Fernanda Lima abre o jogo sobre os gêmeos João e Francisco: 'Já dei camisinha para eles, falo de sexualidade’
Fernanda Lima, de 48 anos, sabe que os filhos são criados para o mundo. Ao mesmo tempo, a mãe dos gêmeos João e Francisco, de 18, e da caçula, Maria Manoela, acredita que a maternidade é uma jornada sem fim. “Trabalhosa e muito prazerosa. É realmente uma aventura, porque a gente não sabe como termina essa história”, analisa. “Estou me realizando como mãe, principalmente agora que consigo ter mais autonomia: minha filha mais nova está com 6 anos e vejo os meninos florescerem. Tem sido emocionante.” Ela, que aos 18 já queria estar longe dos pais, solta no mundo, observa orgulhosa a evolução dos meninos: “Eu os vejo mais apegados à casa. A gente sente que o nosso encontro, a nossa conexão e a nossa vivência do dia a dia estão longe de acabar.”
As mudanças na família se refletem no trabalho. Se, no começo da carreira, Fernanda se aventurava solo no “Mochilão MTV” ou falava de relacionamentos no “Amor & sexo”, na Globo, agora ela mostra viagens em família (com o marido Rodrigo Hilbert e os filhos, na série “Casa Casulo”, no Prime Video), discute de adolescência a menopausa nos podcasts “Zen Vergonha” e “TeraPira” e lê autoras brasileiras em seu clube do livro. “Continuo falando sobre as mesmas pautas, só que com outras camadas”, diz. E tem um novo público em mente: os filhos. “Muito do que faço hoje, produzo como materiais importantes para eles ouvirem. Nem sempre escutam, mas acho que um dia vão usar esse recurso.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Em casa, fala de tudo, “sem muito drama”. Seja sobre entrar na menopausa (“No momento em que expliquei para eles o que era — que eu também não sabia e tive que aprender — houve uma supercompreensão)”, seja sobre sexo (“Os meninos sabem a mãe que têm. Eu sou a sincerona. Então, não deixo de falar sobre nada que possa ser delicado ou constrangedor, acho melhor acolher e conversar”). “Já dei camisinhas para eles, falo muito sobre sexualidade, sobre serem livres, sobre não se sentirem obrigados a provar masculinidade, sobre saberem descobrir os desejos e os prazeres deles e das pessoas com quem estiverem”, diz Fernanda.
Outro tema: misoginia. “Estou tranquila em relação aos meninos”, afirma. “Não é algo que se ensine em teoria, mas na prática. Porque não adianta eu ser feminista, ficar falando que é assim ou assado, e chegar em casa e obedecer a ordens ou me submeter a autoritarismos.” Existe, é claro, o mundo fora de casa. “Nos ambientes que os meninos frequentam, escutam coisas das quais discordam profundamente. Eles ainda têm dificuldade em se colocar, e isso é uma coisa que a gente está trabalhando.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Fernanda se autodeclara “superprotetora”. Prefere preservar a imagem da caçula em aparições públicas, como este ensaio — embora, às vezes, abra exceções, e sinta uma vontade de Maria em participar dessa parte da vida familiar. Também ficou apreensiva quando viu o interesse dos gêmeos por seguir o caminho dos pais na moda. “Eu e o Rodrigo ficamos preocupados, porque na nossa época era diferente: os modelos ficavam mais largados, abandonados, à deriva. Tinham muitas pegadinhas, situações perigosas”, diz, com a bagagem de quem começou a carreira aos 14. “Mas a gente foi observando que a moda se profissionalizou.”
Ainda vê perigos em sair pelo mundo, mas ficar também pode ser arriscado. “Tem o fato de serem nepobabies. Aonde chegam, aqui no Brasil, são nossos filhos. Isso me faz estimulá-los a sair do país”, diz. “Eu e o Rodrigo já fizemos tudo que podíamos, agora vão ter que fazer as próprias escolhas. Mas sei que são escolhas baseadas na educação que a gente deu.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
A apresentadora confia na criação que proporcionou aos filhos, mas continua atenta e aconselhando, inclusive na vida profissional: “O que falo sempre é: chegou no trabalho, a camareira, a faxineira e a moça do café têm o mesmo valor que o diretor de arte ou o fotógrafo. Então, cumprimentem, deem beijo, porque é assim que a gente é, assim que o brasileiro é. Peçam desculpa, agradeçam. E, sentiram que tem alguma coisa parecida com abuso, assédio, aproveitamento da situação, caiam fora. Me liguem, liguem para a agência”.
No início do ano, Fernanda passou uma temporada com os filhos em Milão na condição de “mãe invisível”, só observando enquanto os gêmeos se viravam com transporte público e outras atividades do dia a dia, como lavar roupa, faxinar a casa e cozinhar, em um treino para uma possível carreira fora. “Coisas básicas, que eles deveriam saber fazer, mas que, por causa dos privilégios que têm no Brasil, não fazem”, postou num reels no Instagram. Nos comentários, Rodrigo escreveu: “Amores, manda a mãe invisível para casa que queremos ela aqui também!”.
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Fernanda valoriza o tempo em família — e sabe que essa presença é um privilégio. Está em um ponto da vida em que pode escolher se dedicar mais à maternidade. “Meu programa favorito é estar com eles na quadra do sítio, jogando vôlei, com a Maria brincando na areia, correndo em volta. Isso me faz muito feliz.”
Parte dessa felicidade aparece em seus posts. “Sou espontânea nas minhas redes. Não fico muito planejando, calculando. Às vezes quero mostrar alguma coisa e mostro do jeito que é.” Mas sabe que apresenta um recorte: “Dificilmente você vai estar num momento ruim e ligar uma câmera. Todo mundo vende uma coisa meio idealizada. Então eu não acredito nem na minha história”.
Questionada sobre o legado que quer deixar para os filhos, Fernanda primeiro diz que é ter sido útil não só para eles, mas levando comunicação para pessoas que estavam pouco esclarecidas sobre assuntos importantes. Depois, manda uma mensagem para a reportagem, pedindo para complementar: “Eu queria deixar registrado para os meus filhos que cavei as minhas oportunidades de vida e profissionais com muita ética, respeito e verdade. E isso fez com que eu pudesse ter as minhas escolhas e me tornar uma mulher livre, autônoma e absolutamente realizada e feliz”. A seguir, outros recados de Fernanda.
Adolescência
“Converse com seus filhos sem moralizar tudo o que te falam, porque isso cria uma barreira. Acho legal buscar o que seu filho gostaria de saber sobre você, sobre a sua vida ou sobre sexualidade em geral — sempre dou exemplos da minha vida e o Rodrigo dá exemplos da vida dele. E colocar o adolescente num lugar em que ele não se sinta encurralado, ameaçado, tendo que provar que sabe. A gente está sempre falando sobre as nomenclaturas que eles ouvem por aí: misoginia, machismo, feminismo. Falam: “Mãe, às vezes eu fico confuso, porque é tanta coisa”. Eu digo: ‘Também fico confusa e estou aprendendo’. Às vezes, perguntam: ‘Você acha tal coisa normal?’. E eu falo: ‘Filho, para mim também é novo. O mundo vai se renovando. Mas não importa se eu acho normal ou não. A única coisa que precisamos é respeitar’.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Pai modelo
“Não acho que eles sintam cobrança, e sim um alívio de saber que têm um pai e uma mãe muito cabeça fresca, que olham para frente, mas que, ao mesmo tempo, respeitam o passado. Nós estamos sempre nos colocando numa certa vulnerabilidade, para eles entenderem que ninguém é super-herói aqui.”
Assédio
“Tinha muito assédio na moda. Não que hoje não tenha, mas antes era muito mais comum. E não só assédio físico e sexual, assédio moral mesmo. Um fotógrafo podia te humilhar no meio de um estúdio, na frente de todo mundo, e você ia chorar no banheiro. E tinha setores de prostituição dentro de agência. Nunca vi nada especificamente, mas a gente sabia que, depois do horário comercial, tinha bagunça. E muitas meninas e meninos vinham de uma pobreza absurda, sem dinheiro para fazer um lanche, e se deixavam levar.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Casamento longevo
“O relacionamento vai mudando, porque você vai se desapaixonando e se reapaixonando por uma pessoa que muda a cada dia. Poder amadurecer com alguém, passar por essas transformações e continuar se admirando é uma façanha hoje em dia, em que as ofertas estão na tela. Para mim e para o Rodrigo têm sido muito legal, porque amadurecemos juntos e continuamos com os mesmos ideais. Queremos estar e continuar juntos, temos sonhos. O ritmo não é mais o mesmo de juventude, mas a gente ainda está muito intenso, muito inteiro na relação.”
Ensaio Fernanda Lima para Revista Ela
Paulo Vainer
Menopausa
“Essa passagem é brusca e aterrorizante. Mas a gente dá conta se for atenta e dividir isso com outras mulheres. Fazer com que esse tema não seja mais um tabu alivia até os sintomas, porque você tira o peso. Falo sobre isso praticamente todos os dias. Já avisei pelo menos a umas 20 : ‘Olha, você está na perimenopausa’. É bonito poder falar para uma pessoa que o que está acontecendo é normal, que ela não está em depressão ou que não precisa se separar do marido porque aquilo não é falta de amor, mas é um momento da vida em que vai ter que olhar para ela, fazer os exames, talvez reposição, se aquietar um pouco mais e se perdoar.”
