Ferramentas de pedra descobertas na China revelam tecnologia humana avançada há 146 mil anos em plena Era Glacial
Em meio ao rigor de uma Era Glacial, quando o frio extremo dominava grande parte do planeta, humanos arcaicos já demonstravam uma capacidade técnica muito mais sofisticada do que se imaginava. Um estudo publicado na última quinta-feira (7) no Journal of Human Evolution revelou que ferramentas de pedra encontradas no sítio arqueológico de Lingjing, no centro da China, foram produzidas há cerca de 146 mil anos, 20 mil anos antes do que se estimava até então, alterando o entendimento sobre a evolução tecnológica humana no Leste Asiático.
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A pesquisa foi liderada por Yu-chao Zhao, do Field Museum of Natural History, em Chicago, em parceria com Zhan-yang Li, da Shandong University. O trabalho também reuniu especialistas da University of Michigan, da University of Hawaiʻi at Mānoa e da University of the Witwatersrand. Segundo os autores, a nova datação foi possível graças à análise de cristais de calcita encontrados dentro de um osso fossilizado de um animal ungulado semelhante a um veado. Esses cristais continham traços de urânio, cuja transformação gradual em tório funciona como uma espécie de relógio natural.
O sítio de Lingjing, localizado na cidade de Xuchang, na província de Henan, foi escavado entre 2005 e 2016 e já havia revelado fósseis cranianos e milhares de ferramentas líticas associadas ao chamado Homo juluensis, uma espécie humana arcaica com traços compartilhados com os neandertais europeus. Os crânios encontrados apresentavam capacidade craniana de cerca de 1.800 centímetros cúbicos, o que já indicava um desenvolvimento expressivo. Ainda assim, predominava entre pesquisadores a ideia de que populações humanas do Leste Asiático, entre 300 mil e 120 mil anos atrás, não haviam alcançado avanços tecnológicos comparáveis aos observados na África e na Europa Ocidental.
Segundo Zhao, a nova cronologia muda completamente essa interpretação. “Antes pensávamos que essas ferramentas tinham sido feitas há 126 mil anos, durante um período interglacial quente, mas agora sabemos que algumas foram produzidas há 146 mil anos, durante um período glacial frio e rigoroso”, explicou o pesquisador. O intervalo coloca a ocupação do sítio no estágio MIS 6, considerado o auge do último grande período glacial. Para os cientistas, isso sugere que condições ambientais mais severas podem ter impulsionado respostas tecnológicas mais complexas.
Ao analisar 51 núcleos de pedra em formato de disco com scanners 3D, os pesquisadores identificaram oito estratégias distintas de lascamento centrípeto, técnica em que golpes são direcionados ao centro da rocha a partir de diferentes ângulos. Algumas peças apresentavam uma face destinada ao impacto e outra voltada à produção de lascas afiadas, indicando planejamento prévio e uma compreensão tridimensional do objeto. “Não se tratava de uma produção casual de lascas, mas de uma tecnologia que exigia precisão e profundo conhecimento das propriedades da pedra”, afirmou Zhao.
A comparação com outros 99 sítios paleolíticos chineses mostrou que Lingjing está entre os poucos lugares onde esse tipo de núcleo representa mais de 20% do total de ferramentas encontradas. Agora, a equipe pretende comparar o local com outros sítios contemporâneos, como Xujiayao e Zhoukoudian, para entender se Lingjing foi um centro isolado de inovação ou parte de uma rede cultural mais ampla. A hipótese que começa a ganhar força é que, diante do frio extremo, pensar diferente pode ter sido uma questão de sobrevivência.
