FAA aposta em gamers para enfrentar déficit de controladores de tráfego aéreo nos EUA

 

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Enquanto o governo Trump busca suprir a escassez nacional de controladores de tráfego aéreo, autoridades estão mirando um novo grupo de talentos: os gamers.

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A Administração Federal de Aviação (FAA, na sigla em inglês) lança nesta sexta-feira uma campanha de recrutamento voltada a jogadores assíduos de videogames, na tentativa de preencher milhares de vagas que, segundo parlamentares, deixam o público viajante menos seguro. Em um novo anúncio no YouTube, a agência utiliza gráficos chamativos e a promessa de salários de seis dígitos para convencer entusiastas de jogos a aplicarem suas habilidades em prol da segurança aérea.

Nos últimos anos, gamers passaram a ser alvo de recrutadores de diversas agências federais, incluindo as Forças Armadas e o Departamento de Segurança Interna. Eles são valorizados pela coordenação motora, rapidez na tomada de decisões em ambientes complexos e capacidade de manter foco em telas por longos períodos.

— Para alcançar a próxima geração de controladores de tráfego aéreo, precisamos nos adaptar — afirmou o secretário de Transportes, Sean Duffy, em nota. — Focar em gamers aproveita um grupo crescente de jovens adultos que possui muitas das habilidades técnicas necessárias para ter sucesso na função.

Especialistas em tráfego aéreo reconhecem que gamers podem ter habilidades úteis, mas questionam se essa estratégia será suficiente para resolver os problemas mais amplos de pessoal na agência.

— Quando você contrata alguém com experiência em jogos, especialmente relacionados ao controle de tráfego aéreo, essa pessoa já tem uma vantagem — disse Michael O’Donnell, consultor aeroespacial e ex-alto funcionário da FAA. — Mas isso não substitui aptidão, disciplina ou a capacidade de tomar decisões sob pressão.

O governo enfrenta dificuldades há mais de uma década para recrutar controladores suficientes. Apesar dos esforços do governo Trump para “acelerar” as contratações, nas palavras de Duffy, a FAA aumentou em 300 o número de controladores plenamente certificados desde setembro de 2024, elevando o total para mais de 11 mil em todo o país. Ainda assim, o número está milhares abaixo das 14.663 posições consideradas ideais em relatório divulgado em agosto de 2025.

Autoridades atribuem o avanço lento a fatores como evasão de profissionais, o longo tempo de formação e uma taxa historicamente alta de desistência durante o treinamento. Ainda assim, afirmam que há progresso nessas frentes e que os resultados devem aparecer com o tempo.

— Vamos começar a ver ganhos significativos em cerca de dois anos e meio a três anos — disse Heather Fernuik, diretora executiva do setor de recursos humanos da FAA.

Segundo ela, o tempo médio para integrar novos contratados foi reduzido pela metade durante o governo Trump, passando de 13 meses para cerca de seis meses e meio. A taxa de evasão também caiu, de cerca de um terço dos trainees para aproximadamente um quarto.

Autoridades acreditam que o recrutamento de gamers pode tornar o processo ainda mais eficiente. A FAA planeja priorizar esse público em detrimento de métodos tradicionais, como feiras universitárias, destacando que apenas 25% dos controladores possuem diploma universitário tradicional, enquanto a maioria tem experiência com videogames.

Durante a transição presidencial em 2024, integrantes do novo governo entrevistaram cerca de 250 recém-formados da academia de controle de tráfego aéreo ao longo de seis semanas. Apenas dois não eram gamers, segundo autoridades da FAA, que falaram sob condição de anonimato. Os alunos que não concluíram o treinamento não foram consultados, mas a agência pretende realizar entrevistas mais abrangentes no futuro.

Ainda assim, a forte presença de gamers entre os formados coincide com relatos de controladores já certificados, muitos dos quais jogam videogame durante intervalos no trabalho. Josh Jennings, supervisor de 40 anos no centro de comando de tráfego aéreo da FAA na Virgínia, afirmou que os jogos se tornaram uma espécie de moeda social entre os profissionais, além de uma forma de manter habilidades afiadas.

Ele relembrou que, no início da carreira, controladores mais jovens ficavam inquietos quando os mais experientes queriam assistir às notícias nos intervalos. Em 2009, um gerente comprou um Xbox para a sala de descanso. Jennings, que joga Fallout e Call of Duty, disse que ser gamer se tornou algo comum na profissão — e com resultados positivos.

— Eu diria que é pelo menos dez vezes mais rápido como essa nova geração aprende a lidar com nossa tecnologia e com os radares — afirmou. — Eles querem ter sucesso, querem vencer.

As Forças Armadas já investem há anos em estratégias para atrair gamers, inclusive se inserindo em determinados jogos. Esse perfil se tornou ainda mais desejado com a evolução da guerra moderna, cada vez mais baseada em operações remotas. Nos últimos meses, a agência de imigração dos EUA também passou a usar memes populares entre gamers para recrutar novos agentes, em meio a uma ampla campanha de deportação.

A FAA espera que o foco mais intenso nesse público traga resultados melhores do que iniciativas anteriores. O próximo período de inscrições, que começa em 17 de abril, será limitado a 8 mil candidatos — número que autoridades acreditam ser atingido em poucos dias.