão dominante da indústria de tecnologia, baseada em autonomia e interiores dominados por telas. Em seu lugar, aposta fortemente em botões táteis, controles físicos e na experiência de dirigir, sem abrir mão de elementos que se tornaram marcas registradas do designer, como componentes de alumínio usinado e acabamento em couro.

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A Ferrari realizou, na semana passada, um evento conjunto com a LoveFrom em São Francisco, na Califórnia, para apresentar elementos-chave do interior de seu primeiro carro totalmente elétrico. Anunciado no ano passado como Elettrica, o projeto foi rebatizado de Ferrari Luce — “luz”, em italiano.

“Se a fonte de energia é elétrica, por que isso implicaria que a interface precisa ser digital? Acho essa uma suposição bizarra e preguiçosa”, afirmou Ive. “Acho que, justamente porque a nova fonte de energia oferece um conjunto incrível de oportunidades, estamos perdendo algumas coisas que amamos nos nossos antigos Ferraris”.

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Ele acrescentou que a tecnologia de direção autônoma é “alucinante”, mas que o engajamento com o mundo físico vai “se tornar uma parte maior dos desejos das pessoas”, sobretudo à medida que elas se sentem sobrecarregadas por dispositivos com telas sensíveis ao toque — muitos deles, ironicamente, criados com sua participação na Apple.

Imagem do interior da nova Ferrari Luce

Divulgação: Ferrari

As empresas não divulgaram preço nem data de lançamento, informando que mais detalhes serão anunciados em maio, junto com a apresentação do design exterior. O veículo, esperado para ser um crossover, não será uma edição limitada, mas um modelo regular da linha Ferrari. Ainda assim, exigirá encomenda especial, com prazos de entrega que podem variar de alguns meses a anos.

O interior do Luce traz um volante majoritariamente de alumínio, com um conjunto limitado de controles e borboletas para troca de marchas. O painel de instrumentos — a área que abriga indicadores e mostradores — se move junto com o volante. No console central, há uma tela sensível ao toque do tamanho de um pequeno tablet, bem menor do que as usadas em veículos da Tesla e de outros fabricantes de elétricos. Ao redor dela, ficam botões físicos para funções como ar-condicionado e aquecimento dos bancos, além de um relógio que se transforma em cronógrafo.

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Outros detalhes incluem saídas de ar de alumínio que o usuário gira para abrir e fechar. A tela central conta ainda com uma barra de apoio de alumínio na parte inferior, permitindo que motorista ou passageiro a puxem para mais perto. Ive afirmou que telas grandes nos carros “desconectam as pessoas da experiência de dirigir” e que os touchscreens são difíceis de operar ao volante, tornando-se uma distração que pode contribuir para acidentes. Ainda assim, o sistema é compatível com Apple CarPlay e Android Auto, do Google, e roda uma interface desenhada pela LoveFrom, com tipografia e ícones personalizados.

Segundo Ive, no início da carreira ele se incomodava quando concorrentes copiavam seus projetos, mas hoje espera que outras montadoras adotem a abordagem tátil escolhida pela Ferrari, diante das implicações de segurança. “Acho que a influência do que trabalhamos juntos vai ser muito, muito mais significativa do que este carro”, disse ele, ao comentar a ideia de que um veículo com preço na casa das centenas de milhares de dólares destoaria do hardware de mercado de massa pelo qual ficou conhecido na Apple.

Embora LoveFrom e Ferrari não confirmem se a parceria continuará além do Luce, a tendência é que seja pontual. Em 2025, a startup de dispositivos de inteligência artificial de Ive, a io, foi adquirida pela OpenAI por cerca de US$ 6,5 bilhões, o que passou a demandar quase exclusivamente o tempo do designer e de sua equipe. No ano passado, a Ferrari também anunciou uma redução em seus planos para veículos elétricos, com a meta de eletrificar 20% da linha até 2030, ante os 40% projetados três anos antes.

O carro inclui ainda um seletor de marchas em vidro, feito com materiais da Corning, fornecedora do vidro usado em iPhones e outros produtos da Apple. Os instrumentos do painel combinam telas OLED fornecidas pela Samsung SDI — a mesma tecnologia usada em dispositivos da Apple — com elementos não digitais.

Há também um sistema de chave exclusivo, com tecnologia E Ink, que muda do amarelo para o preto para indicar que a chave foi corretamente inserida no compartimento do console central para dar partida. Ive afirmou que, no conjunto, o carro é composto por cerca de cem “produtos”, todos tratados com o mesmo cuidado de design aplicado a um relógio ou a uma câmera.

Ele acrescentou que, após deixar a Apple, tornou-se mais seletivo em relação às parcerias. Disse que a LoveFrom já foi “convidada a desenhar muitos carros”, mas que sua relação com o presidente da Ferrari, John Elkann, foi decisiva. Ive e o cofundador da LoveFrom, Marc Newson, que já trabalhou com automóveis anteriormente, também participaram do desenho exterior.

Flavio Manzoni, chefe de design da Ferrari, afirmou em entrevista que o acordo foi “honestamente uma grande surpresa”, mas que a equipe se mostrou aberta à ideia porque a nova tecnologia — a propulsão elétrica — exige uma mentalidade de design diferente. “A ideia era transmitir este carro com um visual totalmente inesperado, inspirado na própria tecnologia.”