Farinha pouca, minha farofa primeiro: uma das poucas instituições que funcionam sem arranhões nesta cidade é o PF de botequim

 

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Uma das poucas instituições que funcionam sem arranhões nesta cidade é o PF de botequim. O carioca adora. Também, é a nossa cara: tudo junto e misturado, só que com uma bossa — não necessariamente nova. Acessível, farto, gostoso, democrático. Em dias ruins, traçar um prato-feito no seu bar preferido tem mais efeitos terapêuticos do que uma cerveja gelada. Em casos mais graves, a recomendação é combinar os dois.

O que pode gerar controvérsia é a composição da refeição. Uns são categóricos em dizer que sem farofa não vale. Outros, que, se a batata frita não for de verdade, daquelas perfeitamente tortas cortadas pelo cozinheiro PhD em Geometria Descritiva, é fuleiro. E tem ainda aquele tipo de gente que vê a vida em preto e branco, quase como um protocolo de sobrevivência, e defende que a combinação correta é proteína, cereal, legumes e verduras.

Todas as respostas acima estão certas. A verdade é que não tem muita regra. A graça é essa. Embora opulento e até um pouco vulgar, o PF carrega uma leveza que permite um ajuste aqui, outro ali, sem que nenhum chef se sinta ofendido com a mudança. Tendo na casa, dá-se um jeito. Isso se estende também para os dias e horários em que são servidos.

Inicialmente criado para forrar a barriga de trabalhadores com refeições rápidas e em conta de segunda a sexta, o PF foi conquistando espaço na rotina do carioca. Virou aquele colega da firma a quem você se apega e acaba marcando uma praia no fim de semana. E, diferentemente dos almoços executivos de restaurante, servidos de segunda a sexta, exceto feriados, em um horário predefinido, alguns bares oferecem a refeição diariamente até a hora em que a cozinha fecha ou a comida acaba.

Em um lugar quase invisível na Avenida Princesa Isabel, fica um dos PFs mais arrojados da cidade. Refeições individuais, com uma proteína e guarnição livre, livre mesmo. Todas podem ser pagas com um galo e ainda volta troco. As mais caras, de peixe ou frutos do mar, saem por R$ 49. Um desbunde.

Não fossem as pessoas que brotam na calçada antes mesmo do meio-dia para garantir uma mesa, pouca gente notaria o Lanches Escol. Aliás, quase ninguém chama de Escol. O lugar é conhecido mesmo pelo nome do dono, Genilson. Há mais de duas décadas ali, ele transforma o bar de cozinha pequena numa das melhores opções de almoço da região.

É uma audácia, mas tudo acontece ali. Muitas vezes, o mise en place começa a ser feito logo quando o dia cai, no balcão mesmo, enquanto o pessoal se diverte com os pastéis de camarão e o gurjão de peixe do cardápio de petiscos. Não é raro as portas se fecharem e a produção de pratos mais consistentes, como feijoada e mocotó, seguir até mais tarde.

Na parede, a tabuleta de giz anuncia nada menos do que 30 sugestões de pratos do dia: frango com quiabo, língua com purê, escondidinhos de carne-seca, camarão ou carne moída... Ali não vale o escrito. É só um norte. Genilson faz questão de cantar o que há de melhor no dia.

Uma vez escolhido o fígado ou o pernil à milanesa, começa o desfile de acompanhamentos que vai além do feijão com arroz. É macarrão, polenta com quiabo, salada de batata, batata frita, purê... Vai assim até o bar fechar. O que muda com o avançar das horas é que pode ir acabando um extra ou outro.

Na dúvida, sempre chego lá cedo. Farinha pouca, minha farofa primeiro.

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