Fabricante critica oferta de Mounjaro manipulado na rede pública de cidade em São Paulo; entenda

 

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A farmacêutica americana Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, criticou a decisão da cidade de Urupês, no estado de São Paulo, de ofertar na rede pública uma versão manipulada do medicamento para tratamento de pessoas com obesidade.

Em nota, o laboratório diz compreender “a urgência que os administradores públicos sentem ao enfrentar a obesidade” e reconhecer a “genuína intenção” por trás da medida em Urupês, município de 13,7 mil habitantes no interior paulista.

“No entanto, estamos profundamente preocupados com o fato de que o programa, conforme anunciado, está colocando cidadãos em risco. Imagens do anúncio do município revelam que o produto sendo distribuído é uma versão manipulada em escala industrial da tirzepatida — e não o Mounjaro da Lilly. Preocupa-nos que os pacientes possam não estar cientes dessa distinção e creditem estar recebendo um medicamento aprovado pela Anvisa quando, na verdade, não estão”, continua.

A única versão aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) da tirzepatida é o Mounjaro, indicado para tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. O remédio é protegido por patente até 2036, logo, outras farmacêuticas não podem produzir produtos similares ou genéricos.

No entanto, no Brasil, medicamentos aprovados pela Anvisa podem ser manipulados em farmácias magistrais, ou de manipulação, para casos específicos, como dosagens ou apresentações necessárias para um determinado paciente que não sejam comercializadas pelas fabricantes.

Por serem apenas produtos personalizados para demandas específicas, as farmácias de manipulação não podem manter estoques dos remédios ou fazer propagandas, apenas preparar o medicamento mediante prescrição médica.

Porém, devido ao alto preço do Mounjaro e à proteção patentária, que reduz os concorrentes, farmácias de manipulação têm aproveitado a popularidade dos remédios e oferecido produtos que supostamente seriam a mesma formulação a valores menores. Mas essas formulações não são avaliadas pela Anvisa em relação à integridade, à eficácia e à segurança, como o remédio original.

“A Lilly convida o prefeito de Urupes a reavaliar, com a devida urgência, a distribuição desses produtos e manifestamos nossa abertura para um diálogo construtivo sobre as prioridades de saúde pública do município”, diz a farmacêutica.

Além disso, pelo programa ofertar o medicamento produzido em larga escala diretamente aos pacientes, apenas substituindo a versão original, o laboratório argumenta que a medida “está fora do escopo legalmente permitido para manipulação de medicamentos no Brasil”.

A Eli Lilly afirma ainda ter encontrado versões de tirzepatida manipulada no Brasil e em outros países contendo bactérias, altos níveis de endotoxinas, impurezas significativas ou uma estrutura química completamente diferente daquela do medicamento aprovado.

“Os pacientes que recebem esses produtos não têm como saber o que está sendo administrado a eles. Boas intenções não compensam esses riscos. A segurança do paciente deve sempre vir em primeiro lugar”, finaliza o laboratório.

A prefeitura de Urupês anunciou o programa na última semana, afirmando que o medicamento será fornecido de forma gratuita junto a um acompanhamento por uma equipe médica multidisciplinar composta por endocrinologista, nutricionista, psicólogo, educador físico e assistente social. O protocolo foi oficializado em decreto publicado no último dia 13.

Em nota, a prefeitura diz que o departamento de Saúde do município começará a oferta para pacientes que estão na fila de espera para cirurgia bariátrica e em situação de vulnerabilidade social, incapazes de custear o medicamento pela rede privada. A previsão é que 200 pacientes sejam atendidos no tratamento de forma escalonada.

Para isso, eles também deverão cumprir todos os seguintes critérios:

idade igual ou superior a 40 (quarenta) anos;

diagnóstico de obesidade, caracterizado por a) IMC ≥ 35 kg/m² associado a, no mínimo, uma comorbidade clínica relevante; ou b) IMC ≥ 30 kg/m² associado a, no mínimo, duas comorbidades clínicas relevantes;

tentativa prévia documentada de tratamento não farmacológico por período mínimo de seis meses.

O critério de idade, porém, será desconsiderado para os casos em que o IMC for superior a 40 Kg/m². E, nos casos em que não houver indicação para uso do remédio, a prefeitura afirma que os pacientes continuarão em acompanhamento com orientações de alimentação, atividade física e suporte psicológico.