Falar com mortos? Fenômeno de 'fantasmas digitais' criados por IA gera riscos graves
Abrir o celular e ouvir novamente a voz de quem já morreu pode soar como um alívio em meio ao luto. A ideia de manter conversas, receber respostas inéditas e reviver traços de personalidade tem levado familiares a recorrer aos chamados deadbots ou ghostbots. Trata-se de um conjunto de sistemas de inteligência artificial (IA) capazes de simular digitalmente pessoas falecidas a partir de áudios, mensagens e vídeos deixados em vida. O que parece conforto, no entanto, também gera riscos graves.
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Em entrevista ao TechTudo, o psicólogo Eduardo H. Fagundes Oliveira explica como essa tecnologia pode interferir no processo de luto, criar dependência emocional e produzir dilemas éticos sobre memória e consentimento.
Falar com mortos? Fenômeno de 'fantasmas digitais' criados por IA gera riscos graves
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Falar com mortos? Fenômeno de 'fantasmas digitais' criados por IA gera riscos graves
No índice abaixo, confira os tópicos que serão abordados nesta matéria especial do TechTudo.
O Fenômeno dos Deadbots
O "Luto Interrompido"
Dependência e Substituição
Trauma de Desconexão
Ética do Consentimento
O que são os deadbots
A humanidade sempre buscou formas de preservar a memória dos mortos. Fotografias, gravações e cartas funcionam como registros reais do passado, porém, o que muda agora é a possibilidade de simulação ativa, com respostas inéditas produzidas por IA.
O psicólogo Eduardo H. Fagundes Oliveira contextualiza essa transformação histórica ao lembrar que, ao longo dos séculos, desenvolvemos tecnologias para guardar lembranças. O cenário atual, porém, traz uma mudança qualitativa.
“Com o advento das redes sociais, dos smartphones e, sobretudo, da inteligência artificial, um número imenso de pessoas produz e armazena dados diariamente. Essa produção massiva de registros pessoais potencializa a possibilidade de recriação pós-morte, muitas vezes sem controle claro sobre limites éticos e psicológicos.”
Se antes era possível revisitar apenas registros reais, agora a tecnologia cria interações que nunca aconteceram. "Hoje, a IA permite algo inédito: a simulação de voz e a geração de falas que nunca foram efetivamente pronunciadas em vida.” Nesse contexto, a voz, segundo o psicólogo, deixa de ser um elemento técnico e passa a ocupar um lugar especial na experiência psíquica. Ele complementa:
“A voz é um marcador central de identidade. Basta pensar na relação primária entre mãe e bebê: ainda no ventre, o feto reconhece e responde à voz materna, que se torna fonte de segurança e regulação emocional. A voz, portanto, não é apenas som, e sim um vínculo, memória e pertencimento.”
Mesmo quando há consciência racional de que se trata de uma simulação, a resposta emocional pode ser autêntica. O especialista lembra que pesquisas sobre presença parasocial mostram que o cérebro reage de forma genuína a estímulos artificiais, razão pela qual a recriação digital pode ser polêmica no processo do luto.
“Ainda que haja consciência cognitiva de que se trata de uma simulação, a resposta afetiva pode ser genuína, o que torna a experiência com tecnologias de recriação digital particularmente potente e potencialmente delicada no contexto do luto.”
Psicólogo explica fenômeno dos deadbots
Mariana Saguias/TechTudo
O ‘luto interrompido’
Uma das maiores preocupações da ciência é o impacto sobre o processo de luto. Eduardo lembra que a dificuldade de lidar com a finitude é estrutural na experiência humana e cita o antropólogo Ernest Becker, que em A negação da morte sustenta que “o ser humano investe grande parte de sua energia psíquica na tentativa de negar a própria finitude. É como se, no fundo, buscasse convencer a si mesmo de que, ao final, tudo não terminará de forma definitiva”.
Embora existam modelos clássicos que descrevem estágios como negação, raiva e aceitação, hoje se reconhece que o luto não é linear. Ainda assim, Oliveira alerta que a tecnologia pode interferir nesse percurso:
“O fenômeno recente dos deadbots pode, de fato, interferir no curso natural do luto, favorecendo a permanência do indivíduo em uma espécie de luto prolongado.”
A interação constante com a simulação pode dificultar a assimilação da perda. Segundo ele, “a possibilidade de interação em tempo real com uma representação digital do falecido pode sustentar a sensação subjetiva de continuidade do vínculo, retardando o enfrentamento da ausência definitiva e a reorganização emocional necessária ao processo de elaboração do luto.”
Esse cenário pode contribuir para o chamado luto complicado, em que o sofrimento permanece intenso e incapacitante por longos períodos, dificultando a retomada da vida funcional.
Especialista alerta para a interferência da tecnologia no processo do luto
Mariana Saguias/TechTudo
Dependência e substituição
Para além do luto em si, há o risco de substituição das relações humanas reais por uma versão digital previsível e moldada às expectativas do usuário. O psicólogo amplia a análise com base no filósofo canadense Charles Taylor, autor de As fontes do Self. Taylor descreve o sujeito moderno como um “eu protegido”, marcado por autonomia e autocontrole.
“Taylor descreve o indivíduo moderno como alguém que construiu uma espécie de fronteira nítida entre o mundo interno e o mundo externo. Este ‘eu protegido’ caracteriza-se pela sensação de autonomia, autocontrole e racionalização da própria experiência.”
No contexto dos deadbots, isso pode se traduzir em uma relação mais confortável do que as reais. A IA tende a responder de forma ajustada aos desejos do usuário, oferecendo validação constante e previsibilidade emocional.
“O ‘eu protegido’ encontra no deadbot um interlocutor que não desafia, não confronta e não exige alteridade real.”
Para o psicólogo, o problema não se limita ao funcionamento da ferramenta ou aos seus limites técnicos. A preocupação maior está nas consequências emocionais e existenciais que podem surgir do uso prolongado dessas simulações.
“O risco, então, não é apenas tecnológico, mas existencial: ao buscar consolo na simulação, o sujeito pode reforçar seu fechamento interior, evitando o confronto com a dor da perda e, ao mesmo tempo, esquivando-se da construção de novas conexões humanas. Relações reais são, por natureza, imprevisíveis, complexas, transformadoras e vitais.”
Psicólogo alerta para o risco de dependência emocional que os deadbots podem gerar
Mariana Saguias/TechTudo
Trauma de desconexão
Se a tecnologia pode prolongar a sensação de presença, ela também pode interrompê-la abruptamente. Falhas técnicas ou o encerramento do serviço podem apagar o fantasma digital de um dia para o outro.
Eduardo explica que o luto é um movimento de adaptação diante da ruptura de um vínculo significativo. Quando o usuário estabelece uma interação diária e emocionalmente intensa com o deadbot, sua exclusão repentina pode reativar o sofrimento inicial.
“Caso essa presença digital desapareça repentinamente por uma falha técnica, encerramento de contrato ou decisão da empresa, é possível que o indivíduo reviva aspectos do luto inicial.”
Ele descreve essa hipótese como uma segunda perda: “Esta experiência pode ser percebida como uma segunda perda, reativando sentimentos já elaborados ou ainda não resolvidos.” Oliveira observa que, como se trata de um fenômeno recente, os impactos ainda carecem de investigação aprofundada, mas a combinação entre apego emocional e desaparecimento súbito pode intensificar o sofrimento.
Psicólogo explica de interrupção de diálogo com IA que simula mortos pode intensificar o sofrimento
Mariana Saguias/TechTudo
Ética do consentimento
Além dos efeitos psicológicos, os deadbots também levantam dilemas éticos e jurídicos relevantes. Para Eduardo, não existe um direito absoluto de recriar digitalmente alguém que morreu, mesmo que tenha havido uma relação profunda em vida. A questão central, segundo ele, deveria ser outra: a própria pessoa falecida teria autorizado esse tipo de recriação?
O psicólogo lembra que, na convivência humana, não temos controle total sobre o que o outro diz ou como escolhe se posicionar. A identidade é construída também pelas discordâncias, pelos limites e até pelos silêncios. Em uma simulação digital, porém, essa dinâmica muda.
Ao programar respostas, ajustar tom de voz e selecionar quais memórias serão priorizadas, o criador do deadbot passa a interferir diretamente na forma como aquela personalidade será percebida. Com isso, a representação pode deixar de refletir a complexidade do indivíduo real e começar a reproduzir a versão que o sobrevivente deseja preservar. Ou seja, a memória pode ser distorcida.
“É um fenômeno complexo e perigoso. De certa forma, o deadbot deixa de ser uma representação do falecido e se torna, na prática, um avatar do próprio criador, refletindo mais os desejos, expectativas e interpretações de quem o constrói do que a pessoa que se foi.”
Para especialista, fenômeno dos deadbots é complexo e perigoso
Mariana Saguias/TechTudo
Com informações de RZN e The Conversation
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