Flávio Bolsonaro ampliou a votação do pai em quase todo o país. Esse crescimento, porém, não foi uniforme. A mudança foi maior em cidades que dependem mais do agronegócio, especialmente da produção de grãos, da pecuária e das grandes propriedades. É nesses lugares que aparece a associação mais consistente para entender o avanço da direita e a perda de espaço do PT. Para entender melhor o que explica o avanço de Flávio Bolsonaro neste primeiro turno, o time de inteligência de dados da Quaest conduziu uma análise estatística multivariada que combinou resultados eleitorais dos municípios brasileiros com informações econômicas e sociais do que aconteceu nesses últimos 4 anos. A comparação principal considera a participação de Flávio nos votos válidos do primeiro turno de 2026 e a de Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2022, que cresceu em 98% dos municípios do país. Diante de um movimento tão disseminado, a pergunta relevante passa a ser onde ele foi mais forte. O estudo pôs à prova três explicações que circulam no debate público: o peso do agronegócio na economia local; a expansão das igrejas evangélicas, talvez a mais debatida; e o avanço do empreendedorismo. Só a do agro resiste a todos os testes. E ela aponta para uma conclusão mais geral: o crescimento de Flávio seguiu o crescimento da participação do agronegócio, especialmente nas cidades pequenas do país. O crescimento da participação do agro na vida dos municípios está muito mais associado ao avanço de Flávio do que mudanças recentes, religiosas ou de tipo de ocupação. A primeira resposta aparece quando dividimos as cidades em cinco grupos, conforme o peso da agropecuária na economia. No quinto com menor participação do setor, Flávio cresceu, em média, 3 pontos percentuais sobre o desempenho do pai. No quinto mais dependente do agro, foram 7,1 pontos. Entre os dois extremos, o crescimento aumenta a cada grupo: 4,8, 5,4 e 6,2 pontos. Esse padrão aparece nas cinco regiões. É mais intenso no Sul, onde a diferença entre os extremos vai de 4 a 9,5 pontos, especialmente em áreas do interior de São Paulo, de Minas Gerais, do Centro-Oeste e da fronteira agrícola do Norte. A força desse resultado depende de uma pergunta adicional: essas cidades votaram de maneira diferente por causa de seu perfil produtivo ou porque também são menores, têm outra renda e já apoiavam mais Bolsonaro? Para enfrentar essa dúvida, comparamos municípios do mesmo estado e consideramos características como tamanho do seus eleitorados, renda, proporção de moradores rurais, presença evangélica, Bolsa Família e votação de Bolsonaro em 2022. Mesmo levando em conta esses outros fatores, a associação com o agro permanece. Ela também resiste quando o resultado analisado passa a ser a mudança na vantagem da direita sobre Lula. O tipo de produção ajuda a tornar esse retrato mais preciso. Nos municípios classificados como produtores de grãos, o crescimento de Flávio foi 2,3 pontos maior que nos de pouca participação do agro. Nos de pecuária, a diferença foi de 1,2 ponto. Os classificados como de agricultura familiar diversificada não apresentaram uma diferença estatisticamente identificável nessa comparação. O detalhamento reúne características que frequentemente aparecem juntas: produção de grãos, criação de gado, grandes propriedades e crédito rural. A evidência é mais consistente para esse conjunto do que para atribuir a mudança a um único componente. O tamanho pequeno da cidade, sozinho, diz menos sobre o fenômeno do que a atividade econômica ao redor da qual ela se organiza. As outras duas hipóteses examinadas oferecem explicações mais limitadas. A abertura de igrejas evangélicas aparece associada a um crescimento adicional pequeno de Flávio. O resultado, entretanto, varia conforme a forma de medir a expansão e praticamente desaparece na comparação dentro das grandes cidades. Já os municípios com maior proporção de evangélicos apresentam crescimento adicional um pouco menor. Isso é compatível com a existência de uma base que já apoiava Bolsonaro em 2022, embora os dados não comprovem esse mecanismo. Um grupo pode continuar importante para a votação de Flávio e explicar pouco o acréscimo em relação ao pai. A evidência disponível permite questionar o alcance da expansão evangélica como explicação para a mudança, sem concluir que religião deixou de importar no voto. A abertura de microempreendedores individuais, os MEIs, também tem pouco poder explicativo próprio entre municípios depois dos controles. Sua associação inicial acompanha características das cidades grandes, nas quais Flávio cresceu menos. Dentro das grandes cidades, porém, surge outro resultado. Na comparação entre locais de votação de um mesmo município, áreas com maior expansão de novos MEIs, considerado o estoque anterior, apresentam maior crescimento de Flávio. Esse achado sugere uma dinâmica urbana que merece investigação.
A combinação de igrejas e MEIs, que corresponderia à leitura da "teologia da prosperidade", também não aparece: a abertura de igrejas não anda junto com a de MEIs, e o crescimento de Flávio varia só 0,6 ponto entre as diferentes combinações. Quando as três hipóteses entram na mesma análise, o agro é o único fator que se sustenta em todas as versões testadas. As medidas evangélicas, em conjunto, e os MEIs não se sustentam em nenhuma. O que pode ter provocado o avanço nos municípios do agro? A fronteira agrícola dá uma pista. Entre as 21 medidas do setor examinadas, a expansão da soja entre 2018 e 2025 e o desmatamento entre 2019 e 2022 seguem associados a mais crescimento de Flávio, mesmo descontado o peso do agro na economia. Já a expansão mais recente dos grãos, de 2021 a 2025, não se associa a mais crescimento. O mesmo vale para o emprego no setor, a exposição ao tarifaço dos Estados Unidos e a variação do crédito rural entre os governos Bolsonaro e Lula. Não se trata, portanto, de uma onda recente de expansão ou de uma reação a perdas econômicas. O crescimento de Flávio foi maior onde grãos, gado, grandes propriedades e crédito rural já sustentam a economia local. Ou seja, em uma cidade organizada ao redor da lavoura e da pecuária, o desempenho do setor alcança o comércio, as oficinas, os transportes e os serviços. O eleitor que vive nesse ambiente, por exemplo, pode trabalhar longe de uma fazenda, mas sua vida é atravessada pelos efeitos do agronegócio. Matopiba, que reúne áreas do Maranhão, do Tocantins, do Piauí e da Bahia, é hoje a principal fronteira de expansão da soja. O Tocantins é o único estado inteiramente incluído na região. Lula venceu ali em 2022 e perdeu agora. E a questão do agro ajuda a entender a virada: boa parte do Tocantins reúne as marcas dos municípios onde Flávio mais cresceu no país, como soja em expansão, gado e grandes fazendas. Abertura de igrejas e de MEIs ao tarifaço, portanto, ajudam pouco a localizar onde Flávio cresceu mais. O que melhor explica seu crescimento é a estrutura econômica dos lugares: ele foi maior onde o agronegócio empresarial já organiza a vida local, inclusive onde a direita era mais fraca. Entender por que isso aconteceu exigirá ouvir os eleitores que vivem nesses municípios. O mapa indica onde procurar. A explicação completa ainda depende de conhecer o que mudou na vida — e na avaliação política — de quem mora nesses locais.
O Globo