Fábio de Melo fala da perda da mãe e de questionamentos sobre sua sexualidade: 'A vida sexual de um padre sempre gera curiosidade'
Padre Fábio de Melo falou sobre a perda de sua mãe e o sentimento conflitante que a morte dela provocou nele. O sacerdote, fil[osofo, escritor e cantor deu entrevista à jornalista Maria Fortuna no videodecast do jornal OGLOBO, Conversa vai, conversa vem', no ar no Youtube e no Spotify. No bate papo, ele também criticou sobre os ataques de ódio na internet e comentou os questionamentos sobre sua sexualidade. Leia trecho:
No seu livro 'A vida é cruel, Ana Maria', em que imagina diálogos com a sua mãe, você diz que, depois que ele morreu, morreu também a sua obrigação de ser feliz...
É o amor mais difícil de ser entendido, o mais complexo, aquele que nos coloca dentro de uma leveza quando o outro vai embora. Tem algo mais contraditório do que de sentir livre e, de alguma maneira, feliz, depois que sua mãe morre? É a maior tristeza do mundo, mas é também a maior libertação. O amor materno, é tão simbiótico que você passa uma vida inteira olhando para os dois lados antes de atravessar a rua. Não porque você tem medo de morrer, mas porque tem medo de deixar sua mãe sozinha no mundo.
Já disse que seu maior medo quando criança era o de sua mãe morrer...
Era o meu maior pavor.
Padre Fábio de Melo
Guito Moreto
E ela morreu num contexto muito duro, no meio da pandemia, e nem pôde se despedir. Foi a perda mais cruel que você teve?
Sem dúvida. E não foi somente uma perda, foi uma ressignificação da vida. E ela está sendo cruel ainda comigo. Porque é entender que, a partir daquele rompimento, encerrou-se o amor mais fecundo que já experimentou. Não é só uma orfandade que retira o direito de ter um ventre que foi sua primeira casa. Não é só uma materialidade que parte. É um significado que se rompe. Sabe aquela coisa de "eu tenho alguém por mim"? Não tenho mais. Minha mãe era a pessoa que seria capaz de me perdoar de qualquer coisa. Outros amores me perdoam, mas não de tudo.
Como se sentiu ao ter sua sexualidade questionada por uma deputada nas redes?
O que se pode dizer? Essa pessoa me conhece? Já participou da minha intimidade? Como posso reagir a isso? Da maneira como escolhi viver: fazendo o bem a quem puder. Se for interromper o que faço para cuidar de cada um que tem opinião sobre mim, não vou viver. Estamos transformando a vida num campo de batalha, isso nos adoece. A vida sexual de um padre sempre gera curiosidade. Estou acostumado.
A vida sexual do padre existe?
Claro! Pode não ter a vida genital, mas a sexualidade envolve todos os nossos afetos. A força da comunicação vem de onde? É sempre de sedução. Na linguagem, todos os recursos humanos se manifestam. E a isso chamamos de sexualidade também. Agora, vai ser sempre um problema... Se ando com você, estou tendo caso. Vou ser sempre vítima disso. Pra mim, não faz diferença. Me ofenderia dizer que sou mau caráter, que roubei, feri, tratei mal alguém.
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Como lida com o celibato e tentações do campo mundano como desejo sexual?
Com as dificuldades que uma pessoa precisa para ser fiel ao que escolheu. A vida de um padre tem limites e possibilidades. Gosto de estudar, ler. Minha opção pela arte me ajuda a sublimar. Limitamos desejos aos carnais. Mas os desejos espirituais são maravilhosos.
