Extrema direita da Alemanha mira em dissidência conservadora e sigla populista de esquerda para formar governo regional

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

O partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD, na sigla em alemão) começou a sondar outras legendas sobre a possibilidade de formação de um governo de coalizão que a leve ao comando do Executivo da região da Saxônia-Anhalt, no leste do país, após conquistar 44% dos votos na eleição de domingo. Há três cadeiras de conquistar a maioria absoluta no Parlamento estadual, a estratégia da liderança da AfD passa por conquistar o apoio de dissidentes de siglas tradicionais ou atrair para um eventual acordo a legenda populista de esquerda Aliança Sahra Wagenknecht (BSW, ou "Aliança por Justiça Social e Racionalidade Econômica", em tradução livre), que conquistou o menor número de assentos entre os partidos com representação, mas que pode ter peso decisivo. Análise: Vitória da extrema direita em eleição regional na Alemanha envia sinal a capitais europeias Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo com informações sobre 36 países A expressiva votação da AfD na região de 2,1 milhões de habitantes — uma zona que fazia parte da Alemanha Oriental e tem índices de desemprego e empobrecimento maiores que o restante do país — provocou uma reação de autoridades federais e de outros países da Europa, uma vez que nenhum partido de extrema direita chegou ao Executivo em qualquer instância de poder alemão desde 1945. Após o período nazista, os partidos tradicionais criaram um consenso de manter fora de coalizões de governo as siglas de extrema direita — uma espécie de cordão sanitário alemão, existentes em outros países europeus, como a França.

O consenso de não negociar com a AfD cria um caminho difícil para a formação do governo estadual. A sigla elegeu 39 deputados, mesmo número que o conquistado pelos quatro partidos tradicionais com representação — 15 da União Democrata Cristã (CDU), 8 do Partido Social-Democrata (SPD), 8 dos Verdes e 8 do Die Linke (A Esquerda). Os cinco deputados restantes são do BSW, um pequeno partido populista que nasceu de uma cisão do Die Linke, mas se deslocou para a direita, defendendo controles migratórios rígidos e uma aproximação de Moscou. A agência de notícias alemã DW definiu a sigla, em um perfil recente, como "populista de esquerda socialmente conservadora". Três caminhos se apontam para a AfD, dois deles com participação decisiva do BSW — que durante a campanha na Saxônia-Anhalt, descartou apoiar Ulrich Siegmund, líder local da AfD, mas não descartou apoiar o partido extremista em si. Caso votem juntos, os partidos teriam 44 votos. — O cordão de isolamento não nos interessa e vamos conversar com todos os partidos — disse o líder estadual do BSW, Thorsten Schulze, na noite de domingo. Claudia Wittig e Thomas Schulze, deputados eleitos pelo BSW, em coletiva de imprensa: sigla pode ter peso decisivo em futuro governo Ronny Hartmann/AFP Governo minoritário Caso três dos cinco deputados do partido apoiem a AfD na eleição no Parlamento, Ulrich alcançaria os votos necessários para chegar ao Executivo. Porém, mesmo com uma participação omissiva, o BSW pode ter peso decisivo. A eleição no Parlamento pode ter até três etapas. Na primeira, cada candidato precisa reunir apoio da maioria absoluta — 42 deputados —, um cenário que parece improvável para qualquer dos partidos neste momento. Há duas rodadas de votação para que se alcance maioria. Em não havendo acordo, abre-se uma segunda votação, na qual os deputados eleitos deliberam sobre a dissolução do Parlamento e a convocação de uma nova eleição imediatamente. Caso o BSW vote de forma contrária à convocação de nova eleição ou se abstenha de participar, nenhum lado terá como obter maioria. A terceira etapa, então, levaria a uma última votação, nos termos da primeira, mas sem a exigência de maioria absoluta para que haja um vencedor. Neste caso, forma-se um governo minoritário, em que o Executivo opera sob bases mais instáveis, precisando negociar cada medida a ser implementada — e mais suscetível a votos de desconfiança. Manifestantes fazem protesto contra o partido Alternativa para a Alemanha em Berlim John MacDougall/AFP Aposta em dissidências A liderança da AfD parece estar trabalhando em uma terceira opção para garantir um governo majoritário. A estratégia, segundo analistas da política alemã, seria convencer deputados da CDU a romperem com o cordão sanitário e apoiarem o governo radical — que além da pauta linha-dura sobre imigração, defende uma revisão sobre o ensino de história nas escolas, menos focado na culpa alemã pelo Holocausto e Segunda Guerra Mundial. Em discursos de líderes locais e nacionais desde o domingo, a AfD lançou um discurso oficial de que a integração do partido a outras siglas era uma "demanda da democracia" após o resultado na Saxônia-Anhalt. Ulrich afirmou que iniciaria diálogos individuais com os deputados eleitos, e classificou a missão como uma "tarefa histórica". Friedrich Merz: Chanceler alemão se diz 'profundamente chocado' com vitória do AfD Pouco espaço de oposição Para as siglas tradicionais, há pouco espaço para formação de um bloco de oposição à AfD. O atual governo regional é liderado pela CDU, e embora o número de assentos somados com os demais partidos seja igual ao da extrema direita, limitações envolvendo a orientação política de cada uma delas individualmente inviabilizam um grande acordo. A liderança da CDU rejeitou participar de uma coalizão com o Die Linke, que considera de extrema esquerda, embora o partido minoritário tenha se mostrado mais aberto a negociar eventuais cenários. Uma possibilidade seria votar no candidato de uma coalizão formada pelos demais partidos, mesmo sem participação no Gabinete, a fim de barrar a AfD. Milhares de manifestantes protestaram na segunda-feira no Portão de Brandemburgo, em Berlim, sob o lema "Frear a AfD". Representantes da comunidade judaica da Alemanha também demonstraram preocupação com o retorno do apoio à extrema direita mo cenário político alemão. (Com AFP e NYT)

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