Famílias denunciam erro em fertilização in vitro e dizem ter recebido material genético errado em clínicas no Chipre
Famílias britânicas afirmam ter recebido material genético incorreto em tratamentos de fertilização in vitro realizados no norte de Chipre, em casos que envolvem ao menos sete crianças e colocam em xeque a regulação de clínicas na região.
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Entre os relatos está o de Beth e Laura, um casal que teve dois filhos por fertilização in vitro. Ambas utilizaram seus próprios óvulos e escolheram um mesmo doador de esperma, identificado como “Finn”, descrito como dinamarquês, saudável, que não fumava e bebia pouco, segundo reportagem da rede BBC. Em um texto, ele afirmava que queria “trazer vida e felicidade aos outros”.
Os tratamentos foram realizados na clínica Dogus IVF, que informou poder importar esperma da Cryos International, na Dinamarca. A primeira filha, Kate, nasceu após o tratamento de Laura. O segundo filho, James, veio após um novo procedimento com o mesmo pedido de doador. O custo total foi de cerca de 16 mil libras (cerca de R$ 110 mil, na cotação atual), incluindo aproximadamente 2 mil libras (R$ 13,7 mil) pelo esperma.
Testes de DNA revelam inconsistências
As suspeitas surgiram após o nascimento de James, quando o casal percebeu características físicas que não correspondiam ao perfil do doador.
— Foi logo depois que James nasceu que eu soube que algo não estava certo — conta Laura.
Famílias denunciam erro em fertilização in vitro e dizem ter recebido material genético errado em clínicas no Chipre
Reprodução/BBC
Após quase uma década de dúvidas, decidiram realizar testes de DNA. Os resultados indicaram que nenhum dos filhos estava relacionado ao doador escolhido e que as duas crianças não são biologicamente relacionadas entre si. Exames posteriores, reconhecidos por tribunais britânicos, confirmaram as conclusões.
Beth relatou a mudança na percepção sobre a origem genética dos filhos.
— Passamos de ter um perfil detalhado do doador e sentir que conhecíamos sua história para não ter nada — diz.
A BBC identificou outras famílias com suspeitas semelhantes. A maioria realizou testes de DNA que confirmaram inconsistências, todos ligados a clínicas no norte de Chipre. Há ainda relatos de duas famílias com possíveis erros envolvendo doação de óvulos.
O território não segue as leis da União Europeia e é reconhecido apenas pela Turquia, sem um regulador independente equivalente ao do Reino Unido. Clínicas locais oferecem preços mais baixos, maior variedade de doadores e procedimentos não permitidos em outros países, como seleção de sexo. O Ministério da Saúde local supervisiona o setor, mas não respondeu à investigação.
Respostas das clínicas e questionamentos legais
A médica Firdevs Uguz Tip afirmou que não era responsável por encomendar o esperma, questionou a confiabilidade de testes de DNA comerciais e disse não ter realizado tratamentos entre 2011 e 2014. Também declarou que não pode divulgar todas as informações por confidencialidade. A clínica Dogus IVF não respondeu aos pedidos de comentário, assim como Julie Hodson, ex-coordenadora.
O CEO da Cryos International afirmou: “Temos muitos processos de segurança, mas nunca é 100%. Somos humanos”. Ele disse não haver registro de erro semelhante em 45 anos.
Especialistas destacam que falhas com doadores são raras, mas casos repetidos podem indicar “negligência” ou “fraude”.
Impacto emocional e questões de identidade
Entre as famílias afetadas, persistem dúvidas sobre a origem genética das crianças. Uma mulher identificada como Kathryn afirmou:
— Não quero mentir sobre de onde ele veio.
Para os filhos de Beth e Laura, a questão também envolve identidade.
— Você não pode dizer que alguém é uma coisa e depois não é. Isso é ruim. Identidade é o principal. É quem você é — diz James.
Apesar da ausência de vínculo biológico, os laços familiares foram mantidos.
— Crescemos juntas. Ainda somos uma família, mesmo sem laço de sangue — explica Kate.
Sem respostas claras das clínicas, o caso levanta questionamentos sobre transparência, controle e segurança em tratamentos de fertilidade realizados fora do país.
— Temos dois filhos incríveis. No fim, tudo vai ficar bem — resumem Beth e Laura.
