Ferramenta de busca do acervo da Biblioteca Nacional está fora do ar há quase um mês, interrompendo milhares de pesquisas acadêmicas

Ferramenta de busca do acervo da Biblioteca Nacional está fora do ar há quase um mês, interrompendo milhares de pesquisas acadêmicas - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Desde 23 de setembro, a principal ferramenta de busca de jornais e periódicos do país está fora do ar. O impacto é significativo.

Entre janeiro e agosto, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional registrou 62,3 milhões de acessos, uma média de 7,8 milhões por mês, ou 256 mil por dia. A interrupção do serviço pode custar semanas de trabalho a milhares de pesquisadores, que agora enfrentam dificuldades para localizar informações.

Funcionários da instituição ouvidos pelo GLOBO contaram reservadamente que houve um ataque hacker contra a Hemeroteca, o que obrigou a interrupção do serviço. A direção da Fundação Biblioteca Nacional, no entanto, nega questões de segurança e afirma que a paralisação teria sido necessária após uma instabilidade no sistema.

Autoria artificial: Acusações de 'uso indevido de IA' atingem livros badalados e editoras procuram meios de provar 'escrita humana' Escritora chilena: Isabel Allende ganha Prêmio Planeta e faz apelo contra o fascismo

Diretora-executiva da Biblioteca, Suely Dias disse ao GLOBO que não houve perda ou subtração de documentos. Segundo ela, o que tem sido feito é uma “correção das instabilidades”, além de “ajustes relacionados à governança digital”.

A previsão é que o serviço seja restabelecido no início da próxima semana. — Não foi nada excepcional.

É uma prática instituída na política de segurança digital e na política de preservação digital de que a Biblioteca dispõe — diz Suely Dias. — Temos um monitoramento diário.

Quando você percebe qualquer elemento que possa interferir, seja na conexão, seja em algum aspecto do sistema, você para. Isso é corriqueiro.

Independentemente do motivo, a realidade é que o problema tem afetado a rotina de pesquisadores. Professor da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Miguel Conde está escrevendo uma biografia do poeta Ferreira Gullar.

Para reconstruir a trajetória do escritor, recorre diariamente à Hemeroteca Digital. Com a plataforma fora do ar há quase um mês, o andamento do trabalho ficou comprometido.

— Tenho tentado me apoiar em outras fontes para não perder completamente o trabalho — conta Conde. As alternativas, no entanto, não substituem a abrangência da Hemeroteca, que permite localizar nomes, datas e palavras-chave em meio a mais de 8 mil títulos publicados ao longo de dois séculos.

Na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), o professor da Escola de Música Pedro Aragão também depende da Hemeroteca Digital para desenvolver suas pesquisas. Seu projeto atual mapeia músicos e práticas musicais afro-brasileiras e diaspóricas.

— Estamos resgatando a história de músicos negros que foram importantes, mas silenciados ao longo da história — explica. Para Aragão, os jornais são fontes essenciais para recuperar informações biográficas, apresentações, críticas e episódios da vida de artistas.

A pesquisa depende justamente desses fragmentos, muitas vezes dispersos em jornais antigos e difíceis de localizar sem uma ferramenta de busca. Mensagem avisa da indisponibilidade do site da Hemeroteca Digital

Reprodução A paralisação também está afetando seus estudantes.

Entre eles está Luzia Rohr, doutoranda em Música na Unirio, que pesquisa a trajetória de Zaíra de Oliveira, a primeira cantora lírica negra a se apresentar no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, no início do século XX. Bolsista da Capes, Luzia precisa conciliar a pesquisa com os prazos acadêmicos.

Enquanto a plataforma não volta, tem recorrido aos arquivos que conseguiu baixar anteriormente. A estratégia, porém, não resolve todas as lacunas.

Ainda há documentos a localizar e consultar para completar o trabalho no tempo previsto. Para Daniel Fernandes, doutorando em Música pela Unirio, a queda do sistema também afeta seu calendário acadêmico.

— Provavelmente vou ter que adiar a data da qualificação — lamenta. Na tentativa de contornar o problema, ele recorreu ao acervo digital da Biblioteca Nacional.

A alternativa, porém, não oferece os mesmos recursos de pesquisa da Hemeroteca. No acervo digital, o mecanismo de busca é mais limitado e não permite pesquisar com a mesma facilidade o conteúdo das publicações.

— Pesquisar pelo acervo digital me lembrou de quando tínhamos que procurar página por página nos jornais físicos e em microfilmes. É a mesma lógica — compara.

O episódio evidencia que manter os documentos digitalizados não é suficiente quando a ferramenta que permite localizá-los deixa de funcionar. Para quem pesquisa o passado, cada dia sem a ferramenta representa mais do que um problema técnico: significa horas adicionais de trabalho, descobertas adiadas e, em alguns casos, o risco de comprometer prazos acadêmicos.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
Acessar no site oficial
Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X
Curadoria e Apuração Editorial QTU Conteúdo jornalístico publicado em conformidade com os nossos Princípios Editoriais e política de transparência.
Conhecer a Redação →