Fantasias de que seriam descartadas na Sapucaí são recuperadas por projeto ambiental e chegam até Londres

 

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Reaproveitar 1kg de fantasias que seriam descartadas ao fim dos desfiles na Sapucaí equivale a livrar o meio ambiente de um impacto semelhante a 2 mil km rodados de carro. A conta explica porque dar um pulo até a Rua Pedro Ernesto 67, na Gamboa, pode ser mais interessante do que encher o carrinho de balangandãs num site de produtos chineses. O endereço é sede do projeto Sustenta Carnaval, fundado em 2020 pela brasiliense Mariana Pinho, a partir de uma observação pessoal. “Trabalhei na equipe de criação da Mocidade Independente de Padre Miguel e, ao ver a quantidade coisas descartadas, levava tudo para casa”, recorda-se, sobre a experiência vivenciada em 2002.

Mas o espaço era pequeno diante da oferta de material. Afinal, hoje em dia, nos seis dias de cortejos na Avenida, o projeto idealizado por Mariana e em acordo com a Liesa e a Secretaria municipal de Meio Ambiente e Clima chega a recolher 25 toneladas de roupas e adereços descartados pelos foliões, com apoio da Comlurb. A fatia corresponde a 5% de de tudo o que é produzido, já que as próprias agremiações reaproveitam grande parte. Levados para a sede do Sustenta, são vendidos a R$ 5 o quilo. Pense em cabeças, costeiros e acessórios que podem ser reutilizados ou transformados em novas fantasias.

Itens já foram transformados em roupas na Europa

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Em alguns casos, viajam longe. Cidades como Macaé e Teresópolis já fizeram aquisições, entre compras e doações, e viram o próprio carnaval reflorescer. “São blocos e escolas que estavam há 10 anos sem desfilar porque não conseguiam viabilizar as fantasias”, conta Mariana. Mas há cruzadas ainda maiores. Ela já levou, em três anos, 450 quilos do material para Londres, onde mora e trabalha como gerente de projetos. Por lá, viraram roupas em residências artísticas em faculdades de moda e cruzou outra passarela: a da Sustainable Fashion Week, pelas mãos de estilistas.

É da capital britânica que Mariana conversou com a reportagem, semanas antes de embarcar para mais um carnaval no Rio, festa que curte mesmo durante a coleta. “Amo estar na dispersão, ajudar as baianas a se desmontarem. Sempre foi, para mim, uma festa de transformação”, diz. Antes disso, ela desfila no bloco Tecnomacumba, de Rita Benneditto, no dia 31, na região do Cais do Valongo, também na Zona Portuária carioca. “Vestimos minha banda toda com as fantasias do projeto”, comenta a cantora. “É um material muito rico, que conta a história da nossa cultura. Repaginá-lo em outros contextos é mostrar que juntos somos mais fortes.”