Favela da Zona Sul do Rio, Chácara do Céu chama atenção por verticalização desordenada
Localizada no Alto Leblon, no entorno do Parque Natural Dois Irmãos, na Zona Sul do Rio, a Chácara do Céu passa por um processo de verticalização nos últimos anos.
Registros de satélite do Google Earth entre dezembro de 2015 e fevereiro de 2025 mostram que a comunidade, embora não tenha avançado tanto pela mata, passou a ter imóveis mais altos. Os prédios cresceram tanto que já podem ser vistos das praias do Leblon e Ipanema, o que antes não era possível.
O Censo de 2022 do IBGE aponta que a Chácara do Céu reúne 591 moradores distribuídos em 231 casas. Isso representa cerca de 23 mil habitantes por quilômetro quadrado - mais do que quatro vezes a média de toda a cidade do Rio.
Especialistas apontam falta de políticas públicas para evitar o fenômeno. A presidente da Associação de Moradores do Leblon esteve à frente do Programa de Orientação Urbanística e Social (Pouso), que atuava para orientar moradores a evitar construções irregulares. Evelyn Rosenzweig lamentou o fim do programa, durante a gestão de Marcelo Crivella.
Foi uma perda muito grande, porque sem o POUSO, começa a ter um descontrole total. Esse segundo, terceiro andar já não vale mais, passa a ter o quarto, o quinto, o sexto, ali não cabe isso. Não é um lugar que tem possibilidade de ter um crescimento horizontal, tem um crescimento vertical, esse é o perigo. E a gente sabe que muitas coisas acontecem sem necessidade, por falta de orientação, porque o morador precisa morar.
O avanço das favelas no Brasil ajuda a entender o cenário observado no Rio de Janeiro. Dados do IBGE apontam que, entre 2000 e 2022, a população total da cidade cresceu 6%, enquanto, nas comunidades, o aumento foi de 23,53%. No mesmo levantamento, o estado aparece em destaque: pela primeira vez, oito das dez favelas mais verticalizadas do país estão no Rio, entre elas Rocinha, Rio das Pedras, Muzema e Tijuquinha.
O presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio (CAU/RJ), Sydnei Menezes, afirma que o problema tende a crescer diante da ausência do poder público:
"O que não houve, na verdade, foi a continuidade da política habitacional. Os programas começam e eles são, de repente, interrompidos. Depois retorna um outro programa com outro nome, em particular na cidade do Rio de Janeiro. Eu me lembro bem que tinha aquela barreira ecológica, né? E acabou acontecendo um outro fenômeno que é evidente que é a verticalização, já que não cresce pro lado, cresce pra cima. A verticalização vale tudo, porque não há projeto, não há estudos, não há critérios. Então, a solução que a gente entende, no seu ponto de vista, urbanística, é necessário que haja presença do poder público no local, pra dar uma orientação urbanística e apoio de assistência técnica à habitação de interesse social às famílias."
As secretarias municipais de Ordem Pública e de Habitação não responderam se há algum programa de monitoramento da expansão de comunidades na cidade. Também não esclareceram se pretendem retomar com o Programa Pouso.
Já a Secretaria de Meio Ambiente disse que as construções estão fora do Parque Natural Municipal Dois Irmãos.
Apesar disso, a pasta disse que vai enviar equipe ao local para uma vistoria, a fim de tomar as providências cabíveis e, se for o caso, dar encaminhamento aos órgãos competentes para ações necessárias.
