Fernanda Montenegro relembra o marido ao rever peça que estrelou nos anos 1960: 'História imensa'
Fernanda Montenegro voltou no tempo ao assistir o espetáculo "O beijo no asfalto", em cartaz no Teatro Gláucio Gill, em Copacabana, no Rio.
A atriz, de 96, estrelou a produção na década de 1960 e na época foi dirigida pelo marido, Fernando Torres, que morreu em setembro de 2008.
Com o fim do espetáculo, a artista dividiu algumas palavras com o elenco.
"Eu estou revendo esse espetáculo maravilhoso.
Não estou fazendo isso por simpatia.
É realidade.
Um elenco imenso, atores maravilhosos com quem já trabalhei...
Essa peça tem uma história imensa atrás dela.
Porque tudo estava vivo na época.
O jornal, os repórteres, o autor.
É a sobrevivência de uma produção", disse Fernanda, que foi aplaudida.
Fernanda Montenegro e Osvaldo Loureiro na montagem de "O beijo no asfalto" em 1961
Arquivo O Globo
Veja fotos do sítio de Fernanda Torres e Fernanda Montenegro
Na década de 1960, foi preciso muitas negociações para o espetáculo de Nelson Rodrigues ser liberado pela ditadura.
Na fala breve de Fernanda Montenegro na última sexta-feira, dia 24, deu para relembrar um pouco da luta do marido para insistir na peça.
"Fernando disse: 'eu não vou parar a peça'.
Ele era o produtor e diretor.
'Vamos continuar, aconteça o que acontecer'.
E a peça está a´", continuou ela, contendo a emoção.
'O beijo no asfalto', no Teatro Gláucio Gill
Edson Celulari e Eduardo Sterblitch em cena de 'O beijo no asfalto', em cartaz no Teatro Gláucio Gil
Guito Moreto/Agência O Globo
A adaptação atualmente em cartaz é estrelada por Eduardo Sterblitch, Edson Celulari, Luísa Arraes e grande elenco.
O texto de Nelson Rodrigues foca em Arandir, que tem a vida destruída após atender ao pedido de um desconhecido atropelado, à beira da morte: um beijo na boca.
Na trama, o repórter sensacionalista Amado Ribeiro (André Mattos), que vê o beijo, transforma o ato de compaixão em narrativa de difamação.
Com ajuda do delegado Cunha (Ernani Moraes), a imprensa acusa Arandir de ser amante do morto e até de ter provocado o acidente.
Assim, ele, sua esposa, Selminha, (Luísa Arraes) e sua cunhada, Dália (Nina Tomsic), sofrem com o preconceito e a perseguição da sociedade.
Cada vez mais isolado, Arandir ainda precisa lidar com o sogro, Aprígio (Edson Celulari), que sempre o reprovou e fica ainda mais duro após o caso.
Casada com o protagonista há cerca de um ano, Selminha começa a peça como uma das principais defensoras do marido.
“Confio mais em Arandir do que em mim mesma”, repete.
Dália, sua irmã, também acredita na versão do cunhado.
Com o tempo, porém, a pressão dos boatos desestabiliza até as relações mais sólidas do personagem, que passa até a duvidar de si mesmo.
