Família de Marielle cobra condenação no primeiro dia de julgamento no STF: 'Oito anos é tempo demais'

 

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Familiares da vereadora Marielle Franco falaram durante o primeiro dia dos julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) dos cinco réus acusados de mandar executar a parlamentar. O crime aconteceu em março de 2018 no Rio de Janeiro. Também morreu, na ocasião, o motorista da parlamentar, Anderson Gomes.

A mãe da parlamentar, Marinete da Silva, afirmou que, depois de quase oito anos, este é um momento muito difícil para a família. Ela disse esperar que haja resposta aos mandantes da barbárie e destacou que é simbólico ver no banco dos réus homens que, segundo ela, jamais imaginaram que seriam julgados. “Vamos seguir até o fim”, declarou.

O pai da vereadora, Antônio da Silva, classificou o dia como primordial para que os acusados sejam julgados. Ele disse confiar cegamente na Primeira Turma do Supremo e criticou as estratégias das defesas, afirmando que as vítimas não tiveram chance de se defender.

"Hoje vai ser um dia primordial para que esses indivíduos, os cinco que sentarão no banco do réu hoje, sejam julgados. Todos os cinco não deram nenhuma chance de defesa para Marielle e Anderson, mas hoje eles estão com uma banca de advogados os defendendo para que não sejam condenados pelo que fizeram. Espero e confio cegamente na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, que são juízes com um grande saber jurídico e não vão se deixar levar pelas falácias dos advogados que defendem os réus", declarou.

A viúva de Anderson Gomes, Agatha Arnaus, afirmou que o julgamento pode dar uma resposta importante ao país e ressaltou que cargos e posições institucionais não podem servir de blindagem: "O julgamento de hoje tem o poder de dar uma resposta muito importante, de que posições institucionais não servem de blindagem para a prática de crimes, porque não mata só quem puxa o gatilho, mas quem obstrui a investigação, quem ordena matar, quem paga pela morte de alguém. Justiça não é um sentimento, é um processo, ela precisa ser concreta".

"Oito anos é praticamente a vida inteira do nosso filho. Ele já está há mais tempo sem o Anderson do que com o Anderson. É tempo demais para quem espera por resposta", completou.

A irmã de Marielle, a ministra Anielle Franco, ministra da Igualdade Racial, disse que o caso foi uma execução e que o julgamento representa uma resposta da democracia.

A companheira de Marielle, Mônica Benício, classificou o caso como emblemático e afirmou esperar uma condenação exemplar para que o que chamou de ecossistema criminoso no Rio de Janeiro seja desmantelado.

Defesas falam em ausência de provas

As defesas dos acusados sustentaram que a Procuradoria-Geral da República (PGR) não apresentou provas suficientes e pediram a absolvição dos réus. Os advogados afirmaram que a acusação se baseia essencialmente na delação de Ronnie Lessa e não demonstrou vínculo direto dos denunciados com o crime.

A defesa do ex-chefe da Polícia Civil Rivaldo Barbosa declarou que, após dezenas de diligências, não foram encontrados elementos que justificassem a denúncia por homicídio, corrupção ou lavagem de dinheiro. Também negou pagamento de propina e influência política para nomeação ao cargo, alegando ausência de provas de participação nos assassinatos.

Acusação pede condenação

No início do julgamento na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), o vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho, pediu a condenação dos cinco acusados e o pagamento de indenizações. Segundo a acusação, os irmãos Brazão atuavam com milícias e grilagem de terras na Zona Oeste do Rio e usaram cargos públicos para expandir negócios ilícitos, tendo a vereadora como obstáculo político.

"A história inicia nos anos 2000, quando Domingos e João Francisco atuaram para formar alianças com diferentes grupos de milícia em atividade no município de Rio de Janeiro, especialmente nas regiões de Oswaldo Cruz, Jacarepaguá e Rio das Pedras. Como é de conhecimento público, e conforme se comprovou ao longo de toda a instrução, os modelos de negócios ilícitos explorados por milicianos são primordialmente baseados em um rígido e violento controle territorial", argumentou.

O relator, ministro Alexandre de Moraes, leu o relatório e afirmou que o crime teria como objetivos eliminar oposição política e assegurar impunidade.

"Ainda diz a Procuradoria, em suas alegações finais, que Domingos e João Francisco agiram para constituir loteamentos irregulares, com os quais mais tarde negociaram com Ronnie Lessa como moeda de pagamento em relação ao homicídio da vereadora Marielle Francisco da Silva", leu.

A denúncia aponta que os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, Rivaldo Barbosa e Ronald Paulo respondem por duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio, enquanto Robson Calixto é acusado de organização criminosa. O julgamento continua com a votação dos ministros.