Famílias acusam governo dos EUA de usar bebês negros em teste de vacina sem consentimento nos anos 1960; entenda

 

Fonte: Bandeira



As famílias de dois bebês negros entraram com ação judicial contra o governo dos Estados Unidos acusando autoridades federais de terem incluído os filhos, sem consentimento ou conhecimento dos pais, em testes experimentais de vacina contra o vírus sincicial respiratório (RSV) realizados em Washington entre 1965 e 1966.

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Segundo o processo, os dois meninos morreram cerca de um ano depois após desenvolverem doença associada a pneumonia bacteriana. Os bebês eram Ross Otto Hambrick e Victor Marcellus King. Ross morreu aos 14 meses, e Victor aos 16 meses.

A ação acusa o governo federal de morte culposa, ausência de consentimento informado e agressão civil, além de pedir compensação financeira, sem valor especificado.

Segundo o processo, os testes ocorreram em uma clínica infantil em Washington, D.C., e utilizavam uma vacina experimental contra RSV conhecida como "Lot 100".

Na década de 1960, pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH), liderados pelo dr. Robert Chanock, buscavam desenvolver uma vacina contra o vírus e já realizavam testes em humanos em clínicas da capital americana.

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Victor nasceu em agosto de 1965 e, segundo informações divulgadas pelo jornal The New York Times, rapidamente começou a andar e falar. Ross nasceu em outubro do mesmo ano e era conhecido pelas bochechas rechonchudas e pela cabeleira cheia.

Os dois estavam entre ao menos 31 crianças incluídas no estudo. Segundo a ação, a maioria — ou possivelmente todas — eram negras e vinham de famílias de baixa renda. As crianças receberam três doses da vacina experimental.

Investigação revelou participação dos bebês no experimento

O caso veio à tona após investigação publicada em 2023 pela Undark Magazine, revista digital sem fins lucrativos afiliada ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).

Os nomes de Ross e Victor foram identificados em um caderno de laboratório emitido pelo governo e pertencente ao dr. Robert Chanock, além de outros registros documentais relacionados ao estudo.

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De acordo com a investigação, as famílias desconheciam qualquer vínculo dos filhos com o experimento e só souberam da existência do estudo após contato de um repórter da revista.

As famílias são representadas pelo advogado de direitos civis Ben Crump, que criticou a condução da pesquisa.

— Nunca se tratou da saúde e da segurança desses bebês. Tratava-se apenas da busca implacável por colocar a vacina no mercado e transformá-la em lucro — afirmou.

O Departamento de Justiça dos Estados Unidos, segundo The New York Times, não respondeu a pedidos de comentário.

Hospitalizações antecederam interrupção do estudo

Segundo a ação, as aplicações da vacina continuaram apesar do aumento das hospitalizações associadas ao teste.

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Em novembro de 1966, o diretor do hospital infantil responsável pelas clínicas alertou os pesquisadores durante uma conferência que "Lot 100 poderia estar fazendo com que algumas crianças adoecessem violentamente ao contrair RSV, em vez de resistirem efetivamente ao vírus".

Segundo o processo, a advertência ocorreu antes das mortes. Em dezembro de 1966, um grande surto de RSV atingiu Washington.

Victor foi hospitalizado em 30 de dezembro com problemas respiratórios. No mesmo dia, Ross desenvolveu tosse crescente e dificuldade para respirar e foi internado naquela tarde.

Victor morreu em 1º de janeiro e Ross no dia seguinte.

Segundo a ação, o diretor do hospital decidiu interromper o estudo em 29 de dezembro. Após as mortes, pesquisadores preservaram amostras de tecido retiradas dos pulmões dos meninos.

O processo sustenta que esse material teve papel central em pesquisas desenvolvidas ao longo de décadas e que culminaram na vacina contra RSV atualmente utilizada em diversos países.

Em 2023, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos (FDA) aprovou a primeira vacina contra o vírus.

O RSV é uma das principais causas de mortalidade infantil no mundo, especialmente entre bebês prematuros. Os sintomas podem começar como um resfriado comum e evoluir para quadros graves.

A ação também levanta dúvidas sobre o consentimento dado pelas famílias, já que não está claro se houve assinatura de qualquer autorização para participação no estudo.

Harriet Washington, bioeticista e autora do livro "Medical Apartheid", afirmou que mecanismos éticos para obtenção de consentimento médico já existiam nas décadas de 1950 e 1960, embora ainda não houvesse legislação moderna específica. Segundo ela, esses códigos eram "rotineiramente ignorados".