Fenômenos no Oceano Atlântico favorecem forte período de chuvas em Belém, diz Inmet

 

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O excesso de chuvas em Belém nos últimos dias é resultado do aquecimento do Oceano Atlântico e da atuação da Zona de Convergência Intertropical, que têm reforçado a formação de nuvens na região. Segundo o meteorologista José Raimundo Abreu, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o volume já ultrapassa 30% da média de maio e deve continuar elevado até pelo menos o dia 20, antes de começar a diminuir.


O especialista lembra que a previsão feita ainda no início do ano já indicava chuvas frequentes do inverno amazônico até maio, junho e, possivelmente, o início de julho. Esse fenômeno, segundo José Raimundo, já está se confirmando. O especialista explica que as precipitações foram muito intensas nos últimos meses.


Março registrou cerca de 25% acima da média histórica. Já abril superou a média em mais de 30%. Em maio, cuja média é de 323 mm, já se aproxima dos 400 mm, também ultrapassando 30% do esperado, segundo José Raimundo. Abreu acrescenta que, somente nos primeiros doze dias de maio, o volume acumulado já é considerado muito elevado.


Ele reforça que Belém tradicionalmente se destaca como a capital brasileira com maior índice de chuvas no ano - e segue desta forma. “Somente a chuva da noite do dia 12 para 13 de maio acumulou cerca de 68 milímetros na estação do Inmet, na área do Castanheira, onde fica a estação automática. Já a estação no bairro de Nazaré registrou cerca de 70 mm, enquanto no bairro da Pedreira, no Sacramenta, choveu entre 60 e 80 mm nessa noite”, pontua o meteorologista.


“Somado a isso, como ontem [terça-feira] já estava em 325 mm e depois chegou a 365 mm, agora já estamos com 390 mm, possivelmente alcançando 400 mm ainda hoje. Ou seja, praticamente 25% acima da média histórica de 30 anos para o mês de maio na Região Metropolitana de Belém”, completa.


Céu encoberto nesta terça


Belém amanheceu sob chuva e céu encoberto na quarta-feira (13), após horas seguidas de precipitação que atingiram a capital paraense e Região Metropolitana desde a noite de terça-feira (12). A chuva começou por volta das 19h, perdeu força em alguns momentos da noite, mas voltou de maneira intensa por volta das 22h, permanecendo durante toda a madrugada.


Nas primeiras horas da manhã desta quarta-feira, por volta das 6h, a precipitação diminuiu e passou a ocorrer de forma mais fraca e isolada em diferentes pontos da cidade. Nas redes sociais, moradores comentaram sobre o clima mais frio e atípico para os padrões da capital paraense.


Durante o período de maior intensidade da chuva, ainda na noite de terça-feira, os moradores também relataram que aguardavam o envio do alerta preventivo da Defesa Civil para risco de temporal, mas a notificação não chegou a ser emitida.


Segundo previsão da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) para esta quinta-feira (14), na Região Metropolitana de Belém, a manhã deve ter céu com muitas nuvens predominantemente nublado, com ocorrência de chuvas. À tarde e à noite, o céu fica predominantemente nublado a encoberto, com chuvas e trovoadas, especialmente durante a tarde e o início da noite.


Há alta probabilidade de que as precipitações se estendam pela madrugada, em forma de chuva fraca. Em Belém, as temperaturas devem variar entre 23°C e 30°C, com umidade relativa do ar entre 75% e 100%. Os ventos serão fracos a moderados, predominando de Norte/Nordeste. A estimativa de acumulado diário de chuva varia entre 30 e 60 milímetros.


Crise climática


Embora as chuvas devam se estender possivelmente até o início de julho, isso não significa, na avaliação de José Raimundo, que Belém esteja vivendo uma crise climática. Ele observa que a variabilidade das chuvas observada na região está diretamente relacionada a fenômenos meteorológicos influenciados pelas condições dos oceanos.


“Eu não chamaria de crise climática o que estamos vivenciando, porque essa variabilidade das chuvas acontece diretamente relacionada aos fenômenos meteorológicos que ocorrem em consequência do que se passa nos oceanos. Por exemplo, se o El Niño tivesse se consolidado, algo que, na minha opinião e análise, deve ocorrer a partir do mês de setembro, teríamos um período mais seco entre setembro e dezembro”, explica Abreu.


Tendência de diminuição


O meteorologista relata que o volume de chuvas observado atualmente deve começar a diminuir apenas após a primeira quinzena do mês. Ele frisa que, até o dia 15 de maio, ainda há previsão de precipitações intensas, embora possa ocorrer uma breve melhoria antes disso. Segundo ele, a redução mais consistente deve ocorrer depois do dia 20, quando o ritmo das chuvas tende a enfraquecer.


Na análise do especialista, o que ocorre atualmente, do ponto de vista da previsão do tempo, é que o Oceano Pacífico está em condição neutra na área de formação dos fenômenos El Niño e La Niña. Com o Pacífico neutro, as temperaturas do Atlântico passaram a ter maior influência, especialmente no Atlântico Norte.


Ele detalha que, no início do ano, as águas do Atlântico Norte estavam mais quentes, o que atrasou o início das chuvas. Quando essa região fica mais aquecida, ela “ancora” a Zona de Convergência Intertropical, fazendo com que a faixa de nuvens permaneça mais ao norte, como ocorreu entre janeiro e fevereiro.


De acordo com o meteorologista, esse comportamento anormal das temperaturas no Atlântico foi o principal fator responsável pelo aumento e pela intensificação do período chuvoso na região. “Esfriou na costa dos Estados Unidos, e a circulação da atmosfera traz os restos das frentes frias de lá, que seguem pelo Oceano Atlântico e chegam até a costa do continente africano, ali perto do Golfo da Guiné. Dali, esse sistema retorna em forma de ondas pelo Atlântico e intensifica as chuvas aqui na região litorânea”, observa.


“Por isso está chovendo muito não só na capital Belém, mas também nas regiões de Salinas, Marudá, Curuçá, no norte do Marajó, no estado do Amapá e no leste do Pará, assim como ao longo do litoral atlântico desde São Luís até o Ceará. Essa configuração favorece, todos os dias, a formação de uma linha de nuvens, porque intensificou a umidade e a convergência de umidade. E, quando essa convergência aumenta, as brisas se aceleram com o vento”, reforça Abreu.


Período de transição


O meteorologista lembra que o mês de maio marca a transição do período mais chuvoso para o mais seco na região e que, portanto, as chuvas observadas não configuram mudanças climáticas. Ele lembra que a média histórica de precipitação é de 506 mm em março, 453 mm em abril e 323 mm em maio, mas destaca que todos esses valores vêm ficando acima do normal. Segundo ele, maio também deve ultrapassar os 400 mm, mais de 30% acima da média, já que o acumulado está próximo desse volume.


“Hoje nós estamos em uma condição que não é de mudanças climáticas; maio já é o mês de transição do período mais chuvoso para o mais seco. Saímos de 500 mm em março e 450 mm em abril, sendo que a média de março é 506 mm, a de abril é 453 mm e a de maio é 323 mm. Só que tudo ficou acima da média, e maio também vai ficar. Deve fechar acima de 400 mm, porque já estamos chegando nesse valor; mesmo que chova só mais 20 mm, ultrapassa os 400 mm, ou seja, mais de 30%”, comenta.


O meteorologista acrescenta ainda: “E ainda vamos ter chuva ao longo do mês, embora a tendência seja de diminuir a partir de junho. Também está chovendo muito naquela região; está chovendo muito na região de Santarém, Altamira, Monte Alegre, Belterra, Mojuí dos Campos e em toda a região do Tapajós”.