Feito entre humanos e natureza, manto tupinambá é exposto em mostra que reúne povos indígenas: 'Ele é coletivo'
Primeiro, colete penas de aves, mas atenção: não é para matar nenhum bicho nesse processo. É possível recolher o material do chão mesmo durante as revoadas, por exemplo. Depois, limpe, seque e conserve as penas no congelador para eliminar as bactérias e preservar sua integridade. A partir disso, a base, ou “gabarito”, pode ser feita com fio ou barbante, definindo a forma e o caimento. Em seguida, as penas são organizadas por tamanho e cor e aplicadas uma a uma, formando camadas. O resultado depende da densidade e da sobreposição das peças.
Resumidamente, este é um breve passo a passo de como é feito um manto tupinambá, de acordo com a prática deste povo indígena nos tempos atuais. A vestimenta é tradicionalmente usada em rituais e cerimônias religiosas. Na exposição “Eu chorei rios: arte dos povos originários da América”, um exemplar poderá ser visto pelo público a partir de hoje na FGV Arte, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. A abertura, entre 18h e 21h, contará com uma apresentação da artista Glicéria Tupinambá, que confeccionou a peça e a vestirá antes de ela, enfim, ser exposta.
— O pessoal fala de performance, mas não é isso. Vejo como se estivéssemos quebrando a barreira das pessoas, que estão acostumadas a ver o manto na vitrine. Mas como é ver uma pessoa portando um manto em movimento? — pergunta-se Glicéria, que também assina a curadoria da mostra ao lado de Paulo Herkenhoff, curador chefe do espaço. — Quando o manto encontra-se no território, ele está envolvido nos rituais e é orgânico. Quando está fora desse ambiente, o outro tem esse desejo de apreciação, de botar como intocável. Mas precisamos entender que ele tem o seu movimento.
Glicéria Tupinambá com o manto de seu povo
Guito Moreto
Doação das aves
No caso, este manto feito por Glicéria — que pertence à aldeia Serra do Padeiro, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, na Bahia — conta com penas de aves como tururim, sabiá, bico-de-osso, canário-do-mato e arara-vermelha. Um ponto importante é que a artista, seguindo os preceitos de sua comunidade, afirma que não é necessário que nenhum pássaro morra para a confecção da peça.
— O manto, quando é concebido pelas minhas mãos, não sou só eu (que participa do processo). Ele é coletivo. Porque os pássaros, os gaviões e tantas outras aves também participam… Os pássaros doam as suas penas para a gente — explica ela, que se dedica a repassar esses ensinamentos aos demais. — Transmito esse conhecimento para os jovens da aldeia em oficinas e levo para a sociedade para que não se perca.
As penas passam por um ciclo até a sua utilização: há um período de coleta e outro de maturação. Quando estão em fase inicial, são chamadas de “penas verdes” porque ainda carregam sangue em seu corpo. Mas, com o tempo, isso diminui até desaparecer, momento em que o elemento fica maduro o suficiente para uso.
Além do manto, a exposição da FGV Arte reúne produções sobre o universo indígena como pinturas, fotografias, esculturas, objetos, instalações e artefatos históricos, feitos tanto por artistas de povos originários ou não. A mostra conta com nomes como Ailton Krenak, Yaka Edilene Sales, Huni Kuin, Claudia Andujar, Daiara Tukano, Lastenia Canayo, Djanira da Motta e Silva, Xadalu Tupã Jekupé, Gustavo Caboco, Lygia Pape, Mestre Valentim e Jaider Esbell.
Obra da artista peruana Lastenia Canayo
Pat Kilgore/Divulgação
'U'awá Bu'sá - manto do Urubu Rei', de Daiara Tukano
Ana Pigosso/Divulgação
Viver sem destruir
O pensamento indígena permeia a mostra de forma a mostrar que podemos viver em sintonia com o meio ambiente sem destruí-lo.
— Para os indígenas, não há diferença na Humanidade. Nem há qualquer diferença entre os seres na Terra, entre o racional e o irracional. A pedra, a água, o céu e a chuva participam todos desse Universo em harmonia — comenta Herkenhoff.
Dois anos atrás, Glicéria esteve envolvida na repatriação de um outro manto de seu povo, que havia sido produzido há mais de 350 anos e estava no acervo do Museu Nacional da Dinamarca. Tratava-se de um artefato indígena de 1,8 metro, feito com penas do pássaro guará — que tem uma coloração avermelhada vibrante por se alimentar de mariscos. Hoje, a peça está sob a guarda do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na Zona Norte do Rio.
A Dinamarca anunciou que vai entregar ao Brasil um manto tupinambá do século 17, que está em Copenhagen desde 1689.
Museu Nacional da Dinamarca
Na cultura tupinambá, o retorno do manto não poderia ser tratado apenas como um procedimento institucional envolvendo um artefato de grande valor, mas como um acontecimento ligado à espiritualidade e à memória coletiva do povo. Tanto que, após sua chegada, o grupo indígena realizou rituais em torno da vestimenta sagrada para celebrar o retorno: era o momento de o povo voltar a ouvir o manto falar, depois de tanto tempo sem essa escuta.
— As pessoas são ensinadas que os objetos não falam. Só que, na minha cultura é diferente, os objetos espiritualizados falam e dão direcionamentos — afirma Glicéria.
