Ferramenta amplia o cerco e rastreia a trilha do dinheiro - QTU Questões do Universo

Ferramenta amplia o cerco e rastreia a trilha do dinheiro

Fonte: Bandeira da fonte

Viviane Fernandes, do Idec: rastreabilidade do dinheiro é um avanço, mas o desafio central continua sendo evitar a abertura de contas laranjas pelas quadrilhas
Divulgação
Em agosto, correu na internet a história de um homem que quase caiu num golpe ao tentar comprar “minidinossauros” anunciados por um estelionatário em Vespasiano, na região metropolitana de Belo Horizonte.
No vídeo, os falsos répteis, criados por inteligência artificial, eram oferecidos por R$ 500.
Por muito menos, milhões de brasileiros transferem dinheiro para desconhecidos e só depois descobrem que foram lesados.
Mensagens de falsos parentes, amigos ou prestadores de serviço estão entre os golpes mais conhecidos.
A vítima faz o Pix e, quando percebe o engano, o dinheiro já começou a percorrer outras contas.
Para conter fraudes turbinadas pela velocidade das transferências, o Banco Central adotou, em 2021, um ano depois do lançamento do Pix, o Mecanismo Especial de Devolução (MED).
O instrumento permitiu padronizar o bloqueio e a tentativa de devolução de valores em casos de fraude, mas seguia o dinheiro apenas até a primeira conta de destino.
Neste ano, o BC foi além, com o MED 2.0.
O novo instrumento consegue rastrear transferências posteriores, identificar diferentes contas por onde os recursos passaram e acionar as instituições responsáveis para tentar bloquear o saldo encontrado.
O rastreamento é feito pelo Diretório de Identificadores de Contas Transacionais (DICT), administrado pelo BC.
A partir do Pix contestado, o sistema mapeia o caminho percorrido pelos recursos e seleciona as contas com maior probabilidade de terem participado do escoamento do dinheiro.
As instituições são notificadas, bloqueiam o saldo disponível e analisam as operações.
Entre janeiro e novembro de 2025, cerca de R$ 7,2 bilhões em transferências via Pix foram contestados pelo mecanismo.
Desse valor, R$ 654 milhões foram devolvidos, pouco mais de 9%, segundo o BC.
Quando a contestação é registrada, porém, o dinheiro muitas vezes já passou por outras contas, o que torna o rastreamento da cadeia de transferências parte central da investigação.
“A tarefa não é só identificar a primeira conta destinatária, mas também compreender o que está por trás da operação”, diz o delegado Paulo Eduardo Pereira, chefe da Divisão de Crimes Cibernéticos (DCCIBER) da Polícia Civil de São Paulo.
Segundo ele, a investigação precisa reconstruir por onde os recursos passaram e identificar “quem recebeu o dinheiro, quem fez a intermediação, quem coordenou e quem se beneficiou”.
Abertura de contas laranja pode indicar que houve falha na verificação da identidade”
A dificuldade em seguir a trilha do dinheiro se dá porque, em questão de segundos, os golpistas são capazes de pulverizar quantias em dezenas de contas e depois seguir para outros caminhos, como casas de câmbio ou criptoativos.
“O tempo é o grande determinante de quanto você vai conseguir recuperar”, diz Eduardo Magalhães, sócio-diretor de disputes & investigations da A&M.
Segundo ele, três dias seriam suficientes para que as chances de reaver o dinheiro se tornem praticamente nulas.
“Não adianta nem correr atrás, esse dinheiro é desviado para outro lugar e você não consegue chegar.”
O MED 2.0 amplia ainda o cerco às contas laranjas.
Uma suspeita confirmada pode gerar marcação de fraude no DICT, compartilhada entre os participantes do Pix e usada na análise de novas operações.
O novo mecanismo permite seguir a conta usada para repassar o dinheiro, mas não resolve como ela foi aberta ou permaneceu ativa.
“As instituições financeiras precisam manter mecanismos de segurança em todos os processos, desde a identificação dos novos clientes até a detecção de movimentações suspeitas.
A abertura de contas laranja pode indicar que houve falha na verificação da identidade de quem abriu a conta ou na verificação no perfil do cliente, em movimentações atípicas”, afirma Viviane Fernandes, pesquisadora de infraestruturas públicas digitais do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).
Para Fernandes, o avanço na rastreabilidade não elimina uma questão anterior ao golpe: como contas usadas para receber e pulverizar dinheiro conseguem entrar e permanecer no sistema financeiro.
O MED 2.0 eleva a capacidade de seguir os recursos depois da fraude, mas o desafio continua sendo impedir que essas contas sejam usadas pelas quadrilhas.