Fernando Seabra, do Coritiba, divide angustias da profissão de treinador e diz: 'Até esse ano, nunca pude falar 'não', sempre tive que pegar'

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Mais do que técnico do Coritiba, que hoje visita o Vasco — clube para o qual quase se transferiu em julho — Fernando Seabra é um disruptivo por natureza. Acadêmico, o treinador de 49 anos chegou à Série A através de estudos na USP, que começaram nas Ciências Sociais e terminaram no esporte. Do início, como apaixonado por futsal, até a passagem como técnico universitário, das categorias de base e profissional, carrega os amigos que construiu e a paixão pelas mais variadas expressões culturais que o acalantam e refugiam nos momentos difíceis. O pilar, porém, é familiar: as duas filhas e a esposa, com quem é casado desde os 19 anos. Foi sobre tudo isso que ele falou em uma hora de entrevista ao GLOBO. Por que a negociação com o Vasco não deu certo? Eu já fiz um pronunciamento sobre essa questão, esclarecendo tudo e dizendo que era um assunto superado, que não responderia mais pergunta nesse sentido. A única coisa que vou falar é que, do ponto de vista pessoal, foi muito desafiador. É uma situação muito difícil e delicada passar por isso. O nível de estresse, de desgaste, de angústia que gerou foi bastante alto. E ainda bem que a gente conseguiu passar por isso e se fortalecer. Leia também: Novo investidor da SAF, Gabriel de Alba quer colocar Cirque du Soleil na Botafogo Samba Clube Libertadores: 'Puxadinho' pode fazer Estudiantes ter que buscar outro estádio para semifinal contra o Flamengo; entenda impasse Considera o trabalho no Coritiba o mais completo? Acho que, em alguns aspectos, sim. Todos os trabalhos que fiz têm minha cara, só que minha cara interagindo com as pessoas e com o clube que eu estou. Então, vão sempre ser uma mistura. Existe também a necessidade de um pragmatismo. Você tem que buscar ver as virtudes, as características do grupo, da competição, do clube em que está, e, a partir daí, as soluções vão emergir. Quando você vai interagindo com a realidade, vai modelando. Você não chega com um molde pronto. Vai pondo a mão na massa. Como é o seu dia a dia? O futebol exige muita dedicação. Te entrega muita coisa, mas também te tira na mesma proporção, porque eu vivo sozinho, a minha família fica em São Paulo. É um desafio conseguir ter qualidade de vida diante do que é a vida no futebol, que, na verdade, é dedicação, trabalho e solidão. Meu grande objetivo é conseguir conciliar tudo, para poder viver bem com a minha família, trabalhar e me sentir bem. É uma coisa que ainda não consegui. Se, de alguma forma, conseguir fazer isso, acho que as coisas farão mais sentido para mim. E profissionalmente? Me sinto realizado. Como vim do meio acadêmico, sem capital pessoal oriundo do futebol, fico sempre no fio da navalha das decisões profissionais. É muito difícil ter isonomia para competir, então acho muito difícil uma pessoa com a trajetória que tenho chegar numa Série A e poder frequentá-la por muito tempo, como tenho feito. Esse é meu terceiro ano. Desde 2024, quando iniciei no Cruzeiro, só Rogério Ceni e Abel Ferreira têm mais jogos que eu. A independência financeira permite falar “não”? Eu, até esse ano, nunca pude falar “não”. Sempre tive que pegar. Isso torna a sua chance de sucesso menor. E, à medida que o tempo vai passando, vou começando a conseguir ter um pouco de oxigênio nesse sentido.

Hoje você já tem essa independência financeira? Ainda não, mas já melhorou muito. Comecei a dar treino em 1999, para time universitário enquanto estudava. Até 2023, tudo o que eu recebia era para ajudar as contas de casa e, na verdade, se eu não tivesse estrutura familiar, não tinha conseguido seguir na profissão. A primeira vez que tive salário que me permitisse sobrar alguma coisa foi em 2024, quando voltei para o Bragantino B. Faz dois anos e meio que estou começando a conseguir pôr dinheiro em casa e guardar. O fato da minha mulher ser funcionária pública e ter uma previsibilidade, ter uma carreira na Defensoria Pública Federal, ajuda a dar esse equilíbrio. Sempre ajudou a dar essa sustentação. Além disso, tem o trabalho não-pago feminino… Por que o Fernando Seabra está e pode trabalhar? Porque tem uma guerreira lá que se desdobra por dois. Existe um machismo estrutural na sociedade, e no futebol ele é pressuposto para muita coisa. As mulheres sustentam essa carreira maluca e essa vida louca dos homens que trabalham no futebol. Como você vê o momento do futebol atual? Vivemos um fenômeno interessante hoje que são os influencers e youtubers. São pessoas que capitalizam pelo engajamento. E o ódio, a raiva e o rancor geram mais engajamento espontâneo e imediato do que qualquer outra coisa. Quando a torcida está desesperada, em pânico, eles capturam esse discurso da torcida e usam para te pressionar com perguntas. E aí eles se transformam em ídolos da torcida. O futebol, quando era futebol, ídolo era um jogador. Não era nem treinador que era ídolo. Só que isso aí retroalimenta um sistema de polarização, ódio e intolerância. Então, acho que a gente está vivendo isso no futebol de uma forma muito marcante. É muito empobrecedor, mas acho que as pessoas que trabalham no futebol têm se preparado para conseguir se blindar disso, porque, se não, se deixar isso entrar na cabeça, realmente faz mal. É mais um desafio. Como é o exercício feito para superar esse desafio? Não é porque você é desrespeitado, xingado ou ofendido que você vai deixar de amar o que você faz, que dá sentido para sua vida e que você se preparou. O que você tem que ir desenvolvendo é a capacidade de aprender a lidar com isso. E, quando tem esse tipo de oportunidade, como eu tenho agora, tentar levantar esse tipo de questão, até para gerar um pouco mais de consciência. Então, assim, retomando, faz parte também de quem eu sou buscar ter esse tipo de reflexão e de consciência crítica. Eu acho que eu vivo muito mais alienado e com muito menos ferramentas do que eu já tive para pensar o mundo, para pensar a sociedade, até para pensar o próprio futebol, porque, uma vez que você vira técnico e o futebol é 24 horas por sete (dias na semana), você acaba não tendo energia, disposição e capacidade mesmo de ter uma reflexão mais profunda quando você tem que buscar os três pontos. E mesmo assim, nada te garante os três pontos. E as pessoas muitas vezes criticam as equipes e os treinadores como se elas tivessem ido num show que elas pagaram o ingresso. Só que no show você ensaia, então tem que dar tudo certo. E, mesmo assim, muitas vezes não acontece. Agora, o futebol, o jogo esportivo coletivo, tem uma relação de oposição e tem um adversário que vai tentar sabotar, de forma legítima, tudo aquilo que você planejou. Então, a gente planeja, projeta, sempre com a ideia de conseguir construir o desempenho e o resultado. Só que o adversário faz a mesma coisa. Isso daí está na lógica intrínseca do jogo. E muitas vezes você não vai conseguir. E isso é a natureza do jogo. Então, essa frustração exacerbada que acontece também está nesse pacote todo de uma sociedade mais intolerante. O que te dá prazer e te preenche fora do futebol? Gosto de blues, vou a shows... Não toco num nível profissional, mas me viro. Sou amador. E isso é muito importante porque é um momento em que eu consigo esvaziar a mente. Ouvir música e tocar me ajuda a estar com a cabeça mais descansada para o trabalho. Como vivo sozinho, se não tiver nada para fazer, se não me comprometer com algum tipo de ação, não vou conseguir desligar do treino, do jogo, do time, das coisas que têm que ser feitas. É uma questão de qualidade de vida e de trabalho também. Que tipo de show que você costuma ir? Gosto de ir em show de blues, então quando o B.B. King ia, podia ser espaço público, podia ser fechado, eu sempre buscava ir. Eu tive aula com o Marcos Otaviano, que é um guitarrista de blues que abriu muitos shows dos guitarristas de blues no Brasil. Então, via ele tocar com a banda dele, que era o Blue Jeans, aí agora ele tem um trio. E ia no show do Buddy Guy, show do Eric Clapton, enfim, esse pessoal mais do blues e blues rock. Eu curto bastante. Tem alguma forma de levar essas vivências artísticas para as suas equipes? Não me preocupo em levar esse tipo de coisa de uma forma sistematizada. Acho que faz parte de quem eu sou. Tem até um livro bacana do David Epstein, “Por que os generalistas vencem em um mundo de especialistas”, que ele comenta que as pessoas que tiveram experiências longevas e profundas em diferentes campos conseguem pensar fora da caixa para resolver o problema de uma área, porque elas têm muitas outras ferramentas. Então, elas criam importantes soluções porque conseguem pensar através de outros conceitos e outras experiências. Muitas vezes, conseguem criar paralelismos ou analogias para resolver problemas que pessoas restritas só ao conhecimento físico e teórico daquela mesma área têm dificuldade de sair da caixa. Então, talvez isso esteja presente de algum modo na minha forma de abordar o futebol. Como vê o Brasil na formação e desenvolvimento de atletas? Não dá para pensar quais são os problemas do futebol brasileiro sem pensar qual é a inserção produtiva do Brasil nessa indústria. O Brasil é produtor de mão de obra e exportador. Qualquer pessoa que sai muito cedo de casa, não sai porque realmente está preparado, mas sim porque tem alguns traços que apontam para uma projeção de valor futuro. Ou seja, uma especulação financeira em cima de gente. Qualquer pessoa que sair muito jovem, sem estar preparada, vai ter dificuldade de atingir tudo o que pode atingir. Existe o princípio de que é o ir para fora e ser treinado fora que faz ficar bom. Acho que não. A gente perde muito talento por causa disso também. O Brasil sempre formou muito talento, mas perdeu muito, porque a base sempre foi muito larga e o país podia se dar ao luxo. Na Dinamarca, por exemplo, tem 11 talentos identificados entre 8 e 12 anos, e esses caras têm que chegar na seleção. Não pode ter erro no processo. A questão geral é que o processo dos outros melhorou, e nós não fortalecemos o mercado interno. É necessário um projeto nacional para desenvolver a modalidade e preparar os caminhos do talento para que o futebol brasileiro cresça. Qual é a sua expectativa para a Copa do Mundo Feminina? Estou por fora da atualidade do nível técnico e tático do futebol feminino, mas, na minha visão, é fundamental o desenvolvimento da modalidade e que as pessoas que têm o sonho, o interesse e a competência para construir uma carreira tenham acesso para poder se realizar pessoal e profissionalmente trabalhando nessa área. No médio e longo prazo, tenho certeza que vai ter uma aproximação maior do que é o futebol feminino em relação ao masculino. E, quanto mais estruturado o futebol feminino estiver, e quanto mais for um entretenimento viável e que as pessoas possam ter interesse de acompanhar e consumir, melhor vai ser o futebol masculino. Não tenho dúvidas. Até porque essa exploração exacerbada de se jogar a cada três, quatro dias durante o ano inteiro... O futebol feminino pode ser uma saída para isso. Porque aquelas marcas vão estar lá para atender aqueles mesmos públicos. A partir daí, pode ser possível também racionalizar um calendário de futebol masculino que faça mais sentido. Sabe por que o futebol brasileiro não melhora? Porque existe uma exploração comercial desenfreada que nunca dialoga com a esfera técnica.

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