Federação entre União e PP enfrenta desgaste e reforça desafios a partidos que buscam modelo

 

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Idealizada pelas cúpulas partidárias para formar a maior força política do país, a federação entre União Brasil e PP caminha para ser formalizada em meio a um processo de desidratação. O movimento expõe as dificuldades de negociações desse porte e serve de alerta a legendas que avaliam alianças como forma de driblar a cláusula de barreira.

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União e PP já entregaram o pedido ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para que a federação esteja em vigor na eleição, em 4 de outubro, a solicitação precisa ser aceita até seis meses antes da data. O acordo, porém, acontece em meio a disputas internas em ao menos 13 estados, e parlamentares insatisfeitos já anunciam uma debandada. Entre as exigências para os partidos que compõem a federação estão seguir a mesma posição em eleições por no mínimo quatro anos e atuar como se fossem uma legenda só no Congresso, compartilhando o mesmo líder partidário.

A estrutura reunirá 108 deputados, a maior configuração da Câmara, e 12 senadores, o que a deixará atrás apenas do PL e do PSD. Juntos, os partidos terão ainda um fundo partidário de R$ 954 milhões, além de seis governadores e 1.343 prefeitos, maior número entre as legendas.

As rixas, no entanto, começam na definição do apoio à Presidência e se espalham para questões locais. O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), é pré-candidato ao Planalto, mas seu nome enfrenta resistência no PP — ele e o senador Ciro Nogueira, presidente da legenda, já discutiram publicamente sobre o assunto. Aliados de Caiado afirmam que ele cobra garantias formais de que sua pré-candidatura será considerada dentro da federação e defende que a decisão seja submetida a uma convenção nacional, argumento que passou a alimentar resistências ao acordo em Goiás e em outros estados sob sua influência.

Novo cálculo

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), era um nome que unia o apoio da cúpula dos dois partidos, mas diante da decisão do ex-presidente Jair Bolsonaro de apoiar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como candidato, a possibilidade de Tarcísio entrar na disputa perdeu força. As legendas ainda calculam como vão se posicionar nacionalmente.

Em dezembro, o presidente do União, Antonio Rueda, publicou uma mensagem defendendo “responsabilidade fiscal e social”, citando os números da federação e dizendo que todos estarão “juntos”. A equação, no entanto, não é tão simples, diante de rachas internos agora somados aos atritos com o PP. Há chance de desfiliações no União como as dos deputados Mendonça Filho (PE), Felipe Francischini (PR) e Alfredo Gaspar (AL).


Caso a aliança prospere, Mendonça teria que dividir influência em Pernambuco com o deputado Eduardo da Fonte (PP). No estado, além da disputa por espaço entre as duas legendas, há divergências sobre o palanque de 2026: enquanto setores do PP sinalizam apoio à reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD), alas do União defendem uma aproximação com o prefeito do Recife, João Campos (PSB).

Aliados de Mendonça afirmam que o grupo não abrirá mão do comando estadual e avaliam que uma federação “imposta” pode levar à saída de parlamentares do partido.

Da mesma forma, o líder do União no Senado, Efraim Filho (PB), resiste a ter que compor com o deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que integra um grupo político diferente do dele na Paraíba. No estado, o impasse envolve diretamente a disputa pelo governo em 2026, com ambos se colocando como pré-candidatos e sem acordo sobre o critério de escolha do nome da federação.

Crise fluminense

No Rio, a aliança enfrenta dificuldades para definir uma estratégia única. O diretório estadual do União é presidido pelo deputado estadual Rodrigo Bacellar, que passou a conviver com resistências tanto pela falta de consenso sobre uma candidatura própria quanto pelo avanço das articulações em torno do prefeito Eduardo Paes (PSD).

Esse quadro se agravou após Bacellar ter sido preso e, mesmo assim, mantido no comando do diretório estadual com aval de Rueda. Embora tenha sido solto dias depois, o deputado passou a cumprir medidas cautelares, o que fragilizou o partido localmente e ampliou as divisões internas. Paralelamente, o afastamento de Bacellar da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) abriu disputa pelo comando da Casa. Já o PP é comandado no estado pelo deputado federal Doutor Luizinho, que mantém diálogo tanto com Paes quanto com setores do bolsonarismo fluminense, preservando margem de negociação para 2026.

Em São Paulo, o impasse envolve os grupos do ex-presidente da Câmara da capital Milton Leite (União), atual vice-presidente nacional da legenda, e do deputado federal Maurício Neves (PP-SP), presidente da executiva paulista do PP. O comando estadual é estratégico por concentrar o maior volume de recursos e tempo de TV da federação.

Há ainda divergências em outros estados. No Paraná, PP e parte do União não concordam com a pré-candidatura do senador Sergio Moro (União) ao governo. Após Ciro Nogueira afirmar que o partido não apoiará Moro, Rueda gravou um vídeo ao lado de ACM Neto reafirmando que a candidatura é “irreversível”, apesar do veto anunciado pelo PP no estado. A tensão foi agravada com a saída do deputado Pedro Lupion, do PP, em movimento avalizado por Tarcísio.

No Amazonas, pesa um conflito interno herdado da fusão entre DEM e PSL: o partido é comandado pelo governador Wilson Lima (União), mas enfrenta resistência do grupo ligado ao deputado Pauderney Avelino, que vê a federação como um movimento de consolidação de poder nas mãos de Lima. Em Minas, o União se aproxima de aliados do ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSD), enquanto o PP mantém diálogo com grupos ligados ao vice-governador Mateus Simões (Novo), dificultando uma costura comum.